domingo, 18 de fevereiro de 2018

Domingo do pé de cachimbo, no Parque do Cocó, em Fortaleza. Onde há três meses conviviam plantas desvitalizadas e lagoas secas, hoje exubera a vida em cores, por conta do milagre aquoso caído dos céus. Trata-se da impermanência da vida. É Heráclito de Éfeso redivivo : "não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio". Quando retornamos ao rio, as águas e nós, seremos outros.

A cada segundo nossas células nascem e morrem. A natureza segue a mesma ordem.
Como diz o sábio vietnamita Thich Nhat Hanh :

"A minha natureza é envelhecer/não posso evitar o envelhecimento /a minha natureza é adoecer /não posso evitar ficar doente/a minha natureza é morrer/não posso evitar a morte /tudo que é querido por mim e todos os que amo/ têm a natureza da mudança /não posso ser separado deles/minhas ações são minhas únicas posses /não posso escapar às consequências das minhas ações /elas são o solo que me sustenta ".

Vale a pena buscar a utopia :

"Eu quero uma casa no campo /onde eu possa compor muitos rocks rurais /e tenha somente a certeza/dos amigos do peito e nada mais/eu quero uma casa no campo/onde de eu possa ficar do tamanho da paz/e tenha somente a certeza/dos limites do corpo e nada mais/eu quero carneiros e cabras pastando/solenes no meu jardim /eu quero a esperança de óculos /e um filho de cuca legal/eu quero plantar e colher com a mão /a pimenta e o sal/eu quero uma casa no campo/do tamanho ideal, pau a pique e sapé/onde eu possa plantar meus amigos/ meus discos e livros, e nada mais"

Composição : Casa no Campo, de autoria de Tavito/ Zé Rodrix.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

ALUCINAÇÃO/BAHIUNO/BELCHIOR



No ano bissexto de 1976 acontece o lançamento do álbum “Alucinação” da autoria do cearense Antônio Carlos Belchior (1946-2017), que há pouco surgira no mundo da Música Popular Brasileira com a canção vencedora do IV Festival Universitário: “Na Hora do Almoço”, no ano de 1971, defendida por Jorginho Telles e Jorge Nery..

“No centro da sala, diante da mesa/no fundo do prato, comida e tristeza/a gente se olha, se toca e se cala/e se desentende no instante que fala/medo, medo, medo, medo, medo, medo/cada um guarda mais o seu segredo/a sua mão fechada, a sua boca aberta/o seu peito deserto, sua mão parada/lacrada e selada/e molhada de medo/pai na cabeceira: é hora do almoço/minha mãe me chama: é hora do almoço/minha irmã mais nova, negra cabeleira/minha avó reclama: é hora do almoço!/ei, moço!/eu inda sou bem moço/pra tanta tristeza/deixemos de coisa, cuidemos da vida/senão chega a morte ou coisa parecida/e nos arrasta moço, sem ter visto a vida/ou coisa parecida, ou coisa parecida/ou coisa parecida, aparecida/ou coisa parecida, ou coisa parecida/ou coisa parecida, aparecida”

Composição Na Hora do Almoço, autoria de Belchior.

Lançado pelo selo Phillips, o álbum “Alucinação” consagra a figura do compositor nordestino de voz anasalada, onde todas as dez faixas do disco, emplacaram no gosto popular como fecundos e duradouros sucessos. Uma característica desse beletrista cabeça-chata, se manteria como sua marca registrada: letras longas, vasadas num casto português, costurando temas poéticos, políticos, sociais e filosóficos, ligados à insatisfação da juventude, à rebeldia, à desumanidade da cidade grande e à dolorida solidão das pessoas destas capitais.

