quinta-feira, 17 de agosto de 2017

DOIS POETAS BISSEXTOS DO CEARÁ



O Estado do Ceará sempre foi um celeiro de bons trabalhadores da palavra escrita, seja na prosa ou na poesia. Pontuam como poetas ditos bissextos, aqueles cuja produção literária a despeito de uma descontinuidade característica, evidencia uma alta qualidade, própria daqueles eleitos pelas musas. Cumpre sinalar, que dentre nós pontuaram  venerandas figuras, como: Fran Martins ( 1913 -1996), Rachel de Queiroz (1910 – 2003), Moreira Campos (1914- 1994), Mozart Soriano Aderaldo (1917- 1995), Pedro Sampaio (1884- 1967), Francisco Alves de Andrade (1913- 2001), Gustavo Barroso (1888- 1959), Papi Junior (1854- 1934) e Demócrito Rocha (1888-1943), dentre outros.

Destaque para dois exímios trabalhadores da palavra e consagrados poetas bissextos:

João Jacques Ferreira Lopes (1910- 1999), jornalista, cronista, pintor e poeta:

“ Paralelo com o abstrato “:

Tu te formaste, ganhando um canudo/eu me formei sem diploma/chegaste de vitória em vitória/ao fim de uma carreira/continuo de queda em queda/no começo de uma andança/tens uma pedra no dedo, e eu, no sapato.../na engenharia, a tua especialidade/ é a arquitetura/na minha profissão indefinida/tenho uma técnica mais indefinida ainda/lidas com o barro, a areia e a cal/a pedra, o cimento e o ferro/meu material é de todo imaterial:/o sonho, a saudade, a tristeza, o amor.../na fôrma de madeira, derramas/o concreto/na forma, ponho o abstrato.../da tua treina e dos teus cálculos/saem colunas, vigas , lajes e/orçamentos, enquanto/eu pago para fazer projetos/lucrando apenas experiência/e quando a morte vier/ela, a destruidora/ela , a igualitária/ela, a cega de guia/não ficarão de teus templos/pedra sobre pedra/ e de minhas catedrais de nuvens/nem os sinos , nem os santos, nem os vitrais.../apenas, sobre nós ambos/cantará/ a colher do pedreiro/a colher do coveiro/construindo a tua última parede/guardando num cofre o último poeta.../


João Clímaco Bezerra (1913- 2006): Jornalista, advogado, romancista e poeta:
“ Cabocla “:
Cabocla das carnes roliças e queimadas/a tua alma é o berço/onde dormem as doces canções da minha terra/por ti soluçam as tristes violas nas várzeas/por ti, canta o sertanejo a sua doce toada de saudades.../cabocla/eu sonho com um homem forte e poderoso/cheio de fé no Brasil/que te vencerá um dia/quando a terra do sertão/ for golpeada de estradas de rodagem/nunca mais ouvirás, cabocla/o sertanejo cantando a sua doce toada de saudades/nem as várzeas cobertas de açudes/escutarão os doces acordes da viola/só o ruído ensurdecedor das máquinas do homem novo/quebrará o doce silêncio da terra sertaneja/que tristeza imensa sentirei nesse futuro/eu morrerei de saudades da cabocla/ e o sertão de saudades da viola/

Crônica tendo como referência a “ Antologia de poetas bissextos do Ceará “, do príncipe Artur Eduardo Benevides (1923-2014) , Revista Clã , número 25, Ano de 1970 .









  


terça-feira, 15 de agosto de 2017

BRINCANDO COM FOGO




Wernher Von Braun (1912- 1977), gênio criador dos foguetes V-2, instado pelos chefes nazistas para apressar a invenção de mortíferos artefatos atômicos por ocasião da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) teria declarado: “ Que importa quem ganhe a guerra? Eu quero é ir à lua! ” E no Japão, na arrasada e pequena Nagasaki, o prefeito de então, Tsume Tajawa, lembrou: “ Se o Japão possuísse o mesmo tipo de arma, tê-la-ia usado, também”.

Nos dias hodiernos, dois pouco convencionais líderes políticos de países, um na América do Norte, com cerca de 360.000.000 de habitantes e outro no Leste Asiático com aproximadamente  23.000.000 de habitantes, encontram-se com as mãos próximas aos botões que podem deflagrar um inimaginável ataque atômico, um dantesco Apocalipse. Estamos a assistir, uma vez mais, o deplorável bicho-homem a brincar, irresponsavelmente, com fogo. Tomara que seja só fabulação de dois histriônicos senhores.

E que Deus tenha piedade de nós!

“ Pensem nas crianças mudas telepáticas/pensem nas meninas cegas inexatas/pensem nas mulheres rotas alteradas/pensem nas feridas como rosas cálidas/mas, oh, não se esqueçam/da rosa, da rosa, da rosa de Hiroshima/a rosa hereditária/a rosa radioativa/estúpida e inválida/a rosa com cirrose/a anti-rosa atômica/ sem cor, sem perfume/sem rosa, sem nada “   Composição “ Rosa de Hiroshima “, de Vinícius de Moraes (1913- 1980).



“ Poetas, seresteiros, namorados, correi/é chegada a hora de escrever e cantar/talvez as derradeiras noites de luar/momento histórico, simples resultado do desenvolvimento da ciência viva/afirmação do homem, normal, gradativa sobre o universo natural/ sei lá que mais/ah, sim! Os místicos também profetizando o fim do mundo/e em tudo o início dos tempos do além/em cada consciência, em todos os confins/da nova guerra ouvem-se os clarins/guerra diferente das tradicionais, guerra de astronautas nos espaços siderais/ e tudo isso em meio às discussões, muitos palpites, mil opiniões/um fato já existe que ninguém pode negar,7,6,5,4,3,2,1, já! /e lá se foi o homem conquistar os mundos, lá se foi/ lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi/nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão:/ a lua foi alcançada afinal, muito bem, confesso que estou contente, também/a mim me resta disso tudo uma tristeza só/talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção/o que será do verso sem luar?/o que será do mar, da flor, do violão ?/tenho pensado tanto, mas não sei/poeta, seresteiros, namorados , correi/é chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar “  Composição “ Lunik – 9 “ , de Gilberto Gil (1942 -) .

domingo, 13 de agosto de 2017

PAI



Um ser plural, resiliente, inspirador, promotor e defensor do autocuidado (para consigo), do altercuidado (com o outro), do ecocuidado (com o ambiente) e do transcuidado (com as fontes provedoras do sentido da vida humana).

