quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O CEARÁ NÃO TEM DISSO NÃO?



Furacões e terremotos, representam medonhos desastres naturais que volta e meia, por conta de pressões exageradas, tendo a origem em placas tectônicas, ceifam inocentes almas humanas e destroem, impiedosamente, cidades por onde passam.
Trata-se de maldade da natureza? De forma nenhuma!
A natureza “ não dá a mínima bola “ para o bicho-homem. Ela, em sua plenitude, imensidão e complexidade, não é boa nem má. Apenas existe, e ponto final!
Em Pindorama, no Ceará, neste período seco do ano, sopra uma brisa festeira, a levantar poeira, derrubando pé de pau envelhecido, jogando areia miúda nos olhos da negrada, trazendo à memória o mesmo incômodo causado por um inseto, “ o lacerdinha”, que promovia uma ardência nos olhos das pessoas, ali pelos anos 60 do século passado. Quando a tal ventania alcança a “ Esquina do Pecado” localizada na Praça do Ferreira, em Fortaleza, levanta, fescenino, as saias das estudantes que desfilam por aquele logradouro, para deleite do canelau que bate ponto por aquela redondeza.
Os furacões e terremotos, a despeito de acarretarem sérios danos, logo passam e a um custo, excessivamente, elevado, permitem a reparação dos danos infligidos.
Pindorama desconhece tais desastres naturais, por situar-se distante das temíveis placas tectônicas, aquelas cascas de tartaruga que delimitam o chão da terra. Em contrapartida, convive com mazelas, verdadeiras calamidades provocadas por gente graúda de colarinho branco em conluio, nas caladas da noite, com representantes do povo, infelizes desprovidos de qualquer resquício de moralidade. Impõe-se ao país pesadas perdas, mais elevadas até que aquelas provocadas por furacões ou terremotos, deixando Pindorama próxima de um rotundo colapso geral.
Parece repetitivo e banal, mas, ou se passa à jato o país a limpo, ou a derrocada vai ser fatal.
Em 1955, o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) relata num poema regionalista, a dura peleja de um nordestino em “ Morte e Vida Severina”, uma verdade até hoje, encarnada e esculpida. Em seguida, excertos da poesia:
“ O meu nome é Severino/não tenho outro de pia/como há muitos Severinos/que é santo de romaria/deram então de me chamar/Severino de Maria.../somos muitos Severinos/iguais em tudo na vida/ morremos de morte iguais em tudo na vida: /na mesma cabeça grande/que a custo se equilibra/no mesmo ventre crescido/sobre as mesmas pernas finas/e iguais também porque o sangue/que usamos tem pouca tinta/e se somos Severinos/iguais em tudo na vida/morremos de morte igual/mesma morte Severina:/que é a morte de que se morre/de velhice antes dos trinta/de emboscada antes dos vinte/de fome um pouco por dia/( de fraqueza e de doença/ é que a morte Severina/ ataca em qualquer idade/e até gente não nascida)...”
Contando carneirinhos enquanto o sono não chega .
"O homem acha o Cosmos infinitamente grande/e o micróbio infinitamente pequeno /e ele,naturalmente, /julga - se do tamanho natural.../mas, para Deus, é diferente:/cada ser, para Ele, é um universo próprio. /E, a Seus olhos, o bacilo de Koch, /a estrela Sírios e o Prefeito de Três Vassouras /são todos infinitamente do mesmo tamanho " (Mario Quintana - 1906- 1994)
"A medida do espaço somos nós ,homens /baterias de cozinha e jazz-band/ estrelas, pássaros, satélites perdidos/aquele cabide no recinto de meu quarto/com toda aquela minha preguiça dependurada nele.../o espaço, que seria dele sem nós? /mas o que enche, mesmo,toda a sua infinitude /é o poema! /- por mais leve,mais breve, por mínimo que seja..."( Mário Quintana- 1906-1994).


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO, 1642



“ O maior jogo de um reino, a mais pesada carga de uma república são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se com todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e, contudo, todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é um tributo de todos. Se uns homens morrerem e outros não, que levará em paciência esta rigorosa pensão da imortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita, porque não há privilégios, não há queixosos. Imitem as resoluções políticas o governo natural do Criador: “O que faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos “. Se amanhece o sol, a todos aquenta, e se chove o céu, a todos molha. Se toda a luz cair a uma parte e toda a tempestade a outra, quem o sofrerá? ” (Sermão de Santo Antônio, 1642), de autoria do Padre Antônio Vieira (1608- 1697).

Em Pindorama nesses ásperos tempos, onde imperam a mediocridade, a falsidade e a corrupção desenfreada, promovida por “ brucutus, índios, carinhas de anjos e ministros chorões” apostando todas as fichas que nenhuma prova obtida pela justiça terá força suficiente para alcançar as “excelsas figuras parlamentares”, tudo é possível. Prevalecerá, por fim, a impunidade e a confiança na memória curta de um povo pacato e parvo. A solução, simples e cristalina, se apresenta pronta nos afiados dentes dos vampiros planaltinos: a criação de novos impostos, pois a massa bovinamente ruminará, silenciosamente, a falcatrua.
“ Se o sol não aquenta a todos e a chuva a todos não molha “, um dia a corda irá, fatalmente, arrebentar!

“ Você tem palacete reluzente/tem joias e criados à vontade/sem ter nenhuma herança nem parente/só anda de automóvel na cidade/e o povo já pergunta com maldade:/onde está a honestidade?/onde está a honestidade?/o seu dinheiro nasce de repente/e embora não se saiba se é verdade/ você acha nas ruas diariamente/anéis, dinheiro e até felicidade/vassoura dos salões da sociedade/que varre o que encontrar em sua frente/promove festivais de caridade/em nome de qualquer defunto ausente/e o povo já pergunta com maldade:/onde está a honestidade?/onde está a honestidade?” (Noel Rosa – 1910-1937).



