terça-feira, 27 de junho de 2017

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: UMA DURA REALIDADE




Uma bela mulher de cabelos azuis da cor do mar e portando um largo sorriso juvenil adentrou, iluminando o sisudo consultório de um velho parteiro de aldeia.

“- Vim iniciar um pré-natal. E trouxe meu primeiro filho para participar deste momento sublime”. Calvin, era o nome do pimpolho, um cãozinho da raça pinscher miniatura, quieto e atento a toda conversa, muito bem aconchegado ao morno colo “ materno”.

Após o preenchimento do Cartão da Gestante com rigorosa anamnese, o doutor avisou que precisaria examinar a novel cliente. De pronto, ela pediu licença para chamar o seu companheiro que ficara na sala de espera, trabalhando freneticamente num computador de mão.

“ – Aí vozão! Tudo em cima? “

Na maior informalidade do mundo, o jovem com um coque preso no alto da cabeça e pejado de dragões espalhados pelo pescoço e membros superiores deu início a um papo surreal mostrando surpresa pela infinidade de lápis, canetas, borrachas e papéis espalhados em cima da mesa de trabalho do esculápio e, inacreditável, sem nenhum sinal de vida inteligente conectado na Web. Apenas um pequeno aparelho de som gemia maneiro um chorinho de Pixinguinha.

O velho parteiro falou de sua alegria ao participar junto desta família híbrida e jovial, exato naquele momento fundamental da vinculação pré-natal: a primeira ultrassonografia com a visualização do concepto e a ausculta dos batimentos cardíacos fetais. Calvin, agora nos braços do “pai” ensaiou um breve momento de ciúme com uma mistura de grunhidos e choro baixo. Uma pândega!

Em seu meio século de labuta em três turnos, aquele parteiro já vivenciara (quase) todo tipo de situação no consultório.

 “- Vamos aprender juntos, caros amigos, nesta longa jornada de nove meses, às vezes, navegando em mar tranquilo e em outras ocasiões enfrentando fortes tempestades. Não importa, estaremos trabalhando no acompanhamento psicológico da gravidez, na consecução do parto e na enriquecedora relação de pais e filhos na construção de sua autonomia, uma dinâmica de alteridade, transformadora da família”. Pregou, paternalmente, o velho homem de jaleco branco rezando para que aquela família ali à sua frente entendesse e aceitasse o tipo de assistência pré-natal por ele ofertada.

“ A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que a gravidez na adolescência ocorre entre dez e dezenove anos, e as que engravidam com catorze anos ou menos são especialmente vulneráveis e mais expostas à morbimortalidade. Cerca de dezesseis milhões de adolescentes entre quinze e dezenove anos, e cerca de um milhão com menos de quinze anos dão à luz a cada ano – 95 % dos casos se dão em países menos desenvolvidos “ (Maldonado, M.T., 2017)

Ainda cabem sonhos diante daquela situação não planejada de uma gravidez na adolescência? O “poetinha” Vinícius de Moraes com larga experiência no ramo do amor, destila sua opinião em versos:

“ Filhos...Filhos?/ melhor não tê-los !/mas se não os temos/como sabe-los?/se não os temos/que de consulta/quanto silêncio/como os queremos !/banho de mar/diz que é um porrete.../cônjuge voa/transpõe o espaço/engole água/fica salgada/se iodifica/depois, que boa/que morenaço/que a esposa fica !/resultado: filho/e então começa/a aporrinhação :/cocô está branco/cocô está preto/bebe amoníaco/comeu botão/filhos ? filhos ?/melhor não tê-los/noites de insônia/cãs prematuras/prantos convulsos/Meu Deus, salvai-o!/ filhos são demo/melhor não tê-los.../mas se não temos/como sabê-los ?/como saber/que macieza/ nos seus cabelos/que cheiro morno/na sua carne/que gosto doce/na sua boca !/chupam gilete/bebem xampu/ateiam fogo/no quarteirão/porém, que coisa/que coisa louca/que coisa linda/que os filhos são!”       