Aquele que também sabe “ padecer no paraíso”, “ com o avental todo sujo de ovo”, “ que vale mais que o céu e que o mar “, tal qual a sua alma gêmea, surfando nesta modernidade líquida de Zygmunt Bauman (1917- 2017).

“ Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse/que me olha e é tão mais velho do que eu? / porém , seu rosto...é cada vez menos estranho.../ meu Deus, meu Deus.../parece meu velho que já morreu !/como pude ficarmos assim?/nosso olhar – duro- interroga :/” o que fizeste de mim ?/eu , pai? Tu é que me invadiste/lentamente, ruga a ruga... que importa?/ eu sou, ainda,/ aquele mesmo menino teimoso de sempre/e os teus planos enfim lá se foram por terra/mas sei que vi, um dia- a longa, a inútil guerra!-/vi sorrir , nesses cansados olhos, um orgulho triste ...    O velho do espelho, poema de Mário Quintana (1906- 1994) .

Reza uma lenda indígena que tinha um costume de deslocar os indivíduos mais idosos da tribo para o cume de uma montanha com o intuito de abandoná-los à sua própria sorte. Certa feita, num dia de muito frio, um filho que acompanhava o pai naquele caminho, com o coração cortado, minimizou:

- Pai, vou deixar este cobertor aqui, para o senhor se proteger deste incômodo frio.

O velho, calmamente, respondeu:

- Deixe comigo só a metade do cobertor, filho. Fique com a outra para quando chegar a sua vez!”

Mande daí, da morada dos bons, sua benção, meu querido e velho pai!
E, Parabéns a todos os pais!







sexta-feira, 11 de agosto de 2017

HOMENAGEM AO DIA DOS PAIS



Há poucos minutos compartilhei de uma homenagem ao dia dos pais idealizada por crianças, dentre elas, Ana Lis, minha filha de 8 anos, num colégio do Bairro de Dionísio Torres. Um palestrante, na ocasião, deu ênfase a imagem de um Carpinteiro, José, de braços abertos em atitude de proteção a uma Gestante, Maria. Naquele gesto simbólico de José, plasmava-se o amor, o carinho, a proteção, o desvelo, enfim, o fermento em que sólidas raízes dariam origem uma árvore que, definitivamente, produziria bons frutos. Ali em minha volta vivi um gozoso momento onde um grupo de anjinhos a levitar, em infantil graça, cantaram e oraram a Deus, pelos seus pais.

“ Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol, o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões alheias. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.

O campônio, o leitor de novelas, o puro asceta – estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade- um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação, que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo – quer haja sido, quer não – me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que tenho e o que não quero” (Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa).
Obrigado, Ana Lis e demais anjinhos da escola e, parabéns a todos os pais que habitam esse mundo de meu Deus!




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

UM POSTO DE OBSERVAÇÃO: AI DE TI, FORTALEZA

Para a Dra. Guiomar Vasconcelos Frota


Na Praça da Sé, escorado na Catedral Metropolitana, em eterna construção, saltou do chão feito visagem, um humilde cubículo de madeira dotado de duas bombas de combustíveis, denominado de Posto Esso, tendo como proprietário o comerciante cearense José Eleutério Filho, e que ajudava a compor a imagem da zona central de Fortaleza nos idos de 60 do século passado. Um adolescente de pouca conversa, sempre com um livro debaixo do braço, bombeiro daquele estabelecimento comercial de gasolina, montou ali o seu posto de observação, de onde sorvia em largos goles, o néctar da vida naquele burburinho de gente.

Ao derredor espalhavam-se de maneira anárquica, pensões, bares, lojas, hotéis, beirando o Palácio do Bispo. Destacava-se ainda, o Mercado Central com seus inúmeros boxes. De madrugada chegavam comboios de jumentos abarrotados de mercadorias oriundas, principalmente, dos distantes bairros de Messejana (Paupina) e Parangaba (Arronches). 
Circulavam no local, caminhões – mistos, posto que, carregavam no mesmo espaço, pessoas, mercadorias e bichos vindo do interior do estado. Logo adiante sobressaia -se o Quartel General da 10ª Região Militar, junto aos restos do antigo Forte de Schoonenborch erigido por Matias Beck durante a permanência dos holandeses por estas bandas em 1649. Ali onde nasceu o burgo aos pés do heroico Riacho Pajeú, espraiava-se a vida citadina com seus variegados personagens como, párocos com batinas longas, negras e puídas, políticos de ternos brancos, catraieiros com sacos equilibrados sobre a cabeça, vendedores ambulantes e, especialmente, as queridas damas-da- noite, habitantes das inúmeras pensões alegres que formavam o colar de pérolas do pecado que envolvia num abraço amoroso aquele bucólico centro de Fortaleza, ainda uma meiga adolescente com vestido de chita. 

Vez por outra, soturnas caminhonetes dotadas de negros penachos levando almas recém- desencarnadas, circulavam, lenta e silenciosamente, por uma rua que nascia aos pés da Catedral e desembocava mais adiante no Cemitério de São João Batista.

Reverberava naquela época, de forma contundente nas mesas dos bares da região, um bárbaro fato policial que abalara os arrais da Loura Desposada do Sol, do boêmio Paula Ney. No dia 01 de setembro de 1950, na Pensão da Graça, localizada na Rua Conde D’Eu número 541, o ex-jogador de futebol, atacante do Ceará Sporting Clube, o paraibano José Ramos de Oliveira, conhecido como Idalino, chegou naquele recinto acompanhado dos comerciantes de Campina Grande, Aloísio Millet e Geraldo Castro. Estes haviam vendido para Idalino, um automóvel Chevrolet no valor de 145 contos de réis, constando de uma entrada de 6 contos, ficando o restante a ser pago em Fortaleza. Surge na história a figura de Alcinda Leal, irmã de Graça, que assumira a direção daquela casa noturna e era amásia de Idalino. Enquanto Alcinda dava as boas-vindas aos três homens, Idalino seguia para um quarto na companhia de Aloísio com o intuito de efetuar o restante do pagamento do veículo comprado em Campina Grande. Aproveitando um descuido, Idalino desfere violento golpe em Aloísio com uma barra de ferro, matando-o imediatamente. O morto é, de pronto, escondido. Entra em seguida Geraldo que também recebe o mesmo tratamento, uma agressão mortal com a mesma barra de ferro. Agora Alcinda e Idalino tornaram - se além de amantes, cúmplices de um duplo e bárbaro crime. No mesmo dia os dois corpos seguiram para o bairro da Barra do Ceará onde foram sepultados em covas rasas, naquele ponto, nas margens do Rio Ceará onde, coincidentemente, o português Martim Soares Moreno fundara o Forte de São Sebastião em 1612. Assim, os dois infelizes comerciantes foram chacinados por um conterrâneo paraibano, em terras cearenses, tendo a trama sido desenrolada em dois pontos que marcaram o nascimento da cidade de Fortaleza, o Forte de Schoonenborch, próximo ao Riacho Pajeú, na área central da cidade e, o Forte de São Sebastião nas margens do Rio Ceará, na zona oeste de Fortaleza. O epílogo deste triste acontecimento policial deu-se com a prisão do casal Idalino e Alcinda que, posteriormente, foram julgados e condenados a penas de 30 anos para ele, e 6 meses para ela. 