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

XADREZ X XADREZ EM PINDORAMA



No pedregoso e irregular chão da existência humana, cinco elementos simbolizam as formas benfazejas das habilidades clássicas: a cítara, o livro, a pintura, a espada e o xadrez.
A cítara que emite o doce lenitivo da música, expressando a excelsa elevação do espírito humano.
O livro que traduz a riqueza do saber mundano e acadêmico numa verdadeira linguagem universal.
A pintura que expressa a beleza e a sensibilidade do gênio artístico, jorrando entre pinceis e cores.
A espada que imprime a marca da defesa e o poder da lâmina aplacando de forma cruenta, o mal pela raiz.
O xadrez que simboliza o cultivo da perspicácia, da inteligência, na arte da estratégia, amplamente empregada em tempos de guerra ou de paz.
Em Pindorama, nos tormentosos dias de hoje, que modorrentos se arrastam, quando deveriam passar à jato, o xadrez que vigora, infelizmente, tem outro sentido, mostrando o cárcere, a masmorra, empregado para conter o malfadado crime que medra, como metástases de um medonho cancro, nas esferas Executiva, Legislativa e Judiciária, no triste torrão verde-amarelo.
Já ecoam nos nossos ouvidos os estertores de uma nação em agonia, misturados com o rufar agourento dos tambores da Batalha do Armagedom. Tardiamente, o bicho-homem irá entender que de nada servem os falaciosos “postulados de Gerson, Loures e Geddel”, frente à cristalina verdade de que “Deus mira as mãos limpas, não as cheias”.
Cocorote, um drama humano



Cocorote, um bairro da periferia de Fortaleza, onde militares americanos construíram uma pista de pouso por ocasião da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945 ).Cocorote , correm histórias que se trata de um neologismo daquela época para coco-rote (rota do Cocó) , assim como biruta (by-rote )aquele dispositivo que indica a direção do vento, e baitola (bitola ) que seria uma forma americanizada de dizer bitola, pronunciada por um certo engenheiro gringo da estrada de ferro. Boas dúvidas para serem dirimidas por filósofos de botequim ou por estudiosos de nossa língua portuguesa.
Mas como eu ia dizendo , no bairro do Cocorote , corria o ano de 1969, nas cercanias do Bar do Avião, quando altas horas da noite, deu-se um acidente de lambreta. Um jovem beijando o chão , rogava por socorro. Do nada apareceu uma visagem, um indivíduo maltrapilho que, de pronto , retirou a blusa para improvisar um torniquete em volta da perna direita da vítima que sangrava de modo abundante. Aquele estrambotico " doutor" saiu caminhando devagar rumo ao Hospício de Parangaba, o hospital mais próximo daquele acidente, levando o motoqueiro junto , meio grogue. Deixou o mesmo, atônito, no portão de entrada daquele nosocomio e meteu o pé na carreira sendo engolido pelo breu da noite. Um sonolento psiquiatra acudiu aquela pobre criatura prestando assistência e felicitando o cliente, pois o 
providencial torniquete na perna , salvara-lhe a vida . Uma semana depois, o motoqueiro retorna ao Hospício de Parangaba, para deixar um mimo para o psiquiatra que o socorrera na ocasião: uma caneta Parker 51. O médico agradeceu o presente e levou o cliente até um cômodo conhecido como isolamento. Ali, sob contenção, estava aquele anjo maltrapilho, agora portando um olhar baço, despido de qualquer forma de vida.
O psiquiatra lhe explicou que aquele indivíduo era um interno, ex - médico, que há anos morava no hospital e que havia empreendido fuga na noite do acidente de lambreta. Fora encontrado naquela ocasião correndo e dizendo disparates.
Um aziago dia , já distante no tempo, perdera a razão para sempre, aquele pobre doutor , ao dirigir um gordini nas imediações da Escola de Aprendizes Marinheiros, em companhia da esposa e de dois filhos gêmeos, seu veículo fora arrastado por uma locomotiva. Apenas ele escapara com vida, mas dali em diante, perdera completamente a razão e mínimo gosto pelo sal da vida.
É o quebra - cabeça da vida expondo a nudez dos dramas da condição humana.

domingo, 10 de setembro de 2017

POEMA ENVELHECIDO 


DE JOSÉ DIRCEU VASCONCELOS


“Quero doar meus poemas,
Encontrarei quem os queira?
Já vejo pelos brancos entremeados nos meus poemas!
Estariam envelhecendo?
A força do teu amor, parece esmaecido, no papiro,
Que já escrito ao fogo, para lhe dar vida eterna.
Poemas arquejando entre linhas,
Palavras e versos repetitivos, como a quererem melhor
Compreensão!
As letras já trêmulas, esbarram entre si sem controle.
Vejo rugas, quando as palavras se contraem.
O andar das frases cambaleantes,
Mal inicio os versículos, sinto-os sem forças para chegar
Ao final!
E, quando termino, o cansado poema, me vem a ideia de
Aposentá-los!
E o amor, ainda juvenil, vem a exigir a desaposentadoria!
Ah! Sempre o amor, que não envelhece, obrigando-me a
Transformar o ponto final, em reticência”
“Poema Envelhecido” da lavra do metapoeta José Dirceu Vasconcelos, da nobre linhagem de Hipócrates, um verdadeiro mago esculpido em rimas e versos, e um eterno menino enamorado, cearense filho de Sobral.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017