“Apenas um rapaz latino-americano”; “Velha roupa colorida”; “Como nossos pais”; “Sujeito de sorte”; “Como o diabo gosta”; “Alucinação”; “Não leve flores”; “A palo seco”; “Fotografia 3X4”; “Antes do fim”, compunham o singelo disco, hoje catalogado como um clássico da discografia nacional.
“Eu não estou interessado/em nenhuma teoria/em nenhuma fantasia/nem em algo mais/nem em tinta pro meu rosto/ou, oba-oba, ou melodia/para acompanhar bocejos/sonhos matinais/eu não estou interessado/em nenhuma teoria/nem nessas coisas do Oriente/romances astrais/a minha alucinação é suportar o dia-a-dia/e o meu delírio/é a experiência com coisas reais/um preto, um pobre, um estudante/uma mulher sozinha/blues jeans e motocicletas/pessoas cinzas normais/garotas dentro da noite/revólver : cheira cachorro/os humilhados do parque/com os seus jornais/carneiros, mesa, trabalho/meu corpo que cai do oitavo andar/e a solidão das pessoas/dessas capitais/a violência da noite/o movimento do tráfego/um rapaz delicado e alegre/que canta e requebra/é demais!/cravos, espinhas no rosto/rock, hot dog/play it cool, baby/doze jovens coloridos/dois policiais/cumprindo o seu duro dever/e defendendo o seu amor/e nossa vida/mas eu não estou interessado/em nenhuma teoria/em nenhuma fantasia/nem no algo mais/longe o profeta do terror/que a laranja mecânica anuncia/amar e mudar as coisas /me interessa mais “/

“Alucinação” composição da autoria de Belchior.

O rapaz latino-americano se desnuda num mar de verdades cruas, cortantes, feito faca, talhadas por um jovem que veio do Norte e que caiu na cidade grande, em tempos ásperos, no medonho redemoinho do Movimento Militar de 64, pondo fim a um juvenil sonho libertário para a triste América do Sul, do sal e do sol.

A partir de então, Belchior, quase que anualmente lança trabalhos, catapultado pela voraz mídia, até desaguar no enigmático CD “Bahiuno” da Gravadora Movieplay no ano de 1993, onde emergem cantos, desencantos e utopias, próprios dos turbulentos Anos 60 e 70 do século passado.

“Já que o tempo fez-te a graça de visitares o Norte/leva notícias de mim/diz àqueles da província que já me viste a perigo/na cidade grande, enfim/conta aos amigos doutores/que abandonei a escola para cantar em cabaré/baiões, bárbaros, bahiunos/com a mesma dura ternura/que aprendi na estrada e com Che/ah! Metrópole violenta que extermina os miseráveis/negros párias, teus meninos/mais uma estação no inferno/Babilônia, Dante eterno! Há Minas?/outros destinos ?/conta àquela namorada/que vai ser sempre o meu céu/mesmo se eu virar estrela/e aquelas botas de couro combinam com o meu cabelo/já tão grande quanto o dela/e no que toca à família/dá-lhe um abraço apertado que a todos possa abarcar/fora-da-lei procurado me convém/família unida contra quem me rebelar/cai o Muro de Berlim – cai sobre ti/sobre mim, Nova Ordem Mundial/camisa-de-força-de-vênus.../ah! Quem compraria, ao menos, o velho gozo animal/já que o tempo fez-te a graça de visitares o Norte/leva notícias de mim/o cara caiu na vida vendo seu mundo tão certo/assim tão perto do fim/dá flores ao comandante que um dia/me dispensou do serviço militar/ah! Quem precisa de heróis:/feras que matam na guerra e choram na volta ao lar/gênios-do-mal tropicais/poderosos bestiais/vergonhas de Mãe Gentil/fosse eu um Chico, um Gil, um Caetano/ e cantaria, todo ufano: ‘Os Anais da Guerra Civil”/ao pastor da minha igreja/reza que esta ovelha negra/jamais vai ficar branquinha/- não vendi a alma ao diabo.../o diabo viu mal negócio nisso de comprar a minha/se meu pai, se minha mãe se perguntarem, sem jeito/- onde foi que a gente errou?/elogiando a loucura/e pondo-me entre sonhadores/diz que o show já começou/trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes :/barbárie, devastação/o rinoceronte é mais decente do que essa gente demente/do Ocidente tão cristão”/  Composição Bahiuno, de autoria de Belchior e Francisco Casaverde.

O neologismo Bahiuno diz respeito a baiano, como eram denominados os nordestinos/nortistas que migravam para o Sul Maravilha, em busca da sorte grande, e, Huno, tribo nômade, bárbara, comandada pelo rei Átila, nominado “Flagelo de Deus”, que invadiu o Império Romano no século IV. Cumpre salientar, que em sua magnanimidade e doçura, Belchior põe-se ao largo, sendo um antípoda do sanguinário rei Átila.