De lá para cá a cidade de Fortaleza agigantou-se tomando ares de metrópole, situando-se como a quinta maior do Brasil em população estimando-se cerca de 2.609.716 habitantes (IBGE 2016) e mostrando, infelizmente, um assustador índice de violência urbana, deslustrando a singular beleza da Virgem dos Lábios de Mel. Que pena!
Ai de ti, Fortaleza!


                                       
 AÇÃO GIGANTESCA, DE MÁRIO GOMES 



Neste sábado na boca da noite com o deus - sol preparando o berço para cair nos braços de Morfeu ,"bato um papo maneiro" com o poeta inquieto cearense Mário Gomes (1947-2014) num pedaço perdido de praia no litoral leste do Ceará :
" Beijei a boca da noite/e engoli milhões de estrelas/fiquei iluminado /bebi toda a água do oceano /devorei as florestas /a humanidade ajoelhou - se aos meus pés /pensando que era a hora do Juízo Final /apertei ,com as mãos, a terra /derretendo-a/as aves em sua totalidade /voaram para o além /os animais caíram do abismo espacial/dei uma gargalhada cínica /e fui descansar na primeira nuvem/que passava naquele dia/em que o sol me olhava assustadoramente /em fui dormir o sono da eternidade/e acordei mil anos depois /por trás do Universo /" . Ação Gigantesca , da autoria de Mário Gomes, vencedora do Festival de Poesia Cearense , de 1981.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

UM NOVO PARADIGMA/ UMA NOVA LEI ÁUREA

Para o filósofo, advogado e parteiro Roger Soares



No dia 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea abolindo oficialmente a escravidão no Brasil. A integração do elemento negro na sociedade de classes vem se dando de forma lenta e gradual. No Brasil dos dias atuais persiste, ainda, o trabalho servil em determinados nichos. Em um deles, é vero, sob o véu de um silêncio constrangedor, encontra-se um profissional da área de saúde – o obstetra: laborando diuturnamente, sem direito a férias, em permanente sobreaviso, todos os dias do ano e, assim, consome a vida inteira, até que sob a pressão de doenças degenerativas – diabetes, hipertensão arterial, obesidade – por conta do desgaste do crônico estresse laboral, faz-se abatido, precocemente, pela Parca. Assim aconteceu com um a um dos grandes parteiros deste arraial cearense, verdadeiros heróis anônimos!
Numa época, não tão distante, os tais obstetras faziam todo o trabalho de pré-natal, parto e puerpério sem contar com a ajuda de outros profissionais, absorvendo uma carga adicional de pressão. Hoje tal travessia faz-se mais humanizada com a cooperação inestimável de vários profissionais da área de saúde (neonatologista, anestesiologista, enfermeira obstétrica, fisioterapeuta, fonoaudióloga, psicóloga e doula). Navegando na grande onda do retorno bem-vindo do parto natural estão sendo gestadas instalações hospitalares adequadas e equipes multiprofissionais completas para prestarem um perfeito acolhimento do casal grávido.
 Abriu-se faz anos, desde de 2004, no Brasil, tratativas sobre um novo tópico na assistência ao parto de usuárias do Sistema de Saúde Suplementar, com a denominação de Disponibilidade Obstétrica, onde vários atores se posicionam na mesa abrindo um franco debate. De um lado a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Ministério Público e os clientes usuários dos distintos planos de saúde; de outro lado, a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, o Conselho Federal de Medicina, os Conselhos Regionais de Medicina, as Sociedades Estaduais de Ginecologia e Obstetrícia, as Cooperativas de Ginecologia e Obstetrícia e todo o contingente de obstetras. Sem entrar no mérito da questão em si, queira Deus que este pugilato não alcance e esgarce o frágil tecido que compõe a relação médico- paciente. Até a presente data a medicina ainda não encontrou nenhum remédio que restaure a perda de confiança entre as partes que formam o arcabouço de uma consulta médica.
Os “gigantes“ da Medicina Suplementar estão a implantar equipes multiprofissionais completas para prestarem assistência ao casal grávido conseguindo, inclusive, promover a redução do número de cesáreas. Uma vitória, sem dúvida. Tal estratégia traz em seu bojo a “carta de alforria” do obstetra que conduz o pré-natal e fica desobrigado de realizar o parto caso não esteja sob regime de plantão hospitalar. Desta maneira a assistência na gravidez/parto no Brasil, no que tange a Saúde Suplementar passa a ser semelhante com aquela oferecida em países desenvolvidos do Hemisfério Norte.
Não se sabe, ainda, qual o epílogo do polêmico tema “ Disponibilidade Obstétrica “, contudo, uma coisa é certa: independente para que lado o pêndulo se desloque, a nova “ Lei Áurea” libera o obstetra do sobreaviso permanente e permite que o mesmo assista ao parto quando estiver de plantão no hospital, deixando um tempo livre para que o parteiro, a seu bel prazer partilhe com estudos, lazer e família. Quer vingue ou não a tal “ Disponibilidade Obstétrica” a arte de partejar exercida em nosso meio nunca mais será a mesma e a “secular escravidão” do obstetra cairá, definitivamente, por terra, nascendo uma obstetrícia composta de uma rica equipe multiprofissional como grande instrumento de apoio ao casal gestante. Que assim seja.


terça-feira, 25 de julho de 2017

PARA UMA CERTA TURMA DE ESTUDANTES DA UFC: QUANTA SAUDADE!




No final dos anos sessenta do século passado, uma turma de estudantes universitários de medicina de Fortaleza, no Ceará, se abeberava de um mágico e atribulado momento da história mundial implementando um novo estilo de vida e participando de um confronto aberto com tudo que representasse as formas autocráticas de governo. Os tais aprendizes de Hipócrates, quase crianças, absorviam como esponjas, modas alienígenas do tipo cabelos longos, calças faroeste com boca de sino, estampadas blusas coloridas, cobrindo os pés com toscas chinelas de rabicho e portando na cintura uma indefectível bolsa de couro. Isto os marmanjos, claro! As damas, mais discretas, queimavam sutiãs, bebiam, fumavam em público e emitiam, quando necessário, sonoros palavrões. Tudo isso sem perderem elas os mimosos ares de princesas.

