sábado, 3 de janeiro de 2015

A Filosofia presente na Música Popular Brasileira


A filosofia -o  amor à sabedoria- com suas  indagações  básicas  como,  “de onde vim, quem sou  e  para onde vou“ permeia tam bém  o mundo mágico da música popular brasileira. Não o filosofar acadêmico carregado de “ismos“, do tipo  existencialismo, empirismo e outros que tais, mas as ditas  coisas simples do nosso  rico cotidiano. É o saber em estado bruto, de pessoas humildes, a maioria sem vivência acadêmica formal, com passagens marcantes, penas   nos bancos das escolas da vida (poetas do morro). Claro que o enfeite do bolo faz–se com aqueles menestréis   filhos  do saber acadêmico (poetas do asfalto) . Uns e outros,  dois rios caudalosos  misturando suas águas em busca do mesmo mar da cultura.

Filosofia (Noel Rosa):
“ O mundo me condena, e ninguém tem pena / falando sempre mal do meu nome / deixando de saber se eu vou morrer de sede/ ou se vou morrer de fome / mas a filosofia hoje me auxilia/ a viver indiferente assim/ nesta prontidão sem fim/ vou fingindo que sou rico / pra ninguém zombar de mim / não me incomodo que você me diga / que a sociedade é minha inimiga / pois cantando neste mundo / vivo escravo do meu  samba , muito embora vagabundo /quanto a você da aristocracia / que tem dinheiro, mas não compra alegria / há de viver  eternamente sendo escravo desta gente/ que cultiva a hipocrisia“ .
Noel Rosa compôs esta música aos 23 anos de idade, em 1933. Sua boa formação intelectual (fora acadêmico de medicina) permitia–lhe fazer voos neste terreno do pensar filosófico, trazendo críticas  ao  modo de vida (boemia), a luta de classes (rico, pobre )  e ao poder da grana (capitalismo), que ergue e destrói coisas belas. Noel portava todos os atributos de  poeta do asfalto e convivia harmoniosamente  com os poetas do morro.
Como uma onda (Nelson Motta e Lulu Santos):
Nada do que foi será/ de novo do jeito que já foi um dia / tudo passa , tudo sempre passará / a vida vem em ondas , como um mar / num indo e vindo infinito / tudo que se vê não é / igual ao que agente viu há um segundo / tudo muda o tempo todo no mundo / não adianta fugir / nem mentir pra si mesmo / agora / há tanta vida lá fora / aqui dentro  sempre / como uma onda no mar .
Os dois autores, filhos da classe média ,  misturando a filosofia Zen com um  “baseado”, surfaram nas ondas da filosofia pré-socrática dos filósofos da natureza  como Heráclito de Éfeso  (540 – 480 a. c.), que falava na mudança eterna, no devir, no indo e vindo infinito.“ Ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio, pois ambos, o rio e a pessoa, são diferentes “.
A noite se repete (Nelson Sargento):
A noite se repete / porque se repete o dia / tristeza só existe / porque existe alegria / a terra é quem dá  a vida para a flor / num coração sincero/ é que desponta um grande amor /por existir a vida / é que a morte impera / por haver gente falsa / é que há gente sincera / se não houvesse mar / não haveria embarcação / se  eu não te amasse / não sofreria ingratidão .
Nelson Sargento, do mesmo modo que seus contemporâneos Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, passearam livremente pelo terreno da filosofia não-acadêmica, mostrando a real poesia popular e da beleza dos contrastes do yin e do yang. Todos os citados são legítimos poetas do morro com escassa educação formal e com rico material poético e filosófico.
Timoneiro (Paulinho da Viola):
Não sou eu quem me navega/ quem me navega é o mar / é ele quem me carrega como nem fosse levar / e quanto mais remo mais rezo / pra nunca mais se acabar / essa viagem que faz / o mar em torno do mar / meu velho um dia falou / com seu jeito de avisar : / olha o mar não tem cabelos  que a gente possa agarrar / timoneiro nunca fui / que eu não sou de velejar / o leme da minha vida / Deus é quem faz governar / e quando alguém me pergunta / como se faz pra nadar / explico que não navego / quem me navega é o mar / a rede do meu destino / parece a de um pescador / quando retorna vazia,  vem carregada de dor / vivo num redemoinho /  Deus bem sabe o que faz / a onda que me carrega / ela mesmo é quem me traz .
Paulinho da Viola é um dos compositores da modernidade, com boa formação intelectual, que mais  inserem imagens filosóficas em seus temas de amor e vida. Sua obra musical forma um rico manual de filosofia. Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, fazem parte deste seleto time  de poetas do asfalto que tornam mais rica a Música Popular brasileira Contemporânea .
Oração ao Tempo (Caetano Veloso) :
És um senhor tão bonito / quanto a cara do meu filho / tempo, tempo ,tempo ,tempo/ vou te fazer um pedido / tempo ,tempo , tempo ,tempo / compositor de destinos /tambor de todos os ritmos / entro num acordo contigo / por seres tão inventivo / e pareceres contínuo / és um dos deuses mais lindos / que sejas ainda mais vivo / no som do meu estribilho / tempo , tempo, tempo ,tempo / ouve bem o que te digo / peço –te o prazer legítimo / e o movimento preciso / quando o tempo for propício/  de modo que o meu espírito / ganhe um brilho definido / e eu espalhe benefícios / o que usaremos pra isso / fica guardado em sigilo / apenas contigo e comigo / e quando eu tiver saído / para fora do teu círculo / não serei nem terás sido / ainda assim acredito / ser possível reunirmo – nos / num outro tipo de vínculo / portanto peço –te aquilo / e te ofereço elogios / nas rimas do meu estilo/ tempo ,tempo , tempo ,tempo .
Caetano Veloso aborda aqu, um dos temas filosóficos mais recorrentes, que é  a beleza e  o enigma  do  tempo. Santo Agostinho de  Hipona (354–430)  dizia: “que é ,pois, o tempo?  Se ninguém me pergunta, eu sei. Se quero explica-lo  a quem me pede, não sei “.  A frase “não serei nem terás sido“, faz referência a  Epicuro (341–270 a. c), filósofo  grego  que defendia: “ porque ter medo da morte ?. Enquanto somos, ela não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser “ .
O assunto ora em pauta -música x filosofia- exige roupa de gala para ser  sorvido  num fim de  tarde, curtindo o sol  bestamente caindo nos braços do oceano, na risca,  lá pras bandas da  Ponte Velha,  na Praia de Iracema  e  com todos os apetrechos necessários (a cabrocha, o luar, a cachaça e o violão)   com vistas a uma libação filosófica  de respeito. Carpe Diem! 
(Texto a 04 mãos, Eleuterio e Roger em momentos de reflexão não etílica)

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