 Em Bahiuno, o menestrel cearense faz chegar aos seus amigos e familiares notícias de sua aventura/desventura na Cidade Grande, referindo-se, também aos “doutores”, seus diletos companheiros da Faculdade de Medicina da UFC, Turma de 1973, apartados do compositor, de chofre, pela mão do destino, em 1971 com sua partida rumo a São Paulo. A letra faz clara menção ao guerrilheiro argentino/cubano Ernesto Che Guevara (1928-1967), trucidado na Bolívia; e a Dante Alighieri (1265-1321), poeta/ político florentino de quem Belchior tencionava traduzir a magna “Divina Comédia”.

Aparecem em “Bahiuno” as figuras de Chico(Buarque), carioca com fortes laços familiares em Pernambuco; Gil (Gilberto) e Caetano(Veloso), estes baianos, todos ídolos da MPB, a quem o cearense Belchior trata com a devida reverência (fosse eu um Chico, um Gil, um Caetano...).

Caetano, Gil, Betânia e Gal fizeram parte dos Doces Bárbaros e do Movimento Tropicalista, que influenciaram toda uma geração da moderna MPB. Não tardou a surgir na época, numa província do Norte, o “Pessoal do Ceará”, onde despontaram figuras como Augusto Pontes, Cláudio Pereira, Belchior, Raimundo Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Tetty, Fausto Nilo, Antônio José Brandão, Ricardo Bezerra, Ieda Estergilda, Cirino, Sérgio Pinheiro, Delberg, Francisca Neponuceno, Petrúcio Maia, Jorge Mello e Amelinha, dentre outros.
Do mesmo modo que o álbum “Alucinação” de 1976, põe em evidência a monumental figura do poeta, cantor, pintor e intelectual Antônio Carlos Belchior, Bahiuno, de 1993, fecha com chave de ouro a rica trajetória do bardo cearense, na história de nosso cancioneiro. Daí até 2017, ano de sua partida rumo às nuvens do divino, pouco foi acrescentado ao rico acervo musical talhado a cinzel pelo magistral” rapaz latino-americano, vindo do interior e sem parentes importantes”, mas que cravou sua marca indelével na moderna Música Popular Brasileira.

Francisco Clayrton/Francisco Eleutério.
  