Uma pândega!

Sob as centenárias mangueiras no pátio da escola de medicina no bairro de Rodolfo Teófilo os alunos articulavam inocentes passeatas de surpresa no centro da cidade para manifestações contra o governo militar vigente, com os mantras importados de uma minúscula ilha caribenha“ o povo armado derruba a ditadura” e “ o povo unido jamais será vencido”. Alguns estudantes aproveitavam a ida para aquelas arenas, sabotando aulas regulares, e peregrinavam pela incipiente indústria farmacêutica instalada na área central da cidade de Fortaleza. Dava-se, então, a busca de amostra grátis de remédios, como, vermífugos, expectorantes, vitaminas, antibióticos e anticoncepcionais, estes últimos, uma verdadeira coqueluche, para dar vazão ao reinante “ faça amor, não faça guerra”.

Os principais fornecedores de tais brindes eram os gerentes dos laboratórios Andrômaco, Sarsa, Ciba, Roche, Geigy, Lilly, Lepetit, Squibb e Bristol, dentre outros. Assim se conquistavam as receitas que, posteriormente, sairiam das mãos daqueles futuros esculápios e promissores parceiros.  A Big Pharma nasceria bem depois com remédios para quase todo tipo de achaques (disfunção erétil, demências, hipertensão arterial, diabetes, osteoporose e distúrbios do humor), tudo sob a égide de verdadeiros gigantes multinacionais.

Na praça do Ferreira e em seu entorno fervilhava na época uma gozosa vida boêmia com bares e boates (Continental, Hollywood, Fascinação, Guarani, Ubirajara, City, Império, Bar da Alegria e Monte Carlo), fazendo com que muitos daqueles futuros filhos de Hipócrates saíssem com sacolas abarrotadas de remédios doados pelos

laboratórios e adentrassem, como num passo de mágica, naquelas “casas- alegres” para exercerem uma nobre missão humanitária, ofertando graciosamente, assistência médica no período vespertino, àquelas  criaturas filhas de Deus. Via de regra, na ocasião os estudantes faziam aquela pertinente anamnese, seguindo as boas práticas dos seus mestres de Porangabuçu e examinavam apenas as partes do corpo que o vestido não encobria. Ponto final e tudo sob a rigorosa vigilância da “ madame” dona da boate, pondo um freio nas “clientes “ mais exibidas e nos “ doutores” mais estouvados, posto que, o ambiente ali exigia respeito.

Quando o véu da noite cobria aquela região da cidade, acendendo as bruxuleantes luzes do pecado, alguns daqueles estudantes de medicina voltavam, agora ao som de açucarados boleros como “ Frenesi”, “ Beija-me Muito” e degustando uma “cuba-libre”, para desfrutar de outras histórias, estas sim, verdadeiras aulas de filosofia de vida, valendo mais que muitos tediosos compêndios de medicina. Quão grandes eram aquelas pequenas e sofridas criaturas em sua dolorida confissão íntima. A razão por que foram parar naquele dura peleja, quase sempre passava por um romance proibido, gerando uma gravidez indesejada e findando no cruel desprezo imposto pela rígida moral familiar reinante.

Ah, minha amada Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, que imensa maldade   fizeram perpetrar contra tua pujante vida no centro da cidade, consumida em nome do progresso, como se denomina, eufemisticamente, a cruel especulação imobiliária, deitando ao chão prédios inteiros para serem transformados em estéreis estacionamentos de veículos, sufocando a salutar e frugal vida boêmia do coração da cidade. Uma lástima!

“ Quero que vivas só pensando em mim/e que tu sigas por eu seguir/para minha alma não fugir de ti/beija-me com frenesi/dá-me a luz que vem do teu olhar/a inspiração de todo meu amor/dessa ilusão cujo sabor senti/beija-me com frenesi/nas asas deste beijo teu vai um pedaço de mim/diz-me que sentes como eu, diz o que sentes assim/querida, perto do meu coração/encontrarás a luz do céu e o mar/e um luar que há de brilhar por ti/beija-me com frenesi”   Adaptação da música Frenesi de autoria de Alberto Domingues.

“ Beija-me /beija-me muito/ como se fora esta noite, a última vez/beija-me muito/que tenho medo de perder-te, de perder-te outra vez/quero ter-te bem perto/mirar-me em teus olhos/ver-te junto a mim/pensa que talvez amanhã/eu estarei longe/muito longe de ti/beija-me/beija-me muito/como se fora esta noite a última vez/beija-me,

beija-me muito/que tenho medo perder-te/perder-te outra vez/quero ter-te bem perto/mirar-me em teus olhos/ver-te junto a mim/pensa que talvez amanhã/eu estarei  distante/muito distante de ti/beija-me/beija-me muito/como se fosse esta noite a última vez/beija-me, beija-me muito/que tenho medo perder-te , perder-te outra vez”  Tradução livre da música Besame Mucho da autoria de Consuelo Velázquez .


Para os queridos irmãos, Dr. Francisco Clayrton Weyne Martins, representando os marmanjos e, para a Dra. Mary Romero, em nome das gentis princesas da Turma 73 de Medicina UFC.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os mistérios de Netuno


Praia de Iracema nas proximidades da Ponte dos Ingleses com a preia- mar desenhando em seu dorso ondas de até 3 m de altura , um filho de Hipócrates assiste na areia o mergulho da carruagem do titã Hélios lá onde o mar beija o céu. Um par de "pombinhos " pára as carícias ,ele um senhor magro e idoso; ela , uma esbelta e juvenil deusa grega e partem para enfrentar o mar revolto sem levar em conta que " o mar não tem cabelos onde se possa agarrar". Num segundo uma onda- caixão engole os pombinhos . Aos primeiros gritos de socorro o médico pula no mar trazendo primeiro o pobre homem pálido e vomitando. Volta para buscar a dama que fica apenas com a cabeça à flor da água. "- Moço, pelo amor de Deus procure por aí a parte superior do meu biquíni " erguendo - se mostrando duas volumosas " mangas -rosas " a balouçar. Após titubear um pouco o médico cobre aqueles dois " poemas parnasianos " com sua camisa apagando a idílica visão. O casal segue a muito custo no carro do médico para a Assistência Municipal na Praça da Bandeira onde o doutor adentra aquele seu local de trabalho apenas de sunga e sem camisa. O idoso,por precaução, ficou internado com suspeita de pneumonite química. A quase - deusa seguiu de carona com o médico para sua residência numa pensão - alegre na rua Conde D'eu, naquela dita pérola do pecado que envolve o centro de Fortaleza. Estes mistérios de Netuno!