Poema Enjoadinho de Vinícius de Moraes (1913- 1980).


domingo, 25 de junho de 2017

HOMENS- GABIRUS DO PLANALTO CENTRAL





“ Napoleão Bonaparte era de pequena estatura. O mesmo se diz do Apóstolo São Paulo e de muitos outros homens notáveis, quer pela ciência, quer pelo valor bélico, quer pela Santidade. Tem razão o prelóquio: “ O homem não se mede a palmo”.

Qual seria então o critério para se poder dizer que um homem é mais do que outro? Um será grande pela estatura e pequeno pela cultura científica. Um será grande como artista e pequeno pelo seu valor moral. Um será grande pelo seu gênio bélico e pequeno entre os literatos.

Dizer que um homem é grande realmente não é fácil. Bossuet, ao começar a oração fúnebre diante do ataúde de Luiz XIV, cognominado o Grande – não teve a coragem de chama-lo de grande: “ – Grande? Grande só é Deus “. Em face da morte, a grandeza humana se reduz tanto que perde o seu significado.

De Bonaparte se conta que, certa vez, quis pendurar um quadro na parede, mas não alcançou o prego. Acudiu um oficial que estava perto: “ – Permita-me pendurá-lo, pois eu sou maior do que V. Majestade”.

“- Maior não – respondeu o Imperador: - Podes ser mais alto do que eu; maior não”.

Grandeza real é somente a da virtude”.

Crônica de D. Antônio de Almeida Lustosa (1886- 1974), extraída do livro Respingando, da Imprensa Universitária do Ceará (1958).

No ano de 1991 a mídia brasileira colocou em manchete um trabalhador rural do Nordeste brasileiro portando 1,35 metro de altura. Foi denominado de “homem- gabiru”. Certos tipos de ratos do Nordeste são conhecidos como” gabirus”. O nanismo daquele nordestino não era genético, e sim, nutricional, promovido pela carência alimentar crônica, fruto de um sofrível cardápio à base de mingau de água com farinha, e carne apenas oriunda de tatu, teju e rato do mato. Assim viviam milhões de sertanejos famintos. Nada que políticas governamentais bem urdidas não resolvessem.

Hoje perambulam feito zumbis no Planalto Central, verdadeiras ratazanas e homens-gabirus diferentes daqueles descritos pela mídia dos anos 90.

 Agora, mostram-se, quase todos, de estatura elevada, bem corados, sorridentes, malandros, bem longe do “nanismo nutricional” ; e sim, com o pérfido “ nanismo moral “ fruto da desbragada corrupção espalhada como metástase, irmanamente dividida entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Faltam a estas “pestes” as grandezas da virtude!
Um povo que elege corruptos não é vítima, é cúmplice! O que se precisa providenciar?
 Plantar a jato ratoeiras a granel!





sexta-feira, 23 de junho de 2017

 SOBRE TELÔMEROS, EM DOIS DEDOS DE PROSA
Para o Dr. Marcus Bessa




Nascer, crescer, amadurecer, reproduzir, envelhecer e morrer, representam passos inevitáveis no breve piscar de olhos da terreal jornada humana. O belicoso, intolerante e imprevisível século XXI acolhe cada vez mais indivíduos de cabelos grisalhos. Comenta-se que “ quarenta anos é a velhice dos jovens, e que, cinquenta é a juventude da velhice”.

O envelhecimento é o maior fator de risco para o desenvolvimento de doenças. Entendendo as causas moleculares do envelhecimento podemos tentar prorrogar o tempo de vida saudável de uma pessoa. Considera-se o envelhecimento como um processo progressivo, intrínseco, multifatorial e irreversível que com o tempo ocorre em todo ser vivo a consequência da interação entre a genética do indivíduo e seu meio ambiente.  Credita-se a fatores genéticos/herdados (30%) e fatores ambientais/hábitos de vida (70%) como responsáveis pelo envelhecimento humano.

Para alguns estudiosos, a partir do momento seguinte à conjugação do espermatozoide com o óvulo, a ampulheta do tempo e o inexorável relógio da vida, passam a desenhar, pausadamente, os contornos da velhice. Alguns especialistas em envelhecimento apregoam a seguinte distinção de idades:

“ Velhos-jovens” (60 a 74 anos); “velhos” (75 a 84 anos); e, “velhos- idosos” (maiores de 85 anos).