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018



CARNAVAL DE ANTANHO EM FORTALEZA



“Este ano não vai ser/ igual aquele que passou/eu não brinquei/você também não brincou/aquela fantasia que eu comprei/ficou guardada, a sua também/ficou pendurada/mas esse ano está combinado/nós vamos brincar separados/se acaso meu bloco/encontrar o seu/não tem problema/ninguém morreu/são três dias de folia e brincadeira/você pra lá e eu pra cá/até quarta-feira”.
Até Quarta-Feira; composição de Humberto Silva/Paulo Sette.
“A estrela d’alva/no céu desponta/e a lua anda tonta/com tamanho esplendor/e as pastorinhas/pra consolo da lua/vão cantando na rua/lindos versos de amor/linda pastora/morena da cor de Madalena/tu não tens pena/de mim, que vivo tonto/com o teu olhar/linda criança/tu não me sais da lembrança/meu coração não se cansa/de sempre e sempre te amar”
As Pastorinhas; composição de João de Barro/Noel Rosa.
“Um pequenino grão de areia/que era um pobre sonhador/olhando o céu viu uma estrela/e imaginou coisas de amor, ô, ô, ô/passaram anos, muitos anos/ela no céu, ele no mar/dizem que nunca o pobrezinho/pode com ela encontrar/se houve, ou se não houve/alguma coisa entre eles dois/ninguém soube até hoje explicar/o que há de verdade é que depois/muito depois/apareceu a estrela-do-mar “
Estrela-do-Mar; composição de Marino Pinto/Paulo Soledade.
“Tanto riso/oh, quanta alegria/mais de mil palhaços no salão/Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/nomeio da multidão/foi bom te ver outra vez/tá fazendo um ano/foi no carnaval que passou/eu sou aquele Pierrô/que te abraçou/que te beijou, meu amor/na mesma máscara negra/que esconde o teu rosto/eu quero matar a saudade/vou beijar-te agora/não me leve a mal/hoje é carnaval”
Máscara Negra; composição de Zé Keti/Hildebrando Matos.
“Confete, pedacinho colorido de saudade/ai, ai, ai, ai/ao te ver na fantasia que usei/confete, confesso que chorei/chorei porque lembrei o carnaval que passou/aquela Colombina que comigo brincou/ai, ai, confete/saudade do amor que se acabou”
Confete; composição de David Nasser/Jota Junior.
“Eu perguntei a um malmequer/se meu bem ainda me quer/e ele então me respondeu/que não/chorei, mas depois eu me lembrei/que a flor também é uma mulher/que nunca teve coração/a flor-mulher/iludiu meu coração/mas, meu amor/é uma flor ainda em botão/o seu olhar/diz que ela me quer bem/o seu amor/é só meu, de mais ninguém”
Malmequer; composição de Newton Teixeira/Cristóvão de Alencar.
“A sorrir você me apareceu/e as flores que você me deu/guardei no cofre da recordação/porém depois você partiu/pra muito longe e não voltou/e a saudade que ficou/não quis abandonar meu coração/a minha vida se resume/ó, Dama das Camélias/em duas flores sem perfume/ó, Dama das Camélias”
Dama das Camélias; composição de João de Barro/Alcyr Pires Vermelho.
Com a areia da saudade a arranhar minha cansada vista, percorro o antigo corso pela Avenida Dom Manuel e Duque de Caxias, no tríduo de Momo, numa Fortaleza coquete nos idos de sessenta do século passado. O Rei Luizão, Primeiro e Único, acompanhado de sua corte, abria a fuzarca animando os blocos oficiais: Prova de Fogo; Cordão das Coca- Colas; Garotas da Lua; Maracatus Ás de Paus/Espada/Ouro/Leão Coroado. 
Os Blocos dos Sujos, “os papangus” tangidos dos bairros da periferia, tocados pela cachaça, armados de serpentinas e confetes tiravam sarro com todos. No ar reinava o cheiro adocicado dos lança-perfumes da marca Rhodia, contrabandeados da vizinha Argentina. Não raro, um folião mais afoito, dava com as costas no Samdu ou na Assistência Municipal, nosso Palácio do Mercúrio Cromo.
“O Bloco da Vitória está nas ruas/desde que o dia raiou/venha minha gente/pro nosso cordão/que a hora da virada chegou/ô, ô, ô, ô /quando o povo decide/cair na frevança/não há quem dê jeito/aguenta o rojão/fica sem comer/mas no final, ei, tá tudo ok/neste carnaval/quá, quá, quá, quá/o negócio é gargalhar/e com bate-bate de maracujá/a nossa vitória vamos festejar”
O Bloco da Vitória; composição de Nelson Ferreira.
“É de fazer chorar/quando o dia amanhece/e obriga o frevo acabar/oh quarta-feira ingrata/chega tão depressa/só pra contrariar/quem é de fato um bom pernambucano/espera um ano/e se mete na brincadeira/esquece tudo quando cai no frevo/e no melhor da festa/chega quarta-feira”
É de Fazer Chorar; composição de Luiz Bandeira.
E viva Zé Pereira!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Marchinhas Políticas de Carnaval



Tudo começou pelas mãos da maestrina Chiquinha Gonzaga(1847 -1935)com o magistral "Ó abre alas" em 1899. Desde então a política é um prato cheio para os compositores carnavalescos.
"Ó abre alas/que eu quero passar/eu sou da Lira /não posso negar/Rosa de Ouro/é quem vai ganhar".
Em seguida surge o "Cordão dos Puxa-Sacos ": 
"Lá vem o cordão dos Puxa-Sacos /dando vivas aos seus maiorais /quem está na frente é passado pra trás /e o cordão dos Puxa-Sacos/cada vez aumenta mais/Vossa Excelência /Vossa Eminência /quanta reverência nos cordões eleitorais /mas se o "doutor" cai do galho /e vai ao chão /a turma toda evolui de opinião /e o cordão dos Puxa-Sacos/cada vez aumenta mais"
Em Fortaleza, na Vila Morena, os rapazes com inveja dos militares americanos que namoravam as beldades da terrinha , apelidadas de garotas Coca-Cola, cantavam : "Lá vem o Cordão das Coca-Colas/dando vivas aos americanos " . Coisas do Ceará -Moleque .