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O BICHO-HOMEM E SEUS MICRÓBIOS EM PERFEITA HARMONIA




O homem, este ser cósmico, minúscula poeira das estrelas é composto de corpo e alma, possuindo os mesmos elementos físico-químicos que formam outros seres vivos que habitam a terra, nossa mãe- Gaia. “ No corpo, há formosura, boa disposição, sanidade, firmeza, integridade, força e desenvoltura; e os seus contrários, fealdade, enfermidade, fraqueza, acanhamento e dor. Na alma, há saber e virtude; e os seus contrários, ignorância e vício” (Juan Luís Vives: 1492- 1540).

Este pujante macróbio, o homem, por dentro e por fora, convive, quase sempre em harmonia com uma miríade de microrganismos, especialmente, bactérias, com a denominação de microbioma humano. Os micróbios vivem aproveitando do homem substâncias que secretamos como nutrientes, ajudam-nos a digerir nossos alimentos e participam de nossas defesas contra infecções várias. A célebre teoria dos germes preconizada por Louis Pasteur (1822- 1895) e Robert Koch (1843- 1910) onde” cada germe, representa uma doença”, desencadeou uma mortífera batalha campal contra os microrganismos, no entanto nos tempos atuais tem sofrido sérios abalos com a descoberta dos benefícios que a grande maioria das bactérias trazem à saúde do homem. Cerca de 99,9% das espécies bacterianas conhecidas são inócuas para os seres humanos. Todas as partes de nosso corpo contêm bactérias. O indivíduo ainda em desenvolvimento dentro do claustro materno vai formar o seu microbioma por ocasião do parto normal quando as bactérias habitantes do canal vaginal ajudam na formação da complexa rede de bactérias defensoras do nosso corpo, especialmente, na pele e no aparelho digestório. O segundo contato de grande monta, do homem com a bactéria, faz-se através da amamentação natural com o aporte de bifidobactérias e de açucares que atuam como prébióticos destes grupos de germes. Ao longo da vida o contato com outros microbiomas fortalecem o nosso sistema imunológico. O uso inadequado de agentes antimicrobianos de largo espectro, gerando germes multirresistentes, pode promover sério desequilíbrio no ecossistema bacteriano levando a riscos desnecessários à saúde humana. Um exemplo claro: a infecção pelo Clostridium difficile que pode levar a morte do indivíduo justamente pela utilização intempestiva de potentes agentes antimicrobianos. Pesquisadores da Universidade de Colorado estudaram a reparação da microbiota intestinal com o emprego da terapia microbiana (transplante microbiano fecal - TMF-) obtido de portador são mediante o lavado de fezes. A efetividade real obtida com tal singular e estranha terapia chega a 90% de sucesso.

Muitas desordens que perturbam a saúde humana ao longo da vida dizem respeito a desarmonia de nosso corpo com o seu microbioma, traduzidos como doenças autoimunes, alergias, obesidade, diabetes, síndrome do intestino irritável, aterosclerose e artrites, dentre outras. Deste modo os estudos sobre o microbioma


humano poderão servir de fatores preponderantes na erradicação de enfermidades, tudo isso, sem causar danos à saúde do bicho-homem.



segunda-feira, 17 de julho de 2017

PEDRO JULIÃO (PAPA JOÃO XXI): MÉDICO PORTUGUÊS


A Idade Média, período histórico que transcorreu entre a queda do Império Romano do Ocidente (476) e a queda do Império Bizantino (1453) no longo espaço de aproximadamente mil anos, permitiu o assentamento do cristianismo, a formação das Cruzadas, a instituição do feudalismo, o ressurgimento da Peste Negra e o luminoso desabrochar das Universidades. A medicina da época medieval constava de uma instigante mescla de superstições, tradições, plantas medicinais e conhecimentos transmitidos pelos antigos gregos e romanos. Muitos acreditavam piamente que as doenças eram castigos de Deus, e a cura só se estabelecia com a intercedência divina. Os pacientes buscavam a cura através de orações ou peregrinando a algum lugar santo, em vez de procurar ajuda médica. A medicina buscou abrigo salvador nos mosteiros.

Por volta de 1213, nasce em Lisboa, Pedro Julião, na freguesia de São Julião, filho do médico Julião Rabelo e de Teresa Gil. O garoto Pedro frequentou a escola da Catedral de Lisboa. Posteriormente seguiu para Paris em busca de aprimorar conhecimentos que o levaram a cursar a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Artes. Na oportunidade conviveu com mestres da estirpe de Alberto Magno (1193- 1280), Roger Bacon (1214- 1292) e Tomás de Aquino (1227- 1274), dentre outros.
Na Universidade de Montpellier entre os anos de 1246 e 1252, Pedro Julião leciona medicina e na Universidade de Paris ensina lógica, dialética, física e metafísica.

Retorna para Lisboa onde ocupa sucessivamente os postos de prior de Mafra, arcebispo de Braga, cônego e deão da Catedral de Lisboa. Em 1261 Pedro Julião mostra-se em Viterbo junto ao Papa Adriano V, cujo pontificado durou apenas 38 dias. Em 1273 é eleito bispo de Braga, porém não toma posse, pois se encontrava fazendo parte do Concílio de Lion. Em 1276, após o falecimento do papa Adriano V, Pedro Julião é eleito papa, assumindo o nome de João XXI. Vive em um momento histórico perturbado com tensões políticas e religiosas. Tenta reunir a Igreja Grega com a Igreja do Ocidente. Continua a batalha com As Cruzadas pela libertação da Terra Santa em poder dos turcos. Foi breve seu pontificado, oito meses, somente, posto que, faleceu em 20 de maio de 1277.
São atribuídas a Pedro Julião, em meio a controvérsias, várias obras de medicina, cabendo maior destaque a Thesaurus pauperum (Tesouro dos pobres) escrito em homenagem ao papa Gregório X e que foi utilizado até os séculos XIV e XV como uma boa fonte de pesquisa clínica.  Um outro texto trata- se de Liber de óculo, um tratado de oftalmologia.