Na presença majestosa dela, plena, pálida e silenciosa , a lua , pedindo a companhia de Omar Khayyam (1048-1131), astrônomo, matemático, filósofo e poeta hedonista, na areia do Porto das Dunas :
" posto que ignoramos o que te reserva o amanhã, esforça - te por ser feliz hoje. Colhe um cântaro de vinho , senta - te à luz da lua e bebe pensando em que amanhã talvez a lua te busque em vão " 
" rápidos fogem nossos dias como a água dos rios e os ventos do deserto. No entanto, dois dias me deixam indiferente : o que passou ontem e o que virá amanhã " 
" o mundo imenso : um grão de poeira no espaço. Toda a ciência do homem : palavras. Os povos, os animais e as flores dos sete climas : sombras. O fruto de tua meditação : nada ". Carpe Diem!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BICO – DOCE E O COMPRIMIDO



Na Praça do Passeio Público, um imponente hospital filantrópico foi fundado no ano de 1861 com fins de prestar assistência a uma população de cerca de 160.000 almas moradoras na capital cearense. Era a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza que ao longo dos anos tornou-se, com a ajuda inestimável de Homens de Bem que compõem sua Irmandade Beneficente, uma modelar instituição de assistência à saúde, ensino e pesquisa do Ceará.

Na década de 70 do século passado, no movimentado ambulatório de ginecologia da Santa Casa de Misericórdia, uma jovem de 18 anos busca atendimento médico para o que seria uma emergência. A queixa era de dor cortante ao ato de urinar, que surgira há três dias. A história clínica sumária trazia pouca luz para se firmar uma hipótese diagnóstica razoável. O médico dispensou o exame ginecológico e solicitou exames que rapidamente poderiam elucidar as causas daquele incômodo: um hemograma completo, um sumário de urina e uma glicemia de jejum.

Os resultados dos exames evidenciaram: Hemograma completo dentro da normalidade; sumário de urina sem quaisquer sinais de infecção, mostrando, contudo, a maciça presença de glicose na amostra; e a glicemia de jejum apontando 350 mg/dl, valor bem acima da normalidade.
Conclusão: Tratava-se de um caso de Diabetes Melito.

“ – Quer dizer, doutor, que eu peguei essa tal de diabetes, mais um tipo de doença do mundo? “
“- Não é bem assim, senhorita “, resmungou o doutor.
“ – O diabetes vem de dentro da gente, resultando de um excedente de açúcar no sangue e não se trata, obviamente, de uma doença venérea como um esquentamento (gonorreia), uma crista de galo (HPV) ou um cancro duro (sífilis) ”

“ – Agora eu entendo – falou a cliente- o meu companheiro, mulherengo incorrigível, conhecido no Morro do Ouro, aqui vizinho, como Bico-Doce, já me apresentou a todas essas mazelas citadas pelo senhor, exceto esta tal do sangue doce”
“ -Só faltava essa, pois já cansei de tomar injeção de penicilina no ambulatório do enfermeiro Almeida, por conta das danações deste infeliz amante”

Desenhava-se ali o prelúdio para uma nova discussão no casebre dos dois, no vizinho Morro do Ouro, um furdunço medonho que quase sempre findava na delegacia do bairro.
 E assim seguia o calvário do mulherengo Bico-Doce, cada vez mais calado e esquisito, bebendo todas, diariamente, e chegando grogue ao barraco, vendo alucinações de bichos andando pelas paredes, noite adentro.

Em certa madrugada, na emergência da Santa Casa de Misericórdia, chega um Bico-Doce estropiado, conduzido pela sua jovem companheira diabética, ele mostrando uma convulsão generalizada atrás da outra, pletórico e vertendo espuma pela boca. Ela o encontrara, há pouco, no chão do barraco, já desacordado, tendo ao lado uma caixa vazia de veneno para matar ratos.

Meia hora depois, Bico-Doce, principiava sua jornada, encompridando o sono, numa fria mesa do necrotério, tendo ao lado uma solitária vela tremeluzindo e ao longe um galo anunciando um novo amanhecer.

“ Deixou a marca dos dentes dela no braço/pra depois mostrar pro delegado/se acaso ela for se queixar da surra que levou/por causa de um ciúme incontrolado/ele andava tristonho guardando um segredo/chegava e saia, comer não comia e só bebia/cadê a paz/tanto que deu pra pensar/que poderia haver outro amor/na vida do nego pra desassossego/e nada mais/seu delegado ouviu e dispensou/ninguém pode julgar coisas de amor/o povo ficou inteirado do acontecido/cada um dando sua opinião/ela acendeu muita vela/pediu proteção, o tempo passou/e ninguém descobriu/como foi que ele se transformou/uma noite , noite de samba/noite comum de novela/ele chegou pedindo um copo d’água/pra tomar um comprimido/depois cambaleando foi pro quarto e se deitou/era tarde demais quando ela percebeu/que ele se envenenou/seu delegado ouviu e mandou anotar/ sabendo que há coisas que ele não pode julgar/só ficou intrigado quando ela falou/que ele tinha mania de ouvir sem parar/um samba do Chico falando das coisas do dia a dia”    

Letra da música “ Comprimido”, composta por Paulinho da Viola.










segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Um Caso Enigmático




O tradicional estabelecimento de saúde localizado na praça da Lagoinha, em Fortaleza acolhia gente vinda dos mais variados rincões do Ceará. Corria o ano de 1976 e uma jovem morena,com corpo de uma escultura grega antiga, buscou atendimento ginecológico naquele hospital.
Queria se submeter a uma cirurgia, mas para isso precisaria de tempo ou de alguém com um bom ouvido /coração para entender o caso. O esculápio dentuça e com cara de menino, deixou a cliente palrar a vontade. Ela contou que nascera de um parto domiciliar numa pequena cidade do sertão central do estado e ali vivera sua infância e adolescência até migrar ,inicialmente, para Fortaleza, de onde sumiu no oco do mundo em busca de novos ares na velha Europa. Ganhara bastante dinheiro e fama na eletrizante vida noturna de Paris, cantando e bailando, feito um mimoso beija - flor do agreste nordestino.


