quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A volta de Tristão Gonçalves à antiga Jaguaribara



“ O homem chega , já desfaz a natureza / tira gente , põe represa , diz que tudo vai mudar / o São Francisco lá pra cima da Bahia / diz que dia menos dia vai subir bem devagar / e passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que / dizia que o sertão ia alagar / o sertão vai virar mar , dá no coração / o medo que algum dia o mar também vire sertão / adeus Remanso , Casa Nova , Sentisé / adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir / debaixo d’água lá se vai a vida inteira / por cima da cachoeira o gaiola , vai subir / vai ter barragem no salto do Sobradinho / e o povo vai- se embora com medo de se afogar / o sertão vai virar mar / dá no coração , medo que algum dia / o mar também vire sertão ./ Sá e Guarabyra .

   O beato cearense Antônio Vicente Mendes Maciel (1830 – 1897), natural de Quixeramobim, o dito Antônio Conselheiro, foi chacinado junto com o seus seguidores nos sertões da Bahia por forças do Governo Federal na desigual Guerra de Canudos (1896 – 1897). É dele a profecia de que um dia o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Um mundo de ponta – cabeça parecido como o que hoje vivemos. Os compositores Sá e Guarabira na música “ Sobradinho “ põem luzes sobre a intervenção do homem no Rio São Francisco , o nosso sofrido e “ Velho Chico“ ao criar represas com os mais diversos fins, mas nem sempre muito salutares.
No Ceará, Demócrito Rocha (1888 – 1943), um baiano de Caravelas, mas cearense de coração , aqui aportou e produziu seus textos literários em periódicos modernistas como o poema “ O Rio Jaguaribe “ mostrando sua preocupação com o problema hidrológico da região :

“ O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta / por onde escorre e se perde / o sangue do Ceará / o mar não se tinge de vermelho / porque o sangue do Ceará é azul ... / todo plasma / toda essa hemoglobina / na sístole dos invernos / vai perder- se no mar / Há milênios ... desde que se rompeu a túnica das rochas / na explosão dos cataclismos / ou na erosão secular do calcário/ do gnaisse / do quartzo / da sílica natural / e a ruptura dos aneurismas dos açudes... / quanto tempo perdido ! / e o pobre doente – o Ceará – anemiado / esquelético , pedinte e desnutrido - / a vasta rede capilar a queimar – se na soalheira / - é o gigante com a artéria aberta / resistindo e morrendo / resistindo e morrendo /resistindo e morrendo / morrendo e resistindo .../ ( foi a espada de um Deus que te feriu a carótida / a ti – Fênix do Brasil ) / ( e o teu cérebro ainda pensa / e o teu coração ainda pulsa / e o teu pulmão ainda respira / e o teu braço ainda constrói / e o teu pé ainda emigra / e ainda povoa .../ as células mirradas do Ceará / quando o céu lhe dá a injeção de soro dos aguaceiros / - as células mirradas do Ceará intumescem o protoplasma / ( como os seus capuchos de algodão ) / e nucleiam – se de verde / - é a cromatina dos roçados no sertão / ( ah , se ele alcançasse um coágulo da rocha ! ) / e o sangue a correr / pela artéria do Rio Jaguaribe / o sangue a correr mal que é chegado / aos ventrículos das nascentes / o sangue a correr e ninguém o estanca ... / homens da pátria ouvi : - salvai o Ceará ! / quem é o presidente da República ? / depressa uma pinça hemostática em Orós / homens / - o Ceará está morrendo , está esvaindo – se em sangue .../ ninguém o escuta , ninguém o escuta / e o gigante dobra a cabeça sobre o peito enorme / e o gigante curva os joelhos no pó / da terra calcinada / e – nos últimos arrancos – vai morrendo e resistindo...morrendo e resistindo ... morrendo e resistindo ... 

   Em 1995, no Ceará, secularmente assolado pelo fenômeno periódico das secas, o Governador Tasso Jereissati dá partida na construção do maior reservatório de água doce do estado, o Açude Público Padre Cícero, dito, Castanhão, concluído no ano de 2003 durante o Governo Beni Veras. O reservatório localizado sobre o leito do Rio Jaguaribe tem a barragem no município de Alto Santo e abrange Nova Jaguaribara, Jaguaretama e Jaguaribe. Fica a 250 km de Fortaleza e tem como fins permitir o controle das cheias sazonais do Vale do Jaguaribe, o abastecimento urbano de várias cidades e servir para irrigação e piscicultura. Por volta de 1985, os habitantes de Jaguaribara (que significa moradores do Rio das Onças) receberam as primeiras notícias sobre a construção de um grande açude nas redondezas e o possível desaparecimento da cidade que seria engolida pelas águas, como uma mitológica Atlântida caipira.
   Em 1997 deu-se início a construção de uma nova cidade -Nova Jaguaribara-, concluída em 2001, que se tornou o primeiro município do Ceará totalmente planejado. “O homem chega já desfaz a natureza, tira gente, põe represa “aqui fielmente o verso se cumpriu, com as pessoas deixando seu chão amigo onde guardara o umbigo, indo rumo a uma nova morada feita a compasso, régua e muita insensibilidade. Nem as pessoas, nem os bichos, nem os sentimentos, foram levados devidamente em conta em tamanha e cruel aventura. A ordem era migrar ou morrer afogado naquela seiva que mais dava vida à região. Uma cidade – fantasma ficou a esperar novas almas, que aos poucos chegaram desorientadas e com o coração partido.
   Na antiga Jaguaribara foi demolido tudo aquilo que se encontrava em pé: casas, igrejas, enfim, tudo que aparecesse acima do chão. Deixaram , contudo , em pé um monumento em homenagem ao épico cearense Tristão Gonçalves de Alencar (1789 – 1825), importante figura da Revolução Pernambucana (1817) e da Confederação do Equador (1824) que foi imolado em combate, segundo dizem por Venceslau Alves de Almeida , a mando de José Leão da Cunha Pereira em 30 de outubro de 1825.
Desde 2013 , o Açude Castanhão por conta da estiagem prolongada, tem deixado a mostra uma longa chaga no peito -os restos da antiga cidade de Jaguaribara- emergindo do chão esturrado, feito visagem, como os postes da rede elétrica , casas e o que sobrou do monumento ao bravo Tristão Gonçalves.
   Um dos antigos moradores que primeiro visitou as ruínas da cidade foi Matusalém, ali nascido. O do Antigo Testamento viveu 969 anos e morreu no mesmo tempo do Dilúvio. Os cantadores da região já afinam suas violas para mostrar o combate final envolvendo o retorno do bravo Tristão Gonçalves, agora de braços dados com o taumaturgo Antônio Conselheiro, contra os “macacos do governo“, uma vez mais a defender sua pobre gente dos desmandos dos poderosos. Queira Deus que os trovões roncando nos sovacos da serra, sejam em decorrência do arrastar de móveis de São Pedro no céu, anunciando um aguaceiro, e não barulho malfeitor dos bacamartes papo-amarelos, porque senão vai correr sangue novamente nas pradarias do sertão do Ceará, que, assim, irá continuar resistindo e morrendo, morrendo e resistindo! Eita terra e povo sofridos da gota serena, meu Deus!

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