No que diz respeito a obras filosóficas de Pedro Julião, apresenta-se como seu trabalho mais significativo, as Summulae logicales (Súmulas lógicas), uma sistematização da lógica de Aristóteles. Na monumental obra de Dante Alighieri (1265- 1321), A Divina Comédia, Pedro Julião é citado em Paraíso, canto 12, versos 134- 135, não como papa, mas como teólogo e filósofo.

Pedro Julião (papa João XXI), um gênio complexo e multifacetado, passa para a História como o único filho de Hipócrates, no longo caminho do cristianismo a assumir o Trono de Pedro. Faz companhia como português a outros tantos papas: 212 italianos, 17 franceses, 11 gregos,6 alemães, 6 sírios, 3 espanhóis, 3 norte-africanos,2 croatas, 1 português, 1 israelita, 1 inglês, 1 holandês, 1 grego, 1 polaco e 1 argentino.





sexta-feira, 14 de julho de 2017

UM ENIGMA E UMA LIÇÃO HIPOCRÁTICA

Para a velha-guarda de parteiros do Ceará




Uma jovem foi internada em caráter de urgência num Hospital-Escola no centro de Fortaleza. Corria o ano de 1973. Era prática corriqueira a admissão ser realizada por um graduando de medicina daquele modelar nosocômio. Foram colhidos, na ocasião, os seguintes dados:  M., cliente de 23 anos de idade, solteira, estudante universitária, aparência saudável, relatando ausência de menstruação há 7 meses, que coincidiu com o aumento volumétrico do abdome. Ao exame físico: pulso e pressão arterial dentro da normalidade. Mucosas coradas. Ausculta cardiopulmonar sem alterações. Mamas de volume e coloração normais. Abdome abaulado, tenso, com massa lisa chegando a reborda costal, levemente dolorosa. Não foram ouvidos batimentos cardíacos fetais com o estetoscópio de madeira, de Pinard. Ao toque combinado: colo longo e fechado.

Um bilhete colado na capa do prontuário assinado por um médico sugeria o internamento da cliente por conta de um provável início de trabalho de parto. O jovem interno, com todo o cuidado do mundo, procurou de imediato um contato com o médico da cliente. Gostaria de dar, com todo respeito, sua humilde opinião sobre o caso. A jovem lhe relatara que há muito tempo não tinha parceiro sexual. Na palpação abdominal não conseguira palpar partes fetais conforme as manobras de Leopold e na ausculta nada de batimentos cardíacos fetais.

Com um semblante cerrado, o médico pergunta ao estudante: “- quer dizer que não estamos diante de uma gravidez?  “- e o Pregnosticon (exame de urina) positivo para gravidez, não vale? “ -  e o ventre volumoso representa ascite ou um tumor? “ . O jovem estudante, engolindo a saliva seca, pediu desculpas pela sua intromissão indevida, fruto de sua pouca experiência.

Deu-se início por ordem médica a uma indução do parto de um “ feto morto “. Cumpre sinalar que na época não havia no Ceará exames de ultrassonografia, que por aqui aportaram somente no final da década de 70. Depois de dois dias de indução do parto sem resposta alguma, convocou-se uma reunião com o staff da obstetrícia do hospital. Um dos presentes sugeriu a realização de um raio X simples do abdome para ver se a gravidez era dentro ou fora do útero, o que justificaria o malogro da indução com ocitocina. O laudo do radiologista foi claro: Tumor de ovário contendo estruturas semelhantes a dentes, configurando um provável Teratoma benigno. De fato, não se tratava, realmente, de gravidez.

O jovem estudante que há pouco admitira a cliente, pedira a um colega de turma que assistisse a reunião do staff sobre o caso, pois faltara-lhe coragem e, ademais, com fins de evitar um constrangimento. E foi um pouco depois encontrado num bar próximo ao hospital, sorvendo uma caninha Guaramiranga, empalhada, com tira-gosto de torresmo, acompanhando ao vivo a performance do grande seresteiro Vilamar Damasceno (1946 -1989), abraçado ao pinho, com uma de suas belas melodias, “ Meu Lamento”:

“ Ah! Esta praia, esta canção, esta noite e o meu violão/ fazem-me sonhar / ah! Se eu soubesse/ onde está meu amor/ meu lamento não seria de dor/ mar responde, por favor/ onde está meu amor/, se está sozinho, sem um carinho, sem um calor/

É só a ti que não sabes mentir/ é que pergunto/ não deixes que o tempo responda, traduza errado/ tudo o que sinto “

O outrora estudante, hoje um esculápio ainda em plena labuta no outono da vida, guarda a singela lição do grande mestre, Sir William Osler (1849- 1919):

 “Os quatro pontos de um compasso do estudante de medicina são: inspeção, palpação, percussão e ausculta”.


quinta-feira, 13 de julho de 2017

TENSÃO PRÉ-MENSTRUAL EM DOIS TOQUES



Remonta ao tempo de Hipócrates (460 a.C.- 370 a.C.) relatos acerca de alterações comportamentais observadas em mulheres durante o ciclo menstrual. Vários sintomas dizem respeito aos dez dias que antecedem a menstruação, tais como, distensão abdominal, dor mamária, ansiedade, crises de choro, dificuldade de concentração e rápida mudança de humor. Existe nesta condição uma gradação de severidade indo de quadros leves, catalogados como síndrome da tensão pré-menstrual (STPM) representando 85% dos casos e aqueles graves denominados como síndrome disfórica pré-menstrual (SDPM) responsáveis pelos 15% restantes.

Tais achaques acometem mulheres jovens entre 20 e 35 anos de idade. Várias hipóteses têm sido aventadas, contudo a real fisiopatologia de tal síndrome ainda permanece obscura. Sabe-se que a flutuação hormonal de substâncias esteroides como o estrogênio e a progesterona causa impactos na função cerebral incluindo áreas de cognição, status emocional, entre outros. Tem-se como certo que os casos ditos leves de síndrome de tensão pré-menstrual podem ser controlados com simples mudanças de hábitos de vida acrescidos de terapias brandas.

Os quadros graves catalogados como síndrome disfórica pré-menstrual (SDPM) se apresentam mais raramente e exigem acurácia em seu diagnóstico, posto que, não existem exames bioquímicos que possam ser utilizados como marcadores de tal distúrbio. Consideram-se sintomas chamativos: humor deprimido; ansiedade e tensão marcantes; extrema labilidade emocional; irritabilidade gerando conflitos interpessoais; dificuldade de concentração; insônia ou sonolência. Tudo isto interfere nas esferas familiar, social e laboral. Há que se afastar problemas de saúde que podem confundir mimetizando a síndrome disfórica pré-menstrual, tais como: hipertireoidismo, enxaqueca, epilepsia e doenças psiquiátricas.