Queria agora realizar um sonho, ou melhor, uma cirurgia para transformar sua genitalia externa masculina em feminina. Já fizera num passado recente, um bem sucedido implante de silicone, turbinando as mamas,mas faltava um complemento definitivo, a retirada do pênis e a confecção de uma vagina. O doutor amorteceu o tranco e pressentiu que aquela parada deveria ser resolvida por gente graúda. Ele iniciou sua fala , engolindo cuspe seco, lamentando o impedimento ético vigente nas leis brasileiras diante do problema de mudança de sexo.
O contra - argumento da jovem foi perturbador e belicoso,num mutismo para ser ouvido à distância : mostrou uma bolsa recheada de notas verdes.

O certo é que uma equipe médica dispôs -se a resolver aquela parada e assim a cirurgia realizou - se em outro nosocomio. O jovem médico ficou de fora da peleja, mas em compensação participou do desfecho daquela refrega : sessenta dias depois da cirurgia, a bela jovem morena da cor de sapoti, cearense/francesa convidou toda a equipe , incluindo o médico com cara de menino, para um jantar de agradecimento em seu apartamento de cobertura na emergente avenida Beira -Mar.
Após várias rodadas de uísque escocês com tira - gosto de lagosta grelhada, surge a pergunta fatal :

Quem seria o candidato sortudo a passar uma " noite de brigadeiro " com aquela dama, para conferir " in loco " , o resultado da cirurgia ?
O jovem cirurgião com cara de menino , declinou, educadamente, do convite, posto que, não participara do ato cirúrgico e, de imediato, escapuliu escada abaixo, feito um bólido.

O cirurgião chefe da equipe alegou de forma veemente, um impedimento por motivo de saúde, pois era portador de grave cardiopatia isquêmica, com mais pontes no peito que a bela Veneza na Itália.
Sobrou a bola pingando, redonda, para o imberbe anestesista que levantou - se de um solavanco, alegando que deixara em casa um filho de um mês e a esposa com uma grave depressão puerperal. E como ele, infiel, consertaria um resguardo quebrado daquela maneira?

Todos os doutores deixaram a arena antes do apito final do árbitro sem atropelar o código de Hipócrates.
Ganharam , contudo, de quebra, a indigesta companhia de um fogo medonho nas entranhas até chegarem em casa , de farol baixo e orelhas murchas.
Hermafrodita : divindade grega híbrida, resultante de um caso de adultério consumado entre Hermes e Afrodite. Uma ninfa chamada Salmacida ao ver um jovem banhar - se num lago , rogou aos deuses que unissem seu corpo ao daquele mancebo. Com o pedido aceito, dali surgiu a figura dupla homem- mulher , o hermafrodita. Depois houve a separação e por isso até hoje um procura a sua outra metade.
A moderna medicina contando com a ajuda de uma equipe multidisciplinar e com uma abordagem holística põe fim ao sofrimento destes filhos de Zeus .

" De que adianta estudar filosofia se não para melhorar o seu pensamento sobre as questões importantes do dia a dia ? " ( Ludwig Wittgenstein )
EM MINHA CASA DE PRAIA.

Em minha casa de praia , agora à tardinha com a rede a balouçar na varanda sob o trinado de uma rolinha caldo-de- feijão num ninho acima de minha cabeça.
" Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim , por exemplo,tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou : tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam " ( Manoel de Barros - 1916- 2014 ).
" A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitem como sou - eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc etc. Perdoai , mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas " ( Manoel de Barros - 1916- 2014).


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O MILAGRE DIÁRIO DA VIDA




Num hospital na área central de Fortaleza, no ano de 1974, um jovem esculápio acolhe uma paciente de 25 anos de idade, com um volumoso tumor abdominal. Escalado para participar da cirurgia como auxiliar, o novel doutor viu pela vez primeira um cancro corroer as entranhas de um pobre ser humano. Além de um gelatinoso tumor ocupando ambos os ovários, foram removidos na ocasião, o útero e partes do intestino da infeliz criatura. Nos meses seguintes o jovem médico cobriu com um amor franciscano o dia-a-dia daquela cliente. Um acompanhante que se apresentava como namorado da jovem, sempre manifestava sua tristeza em ter que levar para o túmulo aquela gentil paciente que definhava a olhos vistos.

Decorridos cerca de 40 anos dos tais acontecimentos acima relatados, em pleno Parque do Cocó, em Fortaleza, uma dama de cabelos banhados em prata e com o rosto vincado pelo rigor dos tempos, contudo, ainda bela, colorida pelos raios do sol, avista um senhor idoso, recurvado, colhendo fotos de arbustos. Era o reencontro da antiga paciente do cancro com o outrora jovem filho de Hipócrates. Depois de dois minutos de um choro baixinho e cálido que parecia uma eternidade, o velho casal de amigos logo se recompõe. Aquela bela flor outonal relata que o tal namorado da época sumira no oco do mundo. Ela em paz, hoje usufrui do licor da vida ao lado de seus três mimosos filhos: um gato, um pequinês e um papagaio.

E na ocasião, o pobre doutor, tira onda, com um sorriso quase infantil, de seus inúmeros tombos e de seguidas ” mortes diárias”, tomando emprestado a voz de um amigo que há pouco sumiu:
 ”-  É, o ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”
O nome disso é felicidade, meu Deus!