Logo surgiu a música "Maria Candelária ", falando de um tipo, até hoje presente na dadivosa política brasileira :
"Maria Candelária/é alta funcionária /saltou de pára - quedas/caiu na letra"O", oh, oh, oh, oh/começa ao meio-dia/coitada da Maria /trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó , oh, oh, oh, oh/à uma, vai ao dentista /às duas, vai ao café /às três, vai à modista /às quatro, assina o ponto e dá no pé /que grande vigarista que ela é! "
A marchinha seguinte era uma preparação para o retorno triunfal do camaleônico " Pai dos Pobres" , Getúlio Vargas (1883 -1954), aquele que "saiu da vida para entrar na História ":
"Bota o retrato do Velho, outra vez/bota no mesmo lugar/o retrato do Velhinho /faz a gente trabalhar /eu, já botei o meu/eu tu, não vai botar?/já enfeitei o meu/ e tu vai enfeitar?/o sorriso do Velhinho faz a gente trabalhar"

A próxima marchinha contempla o histriônico "salvador da pátria " Jânio Quadros (1917-1992), que governou o país por um breve período, deixando todos a ver navios:
"Varre, varre, varre, vassourinha /varre a bandalheira/que o povo já tá cansado /de sofrer desta maneira/Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado /Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado /alerta , meu irmão / vassoura , conterrâneo /vamos vencer com Jânio "

Hoje, 2018, estamos cansados e desiludidos, divididos entre "coxinhas e mortadelas", na pindaiba, mas com um mundo de motivos para banhar este carnaval com marchinhas políticas , incluindo candidatos a Presidente e Ministros. Estão excluídas do catálogo as músicas apelativas e grosseiras como " a cabeleira do Zezé; o teu cabelo não nega ", dentre outras.

E viva Zé Pereira!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018




Manhã chuvosa em Aquiraz acolhendo a jangada " sorriso do mar" com quatro heróis a balouçar na flor d'agua depois de três dias de pescaria.
" Ó mar salgado, quanto do teu sal/são lágrimas de Portugal!/por te cruzarmos, quantas mães choraram/ quantos filhos em vão rezaram!/quantas noivas ficaram por casar/para que fosses nosso, ó mar!/valeu a pena?Tudo vale a pena/se a alma não é pequena/quem quer passar além do Bojador /tem que passar além da dor/ Deus ao mar o perigo e o abismo deu/mas nele é que espelhou o céu " (Fernando Pessoa : 1888-1935 ).
 — em  Prainha.
Canção do Mar



" Fui bailar no meu batel/além do mar cruel/e o mar bramindo /diz que fui roubar/a luz sem par/do teu olhar tão lindo/vem saber se o mar terá razão /vem cá ver bailar meu coração /se eu bailar no meu batel/não vou ao mar cruel/e nem lhe digo aonde eu fui cantar /sorrir, bailar, viver, sonhar contigo /vem saber se o mar terá razão /vem cá ver bailar meu coração /se eu bailar no meu batel /não vou ao mar cruel /e nem lhe digo aonde eu fui cantar/sorrir, bailar, viver, sonhar contigo " Canção do Mar , composição de Ferrer Trindade e Frederico de Brito.
" Eu ontem passei o dia/ouvindo ouvindo que o mar dizia/choramos, rimos, cantamos /falou -me do seu destino/de seu fado/depois para se alegrar/ergueu -se , e bailando, e rindo/pôs- se a cantar / um canto molhado e lindo/ o seu hálito perfuma/e o seu perfume faz mal/ deserto de águas sem fim/ó sepultura de minha raça /quando me guardas a mim?/ele afastou-se calado/ eu afastei - me mais triste /mais doente , mais cansado /ao longe o sol na agonia / de roxo as águas tingia /voz de mar misteriosa/voz do amor e da verdade/ó voz moribunda e doce /da minha grande saudade/ voz amarga de quem fica/trêmula voz de quem parte/e os poetas a cantar / são ecos da voz do mar" . Poema de Antônio Botto (1897 -1959).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018


Rasgando o ventre do Parque do Cocó , na altura do Bairro Dionísio Torres , em Fortaleza, uma sacolejante serpente de ferro , chispando fogo pelo nariz , nossa velha Maria - Fumaça , a choramingar : "café com pão; bolacha, não " .A parada final será no Porto do Mucuripe.
Este flagrante no século XIX seria , praticamente, o mesmo de hoje, excetuando -se os múltiplos espigões de concreto , com o dedo em riste apontando para os céus !
25 de janeiro de 2018, 7:40 h.