Nas formas leves chamadas de síndrome da tensão pré-menstrual (STPM) recomendam-se exercícios físicos regulares e modificações na dieta com redução na ingesta de açúcar, sal e cafeína. Pode-se lançar mão de produtos naturais como, óleo de prímula, Vitex agnus castus e Hypericum perforatum.
Nas formas graves, ditas síndrome disfórica pré-menstrual se dispõe de um leque de opções de tratamento onde constam:

Contraceptivos orais combinados, “ as pílulas”, que mostram boa eficácia em uma variedade de combinações;

Progesterona e progestágenos: há relatos controversos acerca dos resultados obtidos;
Inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS): mesmo que utilizados somente na segunda fase do ciclo menstrual mostram boa eficácia no controle dos sintomas. Existem vários produtos, igualmente seguros e efetivos, dentro desta classe de medicamentos.

A acupuntura e a psicoterapia ocupam posição de real destaque na assistência individualizada e integral a este instigante problema que afeta a saúde da mulher em idade reprodutiva no mundo inteiro.







sábado, 8 de julho de 2017

Saber e Poder


Em uma de suas obras, A Retórica, Aristóteles (384-322 a.C) relata que certa feita a esposa de Hieron, rei de Siracusa perguntou ao poeta Simônides o que valia mais: ser rico,ou ser sábio? "Rico, respondeu o poeta; " pois vejo os sábios estarem sempre batendo às portas dos ricos".
Deste modo, assistimos aos ricos, em geral, poderosos, levarem boa parte da sofrida humanidade a pensar na aquisição, o mais que puder, de bens materiais, a qualquer custo. Tais criaturas pensam que suas riquezas lhes conferem o direito de dirigir os demais seres humanos.
Relata - se que contaram a um filósofo o tal episódio da resposta de Simônides à esposa de Hieron e que ele verberou : " correto, é verdade que os sábios em geral batem às portas dos ricos, e que os ricos não batem às portas dos sábios; mas, isto é porque os sábios sabem o de que precisam, e se os ricos não procuram os sábios é porque não conhecem quais são as suas necessidades "( atribuído a Antístenes ).
Transpondo isto para os dias de hoje em Pindorama constata - se como o argumento do filósofo Francis Bacon(1561-1626) " o conhecimento é em si mesmo um poder" não é levado em conta pelos poderosos palacianos. Assistimos pasmos, semianalfabetos granjeiros catapultados a ricos industriais, passando por medíocres parlamentares ostentando falsas pérolas e findando em magnatas da justiça como semideuses.
Foi de cortar coração a triste cena protagonizada recentemente por um figurão da política, banhado em prantos diante das câmeras televisivas de Pindorama ao ser confirmada sua prisão.
Vale a pena lembrar Sêneca (4 a.C - 65) ao afirmar que" a maioria das pessoas é infeliz exatamente por procurar ser feliz, e não sabe o que possa ser a felicidade".

sexta-feira, 7 de julho de 2017

SÍFILIS CONGÊNITA NO BRASIL: AINDA UMA MÁCULA

Para a presidente Dra. Liduina Rocha




Girolamo Fracastoro ou Hieronymous Fracastorius (1478- 1553), médico, astrônomo, matemático, filósofo e poeta, é um digno representante da iluminada mente renascentista. Na época, o termo doença venérea já era corrente e procedia de Vênus, a deusa romana da beleza, do amor e da fecundidade. Era uma versão da deusa grega Afrodite que deu origem aos termos afrodisíaco e hermafrodita (de Hermes e Afrodite).

A palavra sífilis foi criada por Fracastoro em um livro chamado “ Sífilis, ou a doença francesa” publicado em 1530. Data deste período o dito jocoso “ Uma noite com Vênus e o resto da vida com Mercúrio”.

A sífilis congênita continua sendo uma enorme mácula e um grande desafio para as políticas de saúde pública do Brasil e sua presença desnuda erros grosseiros no sistema de saúde e na qualidade da assistência pré-natal. Foram registrados mais de 100.000 casos de sífilis em gestantes na última década no Brasil. A OMS confere que não deve existir mais de um caso para cada 1000 nascidos vivos. No Brasil a média fica em torno de 7,4 casos de sífilis em gestantes para cada 1000 nascidos vivos.

Várias estratégias de prevenção têm sido elaboradas com relação à Sífilis Congênita:


1.      Assistência pré-natal abrangendo cem por cento das gestantes, algo ainda não alcançado entre nós

2.      Realização do teste sorológico VDRL na primeira consulta pré-natal, repetido no terceiro trimestre e por ocasião do parto

3.      Diagnóstico e tratamento adequados para o casal grávido

4.      Registro no cartão da gestante de forma minudente de todo tratamento realizado

5.      Notificação dos casos de sífilis congênita, incluindo aborto e natimorto

A maioria dos casos de sífilis diagnosticados na gravidez são assintomáticos (sífilis latente) detectados com simples exames de VDRL e FTA- abs. O restante dos casos distribuem-se em sífilis primária (cancro duro) e sífilis secundária (lesões disseminadas na pele e queda de pelos).  Os casos não tratados permitem a transmissão vertical para quase cem por cento dos conceptos.

O tratamento com o emprego da Penicilina Benzatina em doses adequadas traz a cura efetiva da sífilis. E por incrível que pareça, tem havido desabastecimento de tal fármaco no mercado brasileiro, dependente de produtos chineses e indianos. O tratamento farmacológico alternativo sugerido para substituir a penicilina benzatina, em gestantes com sífilis, não surte o efeito desejado quando se emprega a eritromicina e outros macrolídeos, posto que, estes antibióticos passam em níveis baixos para o compartimento fetal, deste modo, deixando o concepto sem um adequado tratamento. Tais antibióticos macrolídeos servem apenas para tratar o casal grávido.

O grave problema da sífilis congênita no Brasil sofrerá amplo revés ao se implantar programas bem definidos de assistência pré-natal de qualidade, através de equipes multiprofissionais, aliadas a laboratórios de análises clínicas com alto grau de resolutividade e presteza. Tudo isto contando a retaguarda de larga distribuição de penicilina benzatina.