“Eu saúdo a vida, que é como semente germinada,
Com um braço que se eleva no ar
E outro sepultado no chão.
A vida que é una, em sua forma externa e em sua seiva interior;
A vida que sempre aparece e desparece.
Eu saúdo a vida que vem e a vida que passa.
Eu saúdo a vida que se revela e a que se oculta.
Eu saúdo a vida em suspenso, imóvel como uma montanha,
E a vida do enraivecido mar de fogo;
A vida, tão terna como o lótus e tão cruel como a centelha.
Eu saúdo a vida da mente, que tem um lado na sombra
E outro lado na luz.
Eu saúdo a vida da casa e a vida de fora, no desconhecido;
A vida repleta de prazeres e a vida esmagada por pesares;
A vida eternamente patética, que agita o mundo para aquietá-lo;
A vida profunda e silenciosa que explode em fragorosas ondas “

Poema escrito por uma poetisa da Índia medieval e citado pelo divino Rabindranath Tagore (1861- 1941) em “ Meditações”.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

O SAMBA DO CRIOULO DOIDO – VERSÃO 2017



Brasíndia levita esta semana atípica por conta da temerosa revoada de vetustos senhores palacianos rumo a um turismo de longo calibre na China Comunista. Assume, por aqui, temporariamente, o trono real, um fantoche com cara de bebê e cheio de mugangos. Na câmara alta, as dezenas de ratazanas encontram-se em êxtase com a escolha de um clone do presidente interino, em meio a “ fufucas”, digo, fofocas, alguém recém-saído dos cueiros nortistas direto para comandar a Casa de Mãe-Joana planaltina. E Brasíndia, morrendo e resistindo, resistindo e morrendo!

Saudades de Stanislaw Ponte Preta (1923- 1968): jornalista, escritor, radialista, teatrólogo, humorista, publicitário e bancário carioca. Uma lembrança de seu antológico “Samba do Crioulo Doido “:

“ Foi em Diamantina/onde nasceu JK/que a Princesa Leopoldina/arresolveu se casar/mas Chica da Silva/tinha outros pretendentes/e obrigou a princesa/a se casar com Tiradentes/lá ai lá iá lá iá/o bode que deu vou te contar/Joaquim José/que também é/da Silva Xavier/queria ser dono do mundo/e se elegeu Pedro II/das estradas de Minas/seguiu pra São Paulo/e falou pra Anchieta/o vigário dos índios/aliou-se a D. Pedro/ e acabou com a falseta/da união deles dois/ficou resolvida a questão/e foi proclamada a escravidão/assim se conta essa história/que é dos dois a maior glória/Dona Leopoldina virou trem/e D. Pedro é uma estação também/ô ô ô ô ô/o trem tá atrasado ou já passou”
Fim !





segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O por do sol , hoje no Porto das Dunas, curtindo a doce companhia de Arthur Rimbaud (1854-1891):

" Ela foi encontrada! /quem? A eternidade /é o mar misturado ao sol/minha alma imortal/cumpre a tua jura/seja o sol estival / ou a noite pura/pois tu me liberas/das humanas quimeras /dos anseios vãos !/tu voas então /-jamais a esperança /sem movimento /ciência e paciência /o suplício é lento /que venha a manhã /com brasas de Satã /o dever/é vosso ardor/ela foi encontrada! /quem ? A eternidade/ é o mar misturado/ ao sol".




sábado, 26 de agosto de 2017

STEPHEN HAWKING E O MISTÉRIO MAIOR


ÀS ROSAS QUE ENFEITAM O JARDIM DA EXISTÊNCIA HUMANA



Em 2012, ao completar 70 anos, o físico teórico, matemático e cosmólogo britânico, Stephen Hawking respondendo a uma indagação sobre qual o maior mistério do universo, mandou ver um petardo certeiro:
“ As mulheres! Elas são para mim um completo mistério “. Não é pouco para quem lidou a vida inteira com enigmas gigantescos da ciência, como a criação do universo através do" Big - Bang ", os discutíveis “ Buracos Negros “ e a "Teoria do Tudo “, aquela que apresenta os fenômenos físicos do universo unificados sob um único padrão matemático. Acrescente-se a peleja duradoura que ele trava com uma impertinente e paralisante enfermidade, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
Stephen William Hawking nasceu no dia 8 de janeiro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, exatos 300 anos após a morte do gigante Galileu Galilei (1564 – 1642). Seu pai, Frank, era médico, e sua mãe, Isabel, secretária, moravam em Londres. O garoto nasceu em Oxford sob a proteção de um acordo de guerra entre ingleses e alemães, para que não houvesse bombardeios entre Heidelberg e Gottingen na Alemanha, e Cambridge e Oxford na Inglaterra. Stephen teve outros três irmãos: Phillipa, Mary e Edward, este último, adotivo. Sua infância transcorreu tranquila num ambiente de muita liberdade e com troca rica de conhecimentos. Stephen mostrou- se um aluno mediano até a adolescência quando passou a ser conhecido como
“Einstein“, talvez por sua bizarra aparência. Nos últimos anos escolares o jovem passou a despertar vivo interesse em física e matemática, que considerava matérias fáceis em demasia e por conta disso, chatas.

17 anos ingressou na Universidade de Oxford para um curso de física. Em 1962 chegou a Cambridge como estudante de pós-graduação em física para trabalhar com Fred Hoyle, o mais importante astrônomo inglês da época. Aos 21 anos de idade Stephen foi diagnosticado com uma séria doença degenerativa progressiva, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), de prognóstico sombrio. Por essa época conheceu Jane Wilde, sua futura esposa e uma brava guerreira. Em julho de 1965 por ocasião de seu casamento, a insidiosa doença paralisava boa parte de seu frágil corpo. A despeito de tudo, casal gerou três filhos: Robert, Lucy e Tim. Quando do nascimento deste último, Jane desencadeou um grave e duradouro quadro de depressão, por conta, talvez, de excessiva atividade laboral. Neste horizonte surge a figura de Jonathan, um músico e organista de uma igreja local, que entrou na vida do casal Stephen e Jane, inicialmente, apenas como um terapeuta. Seguiram – se momentos de turbulência que culminaram com o fim do casamento de Stephen e Jane em 1990.