 O bicho-homem envelhece cada um a seu próprio ritmo, uns de forma célere e outros mais lentamente. No entendimento de George Bray “ os genes carregam o revólver e o meio ambiente puxa o gatilho”.

Nesta intrincada história de genética e envelhecimento surgem os telômeros, uns segmentos de DNA localizados nas extremidades dos cromossomos, comparados às pontas de um cadarço de sapatos, que ao longo do tempo vão encurtando e se desgastando. Os telômeros tornam possível que as células se dividam sem perder informação genética, além do que protegem, estabilizam e previnem aderências entre os extremos das moléculas de DNA lineares. Em 1990 graças aos estudos de Carol W. Greider e Calvin Harley estabeleceu-se a relação entre telômeros e envelhecimento. Quanto mais curtos os telômeros, maior a probabilidade de degenerescência rápida, trazendo a reboque um rosário de achaques como doenças cardíacas, neurológicas, pulmonares, endócrinas, reumatológicas e câncer.
Umas enzimas, chamadas telomerases, que recriam novos terminais nas extremidades dos cromossomos, ajudam na reversão do encurtamento dos telômeros. Estudos sobre tais enzimas proporcionaram o Prêmio Nobel de Medicina em 1990 para os pesquisadores Jack W. Szostak , Elisabeth H. Blackburn e Carol W. Greider.

O mundo científico volta seus olhos para escrutinar melhor as funções dos telômeros e das telomerases com vistas a aplicações nas áreas da saúde do envelhecimento humano.

Resta aguardar e seguir, por enquanto, conferindo aos que vivenciam tal estágio da vida, regras básicas acessíveis a todos: acolhimento, segurança, boa alimentação, exercícios físicos adequados, controle do estresse, sono reparador, boa socialização, criação de novos hábitos, inclusive, laborais, e fugir das desagradáveis companhias do álcool, tabaco, refrigerante, gorduras saturadas e pesticidas agrícolas, dentre outras.

 Por enquanto, intervenções farmacológicas para serem aplicadas na assistência ao envelhecimento humano saudável, encontram-se sob a ótica de estudos, como a utilização de rapamicina , resveratrol, everolimus e metformina.


