sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Escultura de Musa de Boêmio - Adelino Moreira




“ Escultura “ 
Cansado de tanto amar
Eu quis um dia criar
Na minha imaginação 
Uma mulher diferente
De olhar e voz envolvente
Que atingisse a perfeição 
Comecei a esculturar
No meu sonho singular
Essa mulher fantasia
Dei-lhe a voz de Dulcinéia
A malícia de Frinéia
E a pureza de Maria
Em Gioconda fui buscar
O sorriso e o olhar
Em Du Barry o glamour
E para maior beleza
Dei-lhe o porte de nobreza 
De Madame Pompadour
E assim de retalho em retalho
Terminei o meu trabalho
O meu sonho de escultor
E quando cheguei ao fim
Tinha diante de mim 
Você , só você , meu amor 


   Adelino Moreira, compositor de “Escultura “, nasceu na cidade do Porto, em Portugal, em 1918, e migrou com 1 ano de idade para o Brasil. De infância tranquila, cursou até o segundo ano científico do ensino médio. Casou- se cedo, aos 18 anos e aos 20 anos tomou aulas de bandolim e guitarra portuguesa. Foi pródigo na produção de músicas de serestas, ou de dor de cotovelo, como queiram, que foram entregues ao povo por cantores da velha guarda como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Núbia Lafayette e Ângela Maria. Quem na “bela loira desposada do sol “boêmia dos anos 60 não curtiu uma fossa na boate Alabama, nos restaurantes Estoril e Lido ou na boate Fascinação não tem ideia do que perdeu! Uma mimosa Fortaleza, menina – moça vestida de chita, de pés descalços, acolhendo com carinho seus amantes, onde uma simplória rádio - patrulha, preguiçosamente circulava, caçando uma ocorrência, que quase nunca aparecia.
    Principais composições de Adelino Moreira: A volta do boêmio; Negue; Mariposa; Argumento; Meu vício é você; Fica comigo esta noite; Deusa do asfalto; A flor do meu bairro e Doidivana. Títulos todos muito bem sugestivos, por sinal. A musa idealizada por Adelino Moreira, sobrepõe imagens femininas construindo um inocente arabesco com variadas matizes. O compositor luso – brasileiro não atingiu a perfeição com sua musa idealizada, pois a nós ínfimos mortais não nos é dado atingir tais atributos. Mas, claro, permite – se- nos o devaneio. Vamos agora munidos com o frágil bisturi da paixão, dissecar, com o merecido respeito, algumas das citadas figuras na música “Escultura“:

Dulcinéia: Uma personagem fictícia da eterna obra Dom Quixote do célebre Miguel de Cervantes y Saavedra (1547 – 1616). Representa a dama dos pensamentos do cavaleiro de la Mancha, na realidade uma rústica moradora de Toboso, na qual D. Quixote se obstina em ver todas as perfeições físicas e morais. Ela, Dulcinéia, passou a designar a heroína de um amor ridículo. E ele, D. Quixote, um lunático a perseguir moinhos de vento.
Madame Pompadour: Antonieta Poisson, marquesa de Pompadour, cortesã preferida de Luís XV, Rei de França (1721 – 1764). O rei lhe concedeu o título de marquesa em 1745; teve sobre ele uma influência que duraria até sua morte. Mecenas e amiga de filósofos, favoreceu o desenvolvimento das artes e das letras. 

Du Barry, condessa, Maria Joana Vaubernier Bácu, cortesã francesa, foi a última favorita de Luís XV, rei de França. Casada com o conde João Du Barry, instalou – se na corte, onde levou uma vida escandalosa. Julgada por um tribunal revolucionário, foi decapitada durante o Terror (1743 – 1793). 

Gioconda: Nome pelo qual ficou conhecida Monna Lisa, esposa de Zanobi del Giocondo, retratada em 1500, pelo genial artista italiano renascentista Leonardo da Vinci (1452– 1519). Obra prima que exibe o mais enigmático olhar do mundo das artes, fazendo parte do rico acervo do museu do Louvre.

Frinéia: Cortesã grega (século IV a.C) natural de Téspia (Beócia); filha de pais humildes. Começou como vendedora ambulante de alcaparras, passando, mais tarde, a tocadora de flauta. Foi a cortesã mais afamada de Atenas e amante do grande escultor Praxíteles, ao qual serviu de modelo, para suas imortais esculturas. Frinéia enriqueceu à custa das dádivas de seus muitos admiradores. Quando da destruição de Tebas, ela propôs sua reconstrução com recursos próprios, desde que, deixassem inscrita sobre a principal porta da cidade: “Alexandre destruiu Tebas, Frinéia a reedificou “. A ideia não vingou, sendo ela voto vencido. Tendo por motivo torpe a inveja, foi acusada de impiedade num tribunal de Atenas. Seu sagaz defensor, Hipérides, sentindo que os juízes se mostravam pouco propícios à benevolência, resolve salvar sua constituinte, simplesmente desnudando–a ali em público. Em presença de tão maravilhosa beleza, os juízes absolveram, por unanimidade, a bela fêmea. Por ocasião das festas em honra de Netuno, deus do Mar, que se realizavam em Atenas, ela colocava – se no ponto mais alto do templo, e, depois de se deixar admirar imóvel pela multidão embevecida, desnudava- se por completo e dirigia- se para o mar, caindo nos braços de Netuno, deixando o público extasiado e ébrio.
   Saltando muitos séculos, aqui nos trópicos, abaixo da linha do equador, onde não existe pecado, numa proporção bem inferior, tivemos a bailarina, naturista e feminista Dora Vivacqua, conhecida como Luz del Fuego (1917 – 1967) que ateou mais fogo que luz em muitos inocentes corações caboclos. Mas aí já faz parte de outra estória a ser posteriormente contada. Ponto final.

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