Despontou na ocasião, Elaine Mason, uma enfermeira, mãe de dois filhos, esposa de um especialista em computação responsável pela elaboração de um programa para devolver a voz a Stephen. Em 1995, Elaine e Stephen contraíram matrimônio, e nove meses depois foi a vez de Jane e Jonathan fazerem o mesmo. Segundo as próprias palavras de Stephen, seu casamento com Elaine foi um evento apaixonado e tempestuoso, cheio de altos e baixos. Sabe –se, contudo, que essa sua companheira livrou- o da morte em mais de uma ocasião.

Em 2004, Stephen apresentou claros sinais de maus–tratos como escoriações no rosto e fraturas diversas espalhadas pelo corpo. No hospital onde buscou atendimento, em atitude estoica, Stephen isentou qualquer pessoa desta triste ocorrência. Em 2007 deu- se o divórcio com Elaine e a partir de então o bravo cientista passa a morar sozinho na companhia de uma governanta. O genial Stephen ora permanece casado fielmente, até que a morte os separe, com as musas cosmologia e física, numa bigamia salutar, autêntica e permitida, sem risco algum previsível de ruptura, seja a médio ou longo prazo desta pungente situação. Considerado o maior cientista vivo do planeta, não sem controvérsia, há que se convir, faz companhia a gigantes como, Isaac Newton, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e Albert Einstein. Stephen leva uma vida quase plena, posto que, a doença embora cause bloqueio de seus movimentos corporais, mantém íntegro o funcionamento do seu privilegiado cérebro. Ele acredita que as pessoas com deficiências devem se concentrar nas coisas que a desvantagem não as impede de fazer, e não lamentar as que são incapazes de realizar. Ateu confesso, Stephen defende a ideia de que o universo não foi criado, nem será nunca destruído: ele apenas é. Aceita o benefício da morte assistida e não crê em vida pós–morte.

Acredito eu, piamente, que não será com a retirada, pétala- a- pétala de uma mimosa flor que se irá descobrir o segredo da fragrância de uma rosa. Basta vivenciar o êxtase de ficar igual a uma criança diante de um bondoso Deus: embevecido, contrito e.... pronto. Pode estar aí o segredo inviolável da paixão pela mulher. Estas olorosas flores que ornamentam nossas vidas, mimosas, meigas, férteis e envoltas em mistérios profundos, constituem, sem medo de errar, o sal da vida. Sem elas, cabe afirmar, quase nada pode ser feito!
Segue um conselho a ser observado àquele que se preza, se dando bem e mostrando juízo neste mister:

“ Nada mais contraditório que ser mulher! Mulher que pensa com o coração, atua pela emoção e que vence pelo amor... que vive um milhão de emoções em um só dia, e transmite cada uma delas com uma só mirada ... que vive buscando a perfeição e segue tratando de descobrir desculpas para os erros daqueles a quem ama ... que hospeda no ventre outras almas, dá a luz e depois fica cega, diante da beleza dos filhos que engendrou ....que dá as asas e ensina a voar, porém, não quer ver a partida dos pássaros, ainda que sabendo que eles não lhe pertencem ... que se enfeita toda e perfuma o casto leito, ainda que seu amor não perceba mais esses detalhes ... que como uma feiticeira transforma em luz e sorriso as dores que sente na alma, só para que ninguém o perceba... e ainda arrebanha forças, para dar consolo a quem se acerca a chorar em seu cálido ombro ...
Feliz o homem que, tão somente por um dia, saiba entender a alma da mulher! “ .
Aleluia!


Duas tragédias anunciadas


Em Brasindia consumou-se há pouco, novamente, duas esperadas tragédias n' água , frutos da irresponsabilidade do atual desgoverno , que tem um olhar protetor, apenas, para as graúdas ratazanas planaltinas. Aos " vidas de gado, povo marcado, povo in-feliz" , restam serem amparados no regaço definitivo de Iemanjá ( na Bahia) e Oxum ( no Pará ). E nenhuma palavra de consolo de autoridades do governo nem dos responsáveis pelas empresas de transportes.

" Não sou eu quem me navega/quem me navega é o mar/é ele quem me carrega/como nem fosse levar/e quanto mais remo mais rezo/pra nunca mais acabar/ essa viagem que faz/ o mar em torno do mar/meu velho um dia falou/ com seu jeito de avisar:/-olha o mar não tem cabelos onde se possa agarrar /timoneiro nunca fui/ que eu não sou de velejar /o leme da minha vida/Deus é quem faz governar /e quando alguém me pergunta/ como se faz pra nadar/explico que eu não navego/ quem me navega é o mar/a rede do meu destino /parece a de um pescador/quando retorna vazia /vem carregada de dor/vivo num redemoinho /Deus bem sabe o que ele faz/a onda que me carrega/ ela mesma é quem me traz"
Timoneiro, de Paulinho da Viola .

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O CASO DA MATERNIDADE




Decorridos dezoito horas de vigoroso trabalho de parto, uma gestante de primeiro filho, exausta, pede misericórdia ao plantonista da maternidade que a assiste. Após o parteiro verificar a dilatação completa do colo uterino da parturiente, constata com a ajuda de um tosco estetoscópio de Pinard, uma redução dos batimentos cardíacos do concepto, sugerindo sofrimento fetal agudo. Incontinenti, o profissional indica a aplicação de um fórcipe, instrumento que representa o prolongamento das mãos do obstetra. Não insiste, após infrutíferas tentativas de resolução do parto. Desiste e pede socorro ao diretor clínico da maternidade.

Faz-se outra tentativa de extração fetal com o uso do fórcipe, agora, pelas mãos de um dos maiores nomes da obstetrícia brasileira. Novo malogro. Neste ponto os batimentos cardíacos fetais tornaram- se inaudíveis. Uma tragédia, pronto se desenhou: óbito fetal ocorrido no transe do parto.