quarta-feira, 21 de junho de 2017



JACK, JÁ QUE SOU DO PANDEIRO
Para o Dr. Marigelbio Lucena




“ Xô, xô, xô, xô/casaca de couro/cantando as duas na telha/parece uma arapuá/cheio de vara e algodão/o ninho de uma casaca/não parece ninho, não/parece mais uns parceiros/dos “ pajaús“ do sertão/em riba do pé de turco/tem um ninho de graveto/tem garrancho de jurema/tem pau branco , tem pau preto/tem lenha que dá pra facho/tem vara que dá pra espeto/uma grita, outra responde/uma baixa, outra também/parece mulher pilando/ pro mode fazer xerém/subindo e descendo as asas /como os seios do meu bem/eu nunca vi desafio/mais bonito, mais igual/duas casacas de couro/quando começam a cantar/parece dois violeiros/num galope à beira-mar”
“ Eu só boto bebop no meu samba/quando o Tio Sam tocar um bandolim/quando ele pegar/num pandeiro e num zabumba/quando ele aprender/que o samba não é rumba/aí eu vou misturar/Miami com Copacabana/chiclete eu misturo com banana/e o meu samba vai ficar assim/turururi bop-bebop-bebop/ eu quero ver a confusão/turururi bop-bebop-bebop/oha aí o samba-rock, meu irmão/é, mas em compensação/eu quero ver o boogie-woogie/de pandeiro e violão/eu quero ver o Tio Sam/de frigideira/numa batucada brasileira”
José Gomes Filho (Jackson do Pandeiro), nasceu no dia 31 de agosto de 1919 em Alagoa Grande, no Estado da Paraíba, no Nordeste brasileiro. Cantor, instrumentista e compositor que se tornou conhecido como Rei do Ritmo. Passeava, à vontade, em baião, xaxado, xote, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha e frevo. Sua mãe, com o nome artístico de Flora Mourão, folclorista e cantadora de coco, iniciou-o na arte musical. Aos sete anos, o garoto José Gomes tocava zabumba acompanhando a mãe em apresentações em sua cidade natal. Mudou-se com a família, aos 13 anos de idade para a cidade de Campina Grande na Paraíba, já órfão de pai. Trabalhou, ainda menor de idade em uma padaria, ajudando a compor um apertado orçamento familiar. Aos 17 anos, largou este emprego e caiu nos braços das rodas de samba atuando como baterista e ritmista em casas noturnas de Campina Grande. O próximo pouso de José Gomes foi a cidade de João Pessoa, na Paraíba, fazendo o circuito de boates e cabarés, ótimas escolas para artistas principiantes em busca de fama. Ao se transferir para Pernambuco apareceu, em definitivo o nome artístico de Jackson do Pandeiro, quando atuava na rádio Jornal do Comércio. Desde criança, José Gomes portava o apelido de Jack, por conta de um personagem do cinema mudo americano de nome Jack Perrin. De Jack para Jackson foi um pulo, pela melhor sonoridade auferida. Apenas em 1953 Jackson do Pandeiro conseguiu gravar seu primeiro disco 78 rpm, com as músicas “Sebastiana”, de Rosil Cavalcanti; e, “Limoeiro” de Edgar Ferreira. Em 1956 Jackson do Pandeiro casou-se com Almira Castilho de Albuquerque, ex-professora e funcionária da Rádio Jornal do Comércio com quem formou uma dupla em apresentações, que se caracterizava por trocarem “umbigadas” em pleno palco. Um rosário de sucessos brotou, a partir de então, na vida de Jackson do Pandeiro: “ Mulher do Aníbal”; “Um a Um”; ”Canto da Ema”; “ Chiclete com Banana”; Boi da Cara Preta”; “ Vou Gargalhar”, dentre outros. Já trabalhando no eixo Rio- São Paulo, Jackson do Pandeiro, onde ajudou na difusão da música nordestina ao lado de Luiz Gonzaga, “O Rei do Baião” e Marinês e sua Gente , “ A Rainha do Baião”, assistiu o seu sucesso minguar com os furacões da Bossa – Nova de Tom e Vinícius; da Jovem- Guarda de Roberto e Erasmo; e, da Tropicália dos baianos, Gil, Caetano e Gal. Esta mesma turma da pesada , citada acima, na década de 70, tratou de fazer renascer a figura de Jackson do Pandeiro , gravando alguns de seus maiores sucessos .
Em 10 de julho de 1982, em Brasília, para onde fora realizar um show, Jackson do Pandeiro sofreu um Acidente Vascular Cerebral, vindo a falecer logo em seguida. No dia 11 de julho de 1982 o cantor foi enterrado no Cemitério do Caju, na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente, seus restos mortais foram transladados para sua terra natal, Alagoa Grande, na Paraíba.
O cantor e compositor pernambucano Lenine (1959 -) prestou singela homenagem a Jackson do Pandeiro com a música Jack Soul Brasileiro:
“ Jack Soul Brasileiro/e que som do pandeiro/é certeiro e tem direção/já que subi nesse ringue/e o país do swing/é o país da contradição/eu canto pro rei da levada/na lei da embolada/na língua da percussão/a dança mugango dengo/a ginga do mamulengo/charme dessa nação/quem foi?/ que fez o samba embolar?/ quem foi?/que fez o coco sambar?/quem foi?/que fez a ema gemer na boa?/quem foi?/que fez do coco um cocar?/quem foi?/que deixou um oco no lugar?/quem foi?/quem foi?/que fez o sapo cantor da lagoa?/e diz aí Tião!/diga Tião! Oi! foste? fui! compraste? Comprei! pagaste? paguei!/me diz quanto foi?/foi 500 reais/me diz quanto foi?/Jack Soul Brasileiro/do tempero, do batuque/do truque, do picadeiro/e do padeiro e do repique/do pique e do funk rock/do toque da platinela/do samba na passarela/despencando na ladeira/na zoeira da banguela/eu só ponho bebop no meu samba/quando o Tio Sam pegar no tamborim/quando ele pegar no pandeiro e no zabumba/quando ele aprender que o samba não é rumba/aí eu vou misturar/Miami com Copacabana/chiclete eu misturo com banana/ e o meu samba/vai ficar assim/ ah! Ema gemeu/ah! Ema gemeu! Ah! Ema gemeu! eu digo deixe/que digam/que pensem/que falem/eu digo/deixa isso pra lá/vem pra cá/o que que tem?/tô fazendo nada/você também/não faz mal bater um papo/ assim gostoso com alguém”
Ponto final !