 A educação constante do casal com vistas a prevenção primária da sífilis e de outras doenças sexualmente transmissíveis tem real impacto positivo no controle de tais temerárias enfermidades.



segunda-feira, 3 de julho de 2017

ANO DE 1917 NO BRASIL



Há cem anos (1917) o operariado e as esquerdas brasileiras de sempre ficaram ouriçadas e babando de prazer pela notícia do eclodir da Revolução Comunista Soviética, que consumiria cerca de vinte milhões de vidas e serviria de modelo para marionetes espalhadas pelo mundo afora. Era o fantasma do comunismo internacional a rondar países distantes, a maioria vivendo em frágeis democracias. O Brasil foi o último rincão a proscrever o escravismo (infelizmente), e em contrapartida, corre o risco de ser o último a abraçar o socialismo (se Deus quiser!).

Em 1917 é assassinado o grande industrial nordestino Delmiro Gouveia (1863- 1917) nascido no município de Ipu, no Estado do Ceará, que de simples tropeiro tornou-se por indômita força de vontade, um industrial de vanguarda. No ano de 1930, funcionários da empresa inglesa “ Machine Cotton” jogaram as máquinas da fábrica de linhas “Estrela” que fora de propriedade de Delmiro Gouveia, nas gargantas da cachoeira de Paulo Afonso numa agressão gratuita e infamante ao “ Rio São Francisco, o Velho Chico” e à imperecível figura do destemido Coronel Delmiro Gouveia.

Oswaldo Cruz (1872- 1917), um cientista brasileiro, no mês de fevereiro de 1917 falece ocupando o primeiro plano no panteão dos grandes vultos da História do Brasil. Oswaldo Cruz pertenceu à Academia Brasileira de Letras e foi nomeado Cavalheiro da Legião de Honra da França.

 Dois compositores, Donga e Mauro de Almeida, registram na Biblioteca Nacional a propriedade intelectual do samba “ Pelo Telefone” , considerado o primeiro na história da Música Popular Brasileira ( MPB):

“O chefe da folia/ pelo telefone manda me avisar/que com alegria/não se questione para se brincar/ai, ai, ai,/é deixar as mágoas para trás, ó rapaz/ai, ai, ai/fica triste se és capaz e verás/tomara que tu apanhe/pra nunca mais fazer isso/tirar amores dos outros/depois fazer teu feitiço/ai, se a rolinha, sinhô, sinhô/se embaraçou, sinhô, sinhô/é que a avezinha, sinhô, sinhô/nunca sambou, sinhô, sinhô/porque este samba , sinhô, sinhô/de arrepiar, sinhô, sinhô/põe perna bamba, sinhô, sinhô/mas faz gozar, sinhô, sinhô/o peru me disse/se o morcego visse/não fazer tolice/que eu então saísse/dessa esquisitice/de disse- não- disse/ah !ah! ah!/aí está o canto ideal, triunfal/ai, ai, ai/viva o nosso carnaval sem rival/se quem tira o amor dos outros/por Deus fosse castigado/o mundo estava vazio/ e o inferno habitado/queres ou não, sinhô, sinhô/vir pro cordão, sinhô, sinhô/é ser folião, sinhô, sinhô/de coração, sinhô, sinhô/porque este samba, sinhô, sinhô/de arrepiar, sinhô, sinhô/põe perna bamba, sinhô, sinhô/mas faz gozar, sinhô, sinhô/quem for bom de gosto/mostre-se disposto/não procure encosto/tenha o riso posto/faça alegre o rosto/nada de desgosto/ai, ai, ai/dança o samba/com calor, meu amor/ai, ai, ai/pois quem dança/não tem dor, nem calor”

Em 2017 o Brasil, lindo e trigueiro, segue deitado em berço esplêndido, rés do chão em meio a porcos, ratazanas, sapos e corvos, num lodaçal asfixiante, como um indigente em fase terminal, apenas, esperando a extrema- unção.

Enquanto isso, “ Coxinhas e Mortadelas” que tanto se digladiaram em vão, hoje, bovinamente, partem para o abate final.

 Sorridentes e confiantes, apenas, os de sempre: políticos malandros, juízes prevaricadores e empresários mafiosos!

Brasil, País do Faturo!





quinta-feira, 29 de junho de 2017

PARECE QUE FOI ONTEM: UMA TRISTE HISTÓRIA SEM NOMES




Numa república de bananas localizada na América Latrina, no início da década de sessenta do século passado, ao abrigo da escuridão da noite, um ser híbrido de senador e latifundiário paulistano, preside uma seção extraordinária no Congresso, com o fito de declarar a vacância do cargo de presidente da República, em carta lida por um líder que no futuro quase assumiria o cargo de maior representatividade da nação, não fora uma mortal diverticulite. Após a sessão no Congresso, apagaram-se as luzes e fecharam-se, literalmente, as portas daquela casa de mãe – Joana. O fantoche civil que tomou conta do pedaço, eterno presidente das interinidades, ganhou um retrato jocoso do médico e garimpeiro de palavras, habitante das Gerais: “ – É um modess – no melhor lugar, nos piores dias, para evitar derramamento de sangue”. Perfeito!

O legítimo presidente empreendeu providencial fuga para uma outra republiqueta próxima, pois seguro morreu de velho. Agora sob o comando de um general oriundo das caatingas nordestinas, muita água rolaria por baixo da ponte frágil da democracia local. Um jornalista careca e gaiato, junto com uma patota de alcoolistas lançou um tabloide nanico e na capa sugeriu a figura do tal general nordestino para Miss Brasil. Claro, incontinenti, foi empastelado o novel pasquim que tinha como legenda: “ Todo homem tem o direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo”. Estavam enganados e brincando com fogo de arcabuz.

Passaram-se quase cinquenta anos da dita aventura rocambolesca na perdida república de bananas da triste América Latrina. O cenário hoje desenha-se apocalíptico e muito próximo ao daquela época: políticos malandros, falsos, corruptos, que se aproveitam no breu das noites para dilapidar todo o patrimônio nacional, mancomunados com a escória do empresariado nativo. Acreditam eles, piamente, que o braço curto de uma justiça – cega, surda, muda e manca - não os alcança e que seus podres irmãos do parlamento não os trairão jamais, respeitando os rígidos códigos da camorra.

No corpo desta história aparecem almas que poderiam ser identificadas como: Raniere Mazzilli, João Goulart, Tancredo Neves, Humberto de Alencar Castelo Branco, Millôr Fernandes e Guimarães Rosa. As figuras maléficas do presente não serão citadas nesta crônica por absoluta falta de espaço e pela sua clara insignificância.


E o povo? A solução definitiva só pode vir da sociedade civil organizada. “ Coxinhas e Mortadelas “, mãos à obra, se é que ainda resta um fiapo de tempo!