O experiente parteiro indicou, na sequência, uma craniotomia – a perfuração do polo cefálico para esvaziamento de seu conteúdo -  e uma cranioclasia – a redução brusca e tração do polo cefálico do concepto sem vida -. Uma vez mais, o parto não se concluiu. Configurou-se, desse modo, um caso de obstrução do parto por desproporção céfalo-pélvica.

Realizou-se, por fim, uma cesárea de urgência que culminou com a morte da infeliz parturiente. Uma dupla e dolorosa tragédia, mãe e filho, silenciosa e tristemente, sucumbiram juntos.

Local do acontecimento: uma maternidade no Rio de Janeiro.
Ano do ocorrido: 1917.

Protagonista médico da tragédia: Dr. Fernando Magalhães (1878-1944), à época, o maior nome da obstetrícia brasileira. O caso teve desdobramento policial e uma ampla repercussão na mídia jornalística.

Nenhum obstetra encontra-se imune a uma catástrofe desta natureza, mesmo nos dias atuais, contando com um verdadeiro aparato tecnológico. O trajeto normalmente percorrido pelo parteiro faz-se equilibrando numa tênue corda sobre um abismo, a

balouçar ao sabor dos ventos e das intempéries. Num passe de mágica, pode descer o parteiro das alturas de onde escrutina as planícies e, sem escala, cair reto num infernal despenhadeiro.

Assim se expressa, Fernando Magalhães, dando fecho ao seu primoroso livro “ Lições de Clínica Obstétrica “, lançado no mercado em 1917, há uma centúria, portanto , e hoje uma raridade bibliográfica:

“ Na prática que vos espera há muito de imprevisto e de doloroso, tantas vezes vos aproximareis do irremediável, que é preciso evitá-lo. Isto só se consegue obedecendo ao mandamento – non vis sed arte - (a arte ao invés da força). Pela força é que se chega às grandes tragédias clínicas, onde tudo desaparece, a existência do feto, a vida da parturiente e a boa fama do profissional “.

Assim mesmo, entusiasma, comove e conforta, nos dias de hoje, assistir uma gente jovem e bonita, egressa dos bancos da faculdade de medicina buscando aperfeiçoamento na área de partejar criaturas filhas de Deus, postando-se a seu lado em todo percurso da gravidez, parto e puerpério.






quinta-feira, 17 de agosto de 2017

DOIS POETAS BISSEXTOS DO CEARÁ



O Estado do Ceará sempre foi um celeiro de bons trabalhadores da palavra escrita, seja na prosa ou na poesia. Pontuam como poetas ditos bissextos, aqueles cuja produção literária a despeito de uma descontinuidade característica, evidencia uma alta qualidade, própria daqueles eleitos pelas musas. Cumpre sinalar, que dentre nós pontuaram  venerandas figuras, como: Fran Martins ( 1913 -1996), Rachel de Queiroz (1910 – 2003), Moreira Campos (1914- 1994), Mozart Soriano Aderaldo (1917- 1995), Pedro Sampaio (1884- 1967), Francisco Alves de Andrade (1913- 2001), Gustavo Barroso (1888- 1959), Papi Junior (1854- 1934) e Demócrito Rocha (1888-1943), dentre outros.

Destaque para dois exímios trabalhadores da palavra e consagrados poetas bissextos:

João Jacques Ferreira Lopes (1910- 1999), jornalista, cronista, pintor e poeta:

“ Paralelo com o abstrato “:

Tu te formaste, ganhando um canudo/eu me formei sem diploma/chegaste de vitória em vitória/ao fim de uma carreira/continuo de queda em queda/no começo de uma andança/tens uma pedra no dedo, e eu, no sapato.../na engenharia, a tua especialidade/ é a arquitetura/na minha profissão indefinida/tenho uma técnica mais indefinida ainda/lidas com o barro, a areia e a cal/a pedra, o cimento e o ferro/meu material é de todo imaterial:/o sonho, a saudade, a tristeza, o amor.../na fôrma de madeira, derramas/o concreto/na forma, ponho o abstrato.../da tua treina e dos teus cálculos/saem colunas, vigas , lajes e/orçamentos, enquanto/eu pago para fazer projetos/lucrando apenas experiência/e quando a morte vier/ela, a destruidora/ela , a igualitária/ela, a cega de guia/não ficarão de teus templos/pedra sobre pedra/ e de minhas catedrais de nuvens/nem os sinos , nem os santos, nem os vitrais.../apenas, sobre nós ambos/cantará/ a colher do pedreiro/a colher do coveiro/construindo a tua última parede/guardando num cofre o último poeta.../


João Clímaco Bezerra (1913- 2006): Jornalista, advogado, romancista e poeta:
“ Cabocla “:
Cabocla das carnes roliças e queimadas/a tua alma é o berço/onde dormem as doces canções da minha terra/por ti soluçam as tristes violas nas várzeas/por ti, canta o sertanejo a sua doce toada de saudades.../cabocla/eu sonho com um homem forte e poderoso/cheio de fé no Brasil/que te vencerá um dia/quando a terra do sertão/ for golpeada de estradas de rodagem/nunca mais ouvirás, cabocla/o sertanejo cantando a sua doce toada de saudades/nem as várzeas cobertas de açudes/escutarão os doces acordes da viola/só o ruído ensurdecedor das máquinas do homem novo/quebrará o doce silêncio da terra sertaneja/que tristeza imensa sentirei nesse futuro/eu morrerei de saudades da cabocla/ e o sertão de saudades da viola/

Crônica tendo como referência a “ Antologia de poetas bissextos do Ceará “, do príncipe Artur Eduardo Benevides (1923-2014) , Revista Clã , número 25, Ano de 1970 .