sábado, 17 de junho de 2017

A HEMOPTISE E O COMEDOR DE GILETE




“ Morrem quatro por minuto nesta América Latina.../não conto os que morrem velhos, só os que a fome extermina/ não conto os  mortos de faca  nem os mortos de polícia/conto os que morrem de febre e os que morrem de tísica/conto os que morrem de bouba, de tifo, de verminose/conto os que morrem de crupe, de cancro e esquistossomose/mas todos esses defuntos, morrem de fato é de fome/quer a chamemos de febre ou de qualquer outro nome/morrem de fome e miséria quatro homens por minuto/embora enriqueçam outros que deles não sabem muito”

 Ferreira Gullar (1930-2016)

Surgia feito uma visagem, sentado com as costas na parede, abraçando uma humilde mala de madeira. Alto, esquálido, com uma mão amparando a cabeça e olhar petrificado lambendo tristemente o chão. Súbito, um fio de sangue escorre pela boca da pobre criatura. A maioria dos transeuntes olha de rabo de olho e passa adiante. Chico Barrão, um petiz curioso e de coração mole, morador da casa defronte onde se desenrola aquela patética cena, vai oferecer uma cristã ajuda. O pobre homem pede ao garoto que se afaste, pois ele é um portador de tuberculose pulmonar, a temível Peste Branca. O inocente, caça avexado no bolso da calça faroeste uma cédula que serviria para comprar um almanaque do Tarzan na banca da esquina e entrega o óbolo, satisfeito, ao doente. O homem, agradecendo, em um pinote se ergue e some rápido no bulício da vida. O pai do garoto, olhando da porta de casa, não teve tempo de advertir o filho incauto. Conhece a soez atitude recorrente daquele adulto. Ele mesmo com uma gilete produzia um corte superficial na língua para promover uma falsa hemoptise. Deste modo alimentava sua família numerosa às custas da piedade e inocência alheias. No cruel embate pela sobrevivência o homem pode se brutalizar a esse ponto.

“ Eu um dia cansado que estava da fome que eu tinha/eu não tinha nada, que fome que eu tinha/que seca danada no meu Ceará/eu peguei e juntei um restinho de coisas que eu tinha/duas calças velhas e uma violinha/e num pau-de-arara toquei para cá/e de noite eu ficava na praia de Copacabana/zanzando na praia de Copacabana/cantando o xaxado para as moças olhar/Virgem Santa! Que a fome era tanta que nem voz eu tinha.../zanzando na praia pra lá e pra cá/foi então que eu resolvi comer gilete.../ tinha um compadre meu lá de Quixeramobim que ganhou um dinheirão/comendo gilete na praia de Copacabana/eu não sei não, mas acho que ele comeu tanta, mas tanta, que quando eu cheguei lá/aquela gente toda estava com indigestão de tanto ver o cabra comer gilete/uma vez eu disse assim para um moço que vinha passando:

“Ô decente, vosmecê não deixa eu comer uma giletezinha para vosmecê ver?/” tu não te manca pau-de-arara?/” só uma, que eu ainda não comi nadinha hoje”/você enche , hem?”/aquilo me deixou tão aperreado que se não fosse o amor que eu tinha na minha violinha/eu tinha arrebentado ela na cabeça daquele...filho de uma égua/puxa vida, não tinha uma vida pior do que a minha/que vida danada que fome que eu tinha/mais fome que eu tinha no meu Ceará/quando eu via toda aquela gente num come-que-come/eu juro que tinha saudade da fome/da fome que eu tinha no meu Ceará/e aí eu pegava e cantava e dançava o xaxado/e só conseguia porque no xaxado/ a gente só pode mesmo se arrastar/ Virgem Santa! A fome era tanta que mais parecia/que mesmo xaxando meu corpo subia/igual se tivesse querendo voar/às vezes a fome era tanta que volta e meia/a gente arrumava uma briguinha/para ver se pegava a boia lá do xadrez/eita quentinho bom no estômago! /com perdão da palavra, a gente devolvia tudo depois/ que a boia já vinha estragada/mas enquanto ela ficava quentinha lá dentro , que felicidade !/não, mas as coisas agora estão melhorando. Tem uma dona lá no Leblon que gosta muito de ver é eu comer caco de vidro/com isso eu já juntei uns quinhentos mil réis / quando juntar um pouco mais, vou-me embora, volto para meu Ceará! /vou voltar para o meu Ceará/porque lá tenho um nome/aqui não sou nada, sou só Zé-com-fome/sou só Pau-de-Arara, nem sei mais cantar/vou picar minha mula/vou antes que tudo arrebente/porque tô achando que o tempo tá quente/pior do que anda não pode ficar”
 
