quarta-feira, 23 de maio de 2018

Meu Cordial Brasileiro

"Meu Cordial brasileiro( um sujeito)/me conta o quanto é contente e quente/...sorri de dente de fora no leito/sulamericanamente/O senhor não me perdoa/eu não entrar numa boa e/perder sempre a esportiva/frente a esta gente indecente/ que corre , drome e consente/que cala, logo está viva/também estou vivo, eu sei/mas porque posso sangrar.../e mesmo vendo que é escuro/dizer que o sol vai brilhar/com/contra quem me dá duro/com o dedo na cara /me mandando calar/menina, ainda tenho um cigarro/mas eu posso lhe dar/menina, a grama está sempre verde/ mas eu quero pisar/menina, a Estrela do Norte não saiu do lugar/menina, asa branca, assum preto, sertão não virou mar/menina, o show já começou, é bom não se atrasar/menina ,é proibida a entrada, mas eu quero falar/com/contra quem me dá duro/ com o dedo na cara/me mandando calar/que o pecado nativo/ é simplesmente estar vivo/é querer respirar".

Canção " Meu Cordial Brasileiro " da autoria de Belchior (1946 - 2017).

Jacques Lambert com "Os Dois Brasis" erigiu a clara dicotomia do Brasil rico ( Sul ) e pobre ( Norte) desenhando a Brasindia. O mito do brasileiro cordial que Belchior retrata com fina ironia na canção acima citada desmente a cruel realidade. Tudo foi utopia de sociólogos vermelhos na terceira década do século XX.
O "cearense cordial"nos dias de hoje , de trabuco em punho, transforma a "Terra de Sol" em "Terra de Sangue" , diante de dirigentes omissos.
Hora de pôr ordem na casa , CEARÁ!

segunda-feira, 21 de maio de 2018

LIBERDADE
"Somos muitos Severinos/iguais em tudo na vida:/na mesma cabeça grande/que a custo se equilibra/no mesmo ventre crescido/sobre as mesmas pernas finas/e iguais também porque o sangue / que usamos tem pouca tinta/e se somos Severinos/iguais em tudo na vida/morremos de morte igual/mesma morte severina:/que é a morte/de velhice antes dos trinta/de emboscada antes dos vinte/ de fome um pouco por dia/(de fraqueza e de doença/é que a morte Severina/ataca em qualquer idade/e até gente não (nascida)/
Excertos do poema Morte e Vida Severina , de João Cabral de Melo Neto
 ( 1920 -1999 ).

Já se vislumbra no chão pedregoso do sofrido Ceará, movimentos dando conta de eleições futuras. Há que se ficar atento às práticas daninhas que proliferam nessas pelejas. Exemplos de "eleições democráticas" como na Rússia e Cuba.
Somos seres de desejo e nossos desejos se opõem. O conflito é a própria essência da sociedade. A democracia não é a ausência de conflitos.
Sejamos atores conscientes de mudanças, sendo semente , adubo e colheita!
Vamos por ordem na casa , CEARÁ!