  


terça-feira, 15 de agosto de 2017

BRINCANDO COM FOGO




Wernher Von Braun (1912- 1977), gênio criador dos foguetes V-2, instado pelos chefes nazistas para apressar a invenção de mortíferos artefatos atômicos por ocasião da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) teria declarado: “ Que importa quem ganhe a guerra? Eu quero é ir à lua! ” E no Japão, na arrasada e pequena Nagasaki, o prefeito de então, Tsume Tajawa, lembrou: “ Se o Japão possuísse o mesmo tipo de arma, tê-la-ia usado, também”.

Nos dias hodiernos, dois pouco convencionais líderes políticos de países, um na América do Norte, com cerca de 360.000.000 de habitantes e outro no Leste Asiático com aproximadamente  23.000.000 de habitantes, encontram-se com as mãos próximas aos botões que podem deflagrar um inimaginável ataque atômico, um dantesco Apocalipse. Estamos a assistir, uma vez mais, o deplorável bicho-homem a brincar, irresponsavelmente, com fogo. Tomara que seja só fabulação de dois histriônicos senhores.

E que Deus tenha piedade de nós!

“ Pensem nas crianças mudas telepáticas/pensem nas meninas cegas inexatas/pensem nas mulheres rotas alteradas/pensem nas feridas como rosas cálidas/mas, oh, não se esqueçam/da rosa, da rosa, da rosa de Hiroshima/a rosa hereditária/a rosa radioativa/estúpida e inválida/a rosa com cirrose/a anti-rosa atômica/ sem cor, sem perfume/sem rosa, sem nada “   Composição “ Rosa de Hiroshima “, de Vinícius de Moraes (1913- 1980).



“ Poetas, seresteiros, namorados, correi/é chegada a hora de escrever e cantar/talvez as derradeiras noites de luar/momento histórico, simples resultado do desenvolvimento da ciência viva/afirmação do homem, normal, gradativa sobre o universo natural/ sei lá que mais/ah, sim! Os místicos também profetizando o fim do mundo/e em tudo o início dos tempos do além/em cada consciência, em todos os confins/da nova guerra ouvem-se os clarins/guerra diferente das tradicionais, guerra de astronautas nos espaços siderais/ e tudo isso em meio às discussões, muitos palpites, mil opiniões/um fato já existe que ninguém pode negar,7,6,5,4,3,2,1, já! /e lá se foi o homem conquistar os mundos, lá se foi/ lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi/nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão:/ a lua foi alcançada afinal, muito bem, confesso que estou contente, também/a mim me resta disso tudo uma tristeza só/talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção/o que será do verso sem luar?/o que será do mar, da flor, do violão ?/tenho pensado tanto, mas não sei/poeta, seresteiros, namorados , correi/é chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar “  Composição “ Lunik – 9 “ , de Gilberto Gil (1942 -) .

domingo, 13 de agosto de 2017

PAI



Um ser plural, resiliente, inspirador, promotor e defensor do autocuidado (para consigo), do altercuidado (com o outro), do ecocuidado (com o ambiente) e do transcuidado (com as fontes provedoras do sentido da vida humana).

Aquele que também sabe “ padecer no paraíso”, “ com o avental todo sujo de ovo”, “ que vale mais que o céu e que o mar “, tal qual a sua alma gêmea, surfando nesta modernidade líquida de Zygmunt Bauman (1917- 2017).

“ Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse/que me olha e é tão mais velho do que eu? / porém , seu rosto...é cada vez menos estranho.../ meu Deus, meu Deus.../parece meu velho que já morreu !/como pude ficarmos assim?/nosso olhar – duro- interroga :/” o que fizeste de mim ?/eu , pai? Tu é que me invadiste/lentamente, ruga a ruga... que importa?/ eu sou, ainda,/ aquele mesmo menino teimoso de sempre/e os teus planos enfim lá se foram por terra/mas sei que vi, um dia- a longa, a inútil guerra!-/vi sorrir , nesses cansados olhos, um orgulho triste ...    O velho do espelho, poema de Mário Quintana (1906- 1994) .

Reza uma lenda indígena que tinha um costume de deslocar os indivíduos mais idosos da tribo para o cume de uma montanha com o intuito de abandoná-los à sua própria sorte. Certa feita, num dia de muito frio, um filho que acompanhava o pai naquele caminho, com o coração cortado, minimizou:

- Pai, vou deixar este cobertor aqui, para o senhor se proteger deste incômodo frio.

O velho, calmamente, respondeu:

- Deixe comigo só a metade do cobertor, filho. Fique com a outra para quando chegar a sua vez!”

Mande daí, da morada dos bons, sua benção, meu querido e velho pai!
E, Parabéns a todos os pais!







sexta-feira, 11 de agosto de 2017

HOMENAGEM AO DIA DOS PAIS



Há poucos minutos compartilhei de uma homenagem ao dia dos pais idealizada por crianças, dentre elas, Ana Lis, minha filha de 8 anos, num colégio do Bairro de Dionísio Torres. Um palestrante, na ocasião, deu ênfase a imagem de um Carpinteiro, José, de braços abertos em atitude de proteção a uma Gestante, Maria. Naquele gesto simbólico de José, plasmava-se o amor, o carinho, a proteção, o desvelo, enfim, o fermento em que sólidas raízes dariam origem uma árvore que, definitivamente, produziria bons frutos. Ali em minha volta vivi um gozoso momento onde um grupo de anjinhos a levitar, em infantil graça, cantaram e oraram a Deus, pelos seus pais.

“ Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol, o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões alheias. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.

O campônio, o leitor de novelas, o puro asceta – estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade- um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação, que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo – quer haja sido, quer não – me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que tenho e o que não quero” (Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa).
Obrigado, Ana Lis e demais anjinhos da escola e, parabéns a todos os pais que habitam esse mundo de meu Deus!