Canção de Carlos Lyra (1939-) e Vinícius de Moraes (1913- 1980)               


quinta-feira, 15 de junho de 2017

                                                                 A PESTE





Acredita-se que o homem não deve olhar de frente nem para a morte nem para o sol. Convém, contudo, ter em mente, sempre, a nua verdade contida num dos livros sapienciais, como o Eclesiastes: “ Há um tempo de nascer e um tempo de morrer”.

Ao longo da história da humanidade vários males pontuaram como verdadeiras tragédias trazendo consigo uma elevada mortandade. É o caso da peste, também conhecida como peste negra, peste bubônica ou peste pneumônica, uma séria moléstia causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida pela picada da pulga de roedores (Rattus rattus).

A peste bubônica é a forma mais comum da doença (90% dos casos). Os sintomas aparecem em cerca de 2 a 6 dias após a picada de uma pulga, com um quadro de febre elevada, dor de cabeça e diminuição do apetite. Em seguida os gânglios linfáticos aparecem intumescidos e dolorosos (bubões) podendo progredir a um abscesso. Outras formas, ditas septicêmica e pneumônica são menos frequentes. O diagnóstico pode ser feito através de exame de sangue, escarro ou proveniente de material extraído do bubão. No tratamento farmacológico utilizam-se antibióticos convencionais como estreptomicina, gentamicina, tetraciclina ou doxiciclina. A taxa de sucesso gira em torno de 90%.

Nos dias hodiernos esta doença faz-se pouco comum e a mortalidade em indivíduos afetados pela peste é extremamente baixa por conta da eficácia dos antibióticos empregados, dentre outros fatores.

Faz pouco, a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (Sesa) emitiu um alerta para notificação imediata em caso de peste bubônica, contemplando cerca de 42 municípios, dentre os 184 que compõem a rede estadual. O último caso registrado de peste no Ceará deu-se no ano de 2005, na cidade de Pedra Branca. As áreas que merecem uma maior vigilância são: Chapada do Araripe, Serra de Baturité, Serra do Macaco, Uruburetama, Pedra Branca, e Ibiapaba.

Pelo menos três grandes pandemias de peste bubônica assolaram a humanidade:
 Primeira Pandemia ou Peste de Justiniano: ocorrida em torno dos anos de 541 a 543, durante o reinado de Justiniano I (527- 565) aparecida na Ásia e estendida ao Mediterrâneo. Não se sabe ao certo o número real de vítimas desta catástrofe, conquanto alguns estimem em cerca de 25.000.000 de pessoas.
 Segunda Pandemia ou Peste Negra: teve origem na China e chegou à Europa através de portos da Espanha, França e Itália entre os anos de 1347 e 1348. Em certas localidades chegou a dizimar cerca de 75% da população. Estima-se que entre 25 e 75 milhões de pessoas tenham sido mortas pela peste nessa ocasião, o que representa algo como 1/3 de toda a população da época.

 Giovanni Boccaccio deixou registrado através de uma magistral obra denominada Decameron (do grego antigo, deca=dez, e, hemeron= dias ou jornada) uma história de 100 contos envolvendo sete mulheres e três homens que se abrigam em uma vila isolada de Florença , impingindo fuga da peste negra que afligia a cidade. Segundo uma tradição simbólica, as sete moças representam as Quatro Virtudes Cardinais (Justiça, Prudência, Fortaleza e Temperança) e as Três Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade). Os três homens representam a Divisão da Alma em Partes (Ira, Razão e Luxúria).