quarta-feira, 16 de maio de 2018

ÁREA DA FOME, DE JÁDER DE CARVALHO

“Nunca me conformei com a inclusão do Ceará na “área da fome”, de que fala o professor Josué de Castro. É verdade que, em nossa província, já se comeu mais e melhor. Mas, apesar da ausência do queijo, do leite e da carne de bode na dieta sertaneja, ainda assim não é justo, nem lógico, o enquadramento do Ceará na área da subnutrição. O nosso povo é magro, mas não esquelético. Alimenta-se menos do que há trinta anos, mas não deve ser posto ao lado do indiano ou do felá. Uma população faminta não realizaria, sem dúvida, a obra gigantesca do nosso rurícola, responsável por toda a nossa produção agrária. Ele trabalha de sol a sol no cabo da enxada.
Curva-se sobre a terra o ano todo, cuidando do seu roçado e dos roçados alheios. E não comparece no índice da mortalidade com uma percentagem que se pudesse dizer alarmante.
Por que tanta fortaleza física? De onde promana essa energia que não se esgota nunca? Um homem mal alimentado enfrentaria o labor diurno e pesado com a mesma galhardia do sertanejo?
E, com certeza, nisso não entra o sobrenatural, em forma de milagre. O músculo de nosso trabalhador rural apoia-se no feijão e na rapadura. Enquanto, no sertão, houver poder aquisitivo, da parte do homem pobre, para a obtenção da rapadura, ele não deve incluir-se entre as criaturas que não comem.
Na minha fazenda, amparo-me no braço de cinco ou seis trabalhadores de enxada, para a limpa da cana, plantio de cereais e corte de lenha para o engenho. E, acreditem-me, jamais notei o menor desfalecimento entre os que me ajudam, mediante um salário que não é grande, porém não é pequeno demais. Cantam, assoviam, trocam gracejos – sintoma evidente de que não o fazem para espantar tristezas, mas simplesmente porque se sentem bem, apesar da pobreza.
E que comem esses homens? Comem feijão, farinha, milho e rapadura. Raramente a carne lhes chega à boca. Apenas, uma vez perdida, o toucinho enfeita e tempera o feijão.
Quando os dentes dessas criaturas trincam a rapadura, eu me rio -mas rio mesmo- dos sábios oficiais que anunciam a morte próxima da rapadura, substituída pelo açúcar. No mato o doce é e será por muito tempo ainda – a rapadura.
Enquanto o homem do campo não se encontrar em condições de adquirir carne, leite e açúcar, aquela não perderá seu trono, assegurando a sobrevivência de milhões de seres humanos que os governos e as classes dominantes relegaram ao mais completo abandono.
Não, não se inscreva o Ceará na área da fome. Aliás, o prof. Silva Melo também discorda – e com brilho e dados fulminantes – da opinião de Josué de Castro.
Pena é que essa fortaleza de músculo e de vigor físico ainda espere o seu poeta, o seu sociólogo e o seu romancista, continuando ignorada ou subestimada pelos que se propõem a governar o Brasil, mas desgraçadamente não se afastam do mar, arranhando o litoral como caranguejos.”
Crônica da autoria do ilustre poeta, escritor, advogado e jornalista cearense Jáder Moreira de Carvalho (1901 – 1985) extraída do livro “Meu Passo na Rua Alheia” da Editora Terra de Sol, 1981.
Hoje, meio século depois, o sofrido torrão cearense continua sob o jugo da foice e do martelo, com” políticos – caranguejos” ainda reverenciando tétricas figuras de nomes diminutos e portadores de colossal maldade como, Marx, Lenin, Stalin, Mao, Che e Fidel. E o povo famélico portando a beligerante peixeira, ora turbinada com um demoníaco instrumento que cospe fogo toldando a “Terra de Sol” em “Terra de Sangue” e, perversamente, imolando inocentes “Cecílias e Nayanas”.
Muda Ceará, acorda desta letargia insana, enquanto é tempo!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Minha querida mãe, Jurema Costa Eleutério:


"Ensinaste-me a voar... porém não voei teu vôo...
Ensinaste-me a sonhar... porém nunca sonhei teus sonhos...
Ensinaste-me a viver... porém nunca vivi tua vida...
Ensinaste-me teu canto ... mas, nunca cantei tua canção ...
Ensinaste-me a pensar... mas nunca pensei igual a ti...
Porém sabes tu que cada vez que vôo, sonho , vivo, canto e penso... estão neles a semente do amor ensinado e aprendido !"
Adaptação de um poema de Madre Teresa de Calcutá (1910-1997).
Obrigado, mãe:
Hoje saboreando minha segunda infância, aguardo em paz , nosso reencontro para vivermos o perene gozo da eternidade.
Mande daí tua bênção!
Com muito amor e saudade:
Teu querido filho Francisco !

segunda-feira, 7 de maio de 2018

FELICIDADE

"Que todos os seres encontrem a felicidade e as causas da felicidade.
Que todos os seres se libertem do sofrimento e das causas do sofrimento.
Que todos os seres encontrem a felicidade livre do sofrimento.
Que todos os seres vivam em equanimidade livres de paixões, de agressões e de preconceitos ".
" Que eu me torne em todos os momentos, agora e para sempre,
Um protetor para os sem proteção,
Um guia para aqueles que perderam o seu caminho,
Um navio para os que têm oceanos a cruzar,
Uma ponte para aqueles com rios para atravessar,
Um santuário para aqueles em perigo,
Uma lâmpada para aqueles sem Luz,
Um lugar de refúgio para aqueles que não têm abrigo,
E um servo para todos que precisam "

