quinta-feira, 25 de maio de 2017

DOIS PARADIGMAS DE PARTEIRAS

Para a Dra. Liduina Rocha





Desde os primórdios da humanidade, a arte de partejar e seus cuidados estiveram nas benditas mãos de mulheres conhecidas popularmente como curiosas, aparadeiras, comadres ou parteiras leigas. As primeiras parteiras submetidas a um curso regular com conteúdo teórico e prático, no Brasil, eram oriundas de outros países, como Portugal e França. Cabe lembrar que a implantação das primeiras escolas de Medicina no Brasil ocorreu no ano de 1808, nos Estados da Bahia e do Rio de Janeiro. Em 1832 através de uma reforma aprovada pela Câmara, tais faculdades passaram a expedir títulos de Medicina, Farmácia e de Parteiras. Marie Josephine Mathilde Durocher (1809 –1893), francesa de nascimento, tornou-se a primeira parteira com diploma obtido no Rio de Janeiro.

Marie Josephine nasceu em Paris e com a idade de 7 anos mudou-se para o Brasil após a queda de Napoleão. Veio acompanhada de sua mãe, Anne Durocher. Josephine casou-se com um francês, Pedro David com quem teve dois filhos. Em pouco tempo perdeu a mãe e o marido, este, assassinado.

 Em 1833, Marie Josephine matriculou-se no Curso de Partos na faculdade de medicina do Rio de Janeiro e que foi concluído com brilhantismo. Naturalizou-se brasileira e conhecida agora como Madame Durocher, fez história como uma profissional de escol. 

Ela criou para si uma vestimenta sóbria, diferente e masculinizada: um casaco preto, gravata e cartola. Segundo suas próprias palavras “ eu determinava que o meu exterior deveria inspirar uma moral aos meus pacientes do sexo feminino, dando-lhes confiança e distinguindo a parteira das mulheres comuns, e eu não estava enganada “. Acreditava ela que assim poderia varar as madrugadas cruzando a cidade sem ser importunada e nem confundida com mulheres de outras profissões.

Em 1866, foi nomeada parteira da Casa Imperial. Prestou assistência ao parto da Imperatriz Teresa Cristina por ocasião do nascimento da Princesa Leopoldina, filha de Dom Pedro II. Em 1871, Madame Durocher ingressou na Academia Imperial de Medicina. Faleceu no dia 25 de dezembro de 1893, no Rio de Janeiro.

Ao longo da vida, Madame Durocher realizou cerca de 5000 partos.
Glória Pestana da Ponte e Horta, nasceu na cidade de Porto, em Portugal no ano de 1891. Aportou em terras cearenses com a idade de 6 anos e aqui construiu uma gloriosa profissão de parteira.

 Graduou-se em Obstetrícia em 1916, tornando-se a primeira parteira com diploma no Ceará. Luminares da medicina cearense, da época, confirmaram a aptidão de Dona Glorinha, como amorosamente era chamada, para o exercício de Obstetrícia e Puericultura. A nobre comissão era formada pelos seguintes doutores:

José Marinho de Andrade, Barão de Studart, Manoelito Moreira, Eduardo Salgado, Eduardo Borges Mamede, César Cals de Oliveira, Abdenago Rocha Lima e Carlos da Costa Ribeiro.

No decorrer de sua longa vida profissional, Dona Glorinha tornou-se um patrimônio de toda a sociedade cearense como símbolo de ética e conhecimento. Não ajustava, previamente, honorários com a gestante. Ao findar seu trabalho, aceitava o valor que a parturiente deliberasse. Em muitos casos, nada recebia. Percorria toda a cidade montada no lombo de um cavalo e, posteriormente, em uma charrete. Dona Glorinha nunca praticou um aborto e trouxe ao mundo cerca de 6000 criaturas filhas de Deus.

Faleceu em Fortaleza no ano de 1961, deixando uma enorme saudade. Recebeu o carinho e o eterno agradecimento de toda a comunidade cearense como uma digna profissional de saúde.

Estas duas belas guerreiras, Madame Durocher e Dona Glorinha, fazem parte de um mundo de mulheres, onde, infelizmente, a maioria vive em completo anonimato, mas servem de paradigmas e nos alertam para o real valor da ética e do exercício da compaixão e zelo na arte de cuidar do outro.



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