Terceira Pandemia: Teve origem na China, em Yunnan, em 1891, onde em poucos meses, causou 180.000 mortes em Cantão e Hong Kong. Nesta ocasião o cientista Alexandre Yersin descobriu o bacilo causador da peste, denominado Yersinia pestis, em sua homenagem. O tratamento, contudo, só viria a acontecer com a utilização de antibióticos por volta da segunda metade do século XX.

O escritor e filósofo existencialista argelino Albert Camus (1913- 1960) escreveu em 1947 um livro A Peste que conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a um surto de peste bubônica ocorrida na cidade de Oran na Argélia.

“ No Ceará, as populações, historicamente, sempre foram submetidas a condições sociais extremamente precárias. O homem, nesta situação, fica submetido, sem proteção alguma, a elementos adversos, sem as mínimas condições de defesa. Prova disso são as grandes tragédias que tornam a história do Ceará marcada por repetidas situações de seca- fome- miséria- epidemia – sofrimento - e dor” (José Policarpo Barbosa, História da Saúde Pública do Ceará, 1994).

Na história de doenças que visitaram, vez por outra, o sofrido chão cearense, desde o período colonial, constam os males seguintes: varíola, sarampo, malária, sífilis, hanseníase, tuberculose, disenteria, tifo, cólera e peste bubônica. Tomara que a peste bubônica citada neste alerta da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, passe ao largo poupando vidas, evitando agravos à saúde da população e entrando no rol das mazelas, definitivamente, extintas de nossos arraiais.







quarta-feira, 14 de junho de 2017

UMA FÁBULA SOBRE CORVOS E UM BRUCUTU


Um colegiado de corvos foi instalado com fins de julgar um parvo brucutu por supostos distúrbios de comportamento, não condizentes com as leis de um certo burgo perdido nos confins do mundo. A despeito de um rosário de provas contra o tal brucutu, comprometedores à beça, o veredito foi dado a favor do brucutu, inocentado, assim, por excesso de provas. Ridículo!

Opa! Os termos “à beça”, “ à bessa”, “ Abessa”, são citados de diversas maneiras por vários filólogos. O cearense e acadêmico Raimundo Magalhães Junior (1907- 1981) no Dicionário de Provérbios, Locuções, Curiosidades Verbais, Frases Feitas, Etimologias Pitorescas e Citações (1974), nas páginas 10 e 11 explica desse modo:

“À bessa” representa o mesmo que abundantemente, com fartura, de maneira copiosa. A origem do dito é atribuída às qualidades de argumentador do jurista alagoano Gumercindo Bessa (1859- 1913), advogado dos acreanos que não queriam que o território do Acre fosse incorporado ao Estado do Amazonas... Gumercindo apresentara argumentos tão esmagadores e tão numerosos, que logo se tornou figura respeitada nos meios forenses. Conta-se que certa vez um cidadão procurou o Presidente Rodrigues Alves para pleitear determinados favores e com a tal eloquência expôs suas ideias que o ilustre estadista teria observado: - O senhor tem argumento à Bessa... Com o tempo a maiúscula de Bessa desapareceu”

O certo é que o resultado do julgamento do brucutu em pauta, trouxe um mundo de incertezas e quase” ninguém entendeu patavina”

Opa! De onde vem a palavra “patavina”? Segundo Deonísio Silva em seu livro “ A Vida íntima das Frases “ na página 151, patavina origina-se de Padova nome dado àqueles nascidos em Pádua, em latim, pataviua, logo transformado em patavina que significa não entender nada.
No final, o tal imbróglio deste inusitado julgamento pode terminar como” um tiro que saiu pela culatra”

Opa! Culatra vem de parte posterior da arma (cullata): um tiro para trás, ou contra a própria pessoa, ou seja, no próprio brucutu da história.

As coisas andam feias nestas ignotas terras e povo precisa entender “ tintim por tintim” o que está a ocorrer.

Opa! Tintim significa o tilintar de moedas. Tintim por tintim: explicar detalhadamente. Na fábula acima descrita, o som característico de moedas se chocando foi algo medonho.

“ Causa finita est”