sexta-feira, 4 de maio de 2018


O PASSADO/LUAR DO SERTÃO

PARA O MENESTREL FRANCISCO JOSÉ PESSOA



Ah! quantas vezes eu não digo/ao meu Passado esse amigo/que me alenta no sofrer/- “acorda, tem paciência! /anda conversar comigo/e perdoa a impertinência/de tanto te aborrecer!”/e o pobre velho, coitado/mal dormido e já cansado/de tanto e tanto o chamar/levanta-se, bocejando/e vem a mim , caminhando/passo a passo, a me fitar/ao meu convite assentindo/penteando os cabelos brancos/e as barbas brancas, sorrindo/jovialmente se vestindo/com suas vestes de cores/deitando o barco no rio/cujas margens reverdecem/com seus antigos verdores/acendendo as luminárias/as multifárias lanternas/de luzes multicolores/oferecendo-me a taça/de seus mágicos licores/licores que fez das lágrimas/de nossos velhos amores/e, por fim, saudando a lua/que em seus mágicos fulgores/já tantas vezes saudou/- o meu passado, embarcando/soltando a vela e remando/para a nascente do rio/que já tão longe ficou/- cantando, e, às vezes, chorando/na viagem me vai mostrando/no próprio espelho das águas/os meus prazeres e mágoas/tudo quanto já passou !/mas, basta um leve arrepio/no liso espelho do rio/quebrando, instantaneamente/todo o encanto da visão/para eu ver, desiludido/que tudo é um sonho perdido/um sonho só, refletido/não no espelho da corrente/mas no cristal transparente/de minha imaginação !/

Pois só assim é que eu vejo/que o barqueiro, o velho amigo/que vai cantando comigo/revivendo o tempo antigo/que o tempo já devorou/é um homem transfigurado/é um morto ressuscitado/é o cadáver do Passado/que a saudade embalsamou/mas, inda assim, abençoado/bendito seja o Passado/que inda depois de morrer/ao menos, pela memória/concede-me a excelsa glória/- glória de reviver!”

“O Passado”, poema de Catulo da Paixão Cearense (1863 -1946), músico, poeta e compositor brasileiro, nascido em São Luís do Maranhão, filho de pai cearense, e, mãe maranhense. Autor da música “Luar do Sertão”:

“Não há, oh! gente. oh! não/luar como esse do sertão/oh, que saudades do luar da minha terra/lá na serra branquejando/folhas secas pelo chão/este luar cá da cidade tão escuro/não tem aquela saudade do luar lá do sertão/se a lua nasce por detrás da verde mata/mais parece um sol de prata/prateando a solidão/a gente pega na viola que ponteia/e a canção é a lua cheia/ a nos nascer do coração/coisa mais bela neste mundo/não existe/do que ouvir-se um galo triste/no sertão, se faz luar/parece até que a alma da lua descansa/escondida na garganta/desse galo a soluçar/ah, quem me dera/eu morresse lá na serra/abraçado a minha terra/e dormindo de uma vez/ser enterrado numa grota pequenina/onde a tarde a sururina/ chora a sua viuvez/não há, oh! gente. oh! não/luar como esse do sertão”


segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Livro


Para o bibliófilo e mestre Eurípedes Chaves Jr.

Michel de Montaigne (1533-1592) em seus clássicos "Ensaios " fez uma comparação entre os três gêneros de convivência: "as mulheres belas e honestas; as amizades raras e refinadas; e por fim , os livros", que considera mais proveitosos e salutares que as duas ligações :
"Esses dois relacionamentos ( o amor e a amizade) são fortuitos e dependentes de outrem. Um é difícil por sua raridade, o outro murcha com a idade; ambos não atenderam suficientemente às necessidades de minha vida. O dos livros, é muito mais seguro e mais nosso. Cede aos primeiros as outras vantagens, mas , por sua vez, tem a constância e a facilidade de seu serviço. Este me acompanha em todo meu percurso e me assiste em tudo. Consola-me na velhice e na solidão; alivia-me do peso de uma ociosidade tediosa; desembaraça-me a qualquer momento das companhias que me desagradam ;embota os aguilhões da dor, se não for extrema e dominante. Para distrair-me de uma fantasia importuna, basta recorrer aos livros; eles facilmente me desviam para si e subtraem-na de mim. E, além disso, não se revelam por ver que só os procuro na falta daquelas outras satisfações, mais reais, mais vivas e naturais; recebem-me sempre com a mesma fisionomia"

Os livros são presenças sempre benevolentes, dotadas de equanimidade, ao passo que os amigos e as amantes sofrem variações de humor. 

Em andanças pelos sebos do centro de nossa Bela Desposada do Sol , um aprendiz de pastor de almas, toma contato com ilustres conterrâneos, lado a lado, morando em balouçantes prateleiras. Todos esperam um afago de uma mão amiga. Uns vestidos em roupas pomposas , capa dura; outros mais humildes, em brochuras envelhecidas pelo rigor dos tempos. Como os estimo!
Fica um sincero agradecimento aos mantenedores dos sebos que congregam a confraria dos formadores de nossa rica Literatura Cearense.
 — em  Praia Porto das Dunas.