sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Gonzaguinha e Odaléia: Um amor puro e verdadeiro



“Eu apenas  queria que você soubesse / que aquela alegria ainda está comigo / e que a minha ternura não ficou na estrada / não ficou no tempo presa na poeira / eu apenas queria que você soubesse / que esta menina hoje é uma mulher / e esta mulher é uma menina / que colheu seu fruto ,  flor do seu carinho / eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta / que hoje eu  me gosto muito mais / porque me entendo muito mais também / e que a atitude de recomeçar é todo dia, toda hora / é se respeitar na sua força e fé/ e se olhar bem fundo até o dedão do pé / eu apenas queria que você soubesse / que essa criança brinca nesta roda / e não teme o corte de novas feridas / pois tem a saúde que aprendeu com a vida /eu apenas queria que você soubesse / que aquela alegria ainda está comigo / e que a minha ternura não ficou na estrada / não ficou no tempo presa na poeira /“.

   Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior -Gonzaguinha– (1945–1991) encarou a brabeza do mundo pela vez primeira em 22 de setembro de 1945 no Rio de Janeiro. Seus pais foram, Luiz Gonzaga do Nascimento (O Rei do Baião) e Odaléia Guedes dos Santos (Léia), cantora da noite e uma bela/frágil mulher. Léia havia entrado há pouco tempo na vida de Luiz Gonzaga que a conhecera cantando em bares numa vida livre de colibri e de vivaz boêmia. Grávida, foi dividir o teto com o “Seu “Luiz, e por volta de dois meses depois do parto, Léia abriu um quadro grave de Tuberculose -a peste branca– ceifadora de tantas vidas   naquela época em que quase nada havia a se fazer, em decorrência dos escassos recursos médicos existentes.  O garoto Luizinho   foi prontamente afastado da convivência materna e entregue aos cuidados de um casal amigo da família, Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e Xavier (Henrique Xavier) que morava no Morro de São Carlos no Estácio. O motivo básico alegado seria proteger o menino dum possível contagio de tuberculose. Na idade adulta, Gonzaguinha iria contrair a dita doença, que foi prontamente tratada sem maiores consequências.    Com os pais adotivos o garoto desfrutou de uma infância humilde, mas, de gozosa e plena liberdade. Luiz Gonzaga, o pai, sempre distante, seguia sua vida peregrina cantando (“minha vida é cantar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz “) em tudo que era lugar, desde carroceria de caminhão a teatro chique, deixando a criação do menino Luizinho, literalmente nas mãos de Deus. 
   Odaléia, coitada, partiu   cedo, aos 22 anos, por conta de uma tuberculose galopante, sem reatar qualquer contato com o pobre filho.  O pouco tempo de afeto mútuo de Gonzaguinha e Léia, ou seja, os nove meses de gravidez e os dois meses do puerpério foram o suficiente para marcar a ferro e fogo um amor genuíno, profundo, duradouro, terno e verdadeiro.  O Rei do Baião seguiu seu fado   casando–se com uma pernambucana, Helena das Neves Cavalcanti, que não aceitou a vinda do menino Gonzaguinha para integrar a nova família. Que pena!  Já na adolescência tentou-se nova reaproximação que mostrou- se tumultuosa com o Moleque Luizinho, como era chamado, não se inserindo naquele ambiente severo e hostil. O jovem bateu pernas por vários colégios internos em busca de conhecimentos formais e, principalmente, de uma almejada paz.  
   Gonzaguinha cursou, sem maior entusiasmo a Faculdade de Ciências Econômicas Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.  Naquele ambiente acadêmico travou conhecimento com importantes e emergentes figuras da MPB como, Ivan Lins, Aldir Blanc e César Costa Filho.  Participou dos famigerados festivais universitários, preparando bala para futuras batalhas contra a censura imposta pelo Regime Militar de 64. Fez companhia a ilustres perseguidos como Chico Buarque (o preferido dos censores), Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré. Gonzaguinha desde cedo mostrava um comportamento arredio, agressivo e difícil que logo a mídia ajudou a propagar apresentando – o como um “cantor – rancor “. Haveria motivos para isso? A vida mostraria que sim, de maneira veemente. Em 1979, o artista lançou pela Gravadora Odeon, o seu mais bem elaborado trabalho “Gonzaguinha da Vida “com músicas como “Não dá mais pra segurar “e “Diga lá, coração“:

“Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder / o que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar / já que o brilho desse  olhar foi traidor / e entregou o que você tentou conter / o que você não quis desabafar e me cortou / chega de temer , chorar , sofrer , sorrir , se dar / e se perder e se achar  e tudo aquilo que é viver / eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim/ como se fosse o sol desvirginando a madrugada /quero sentir a dor dessa manhã/ nascendo , rompendo , rasgando , tomando meu corpo e/ então eu / chorando , sofrendo , gostando , adorando , gritando / feito louca , alucinada e criança / sentindo o meu amor se derramando / não dá mais pra segurar , explode coração“.

“São coisas dessa vida tão cigana / caminhos como a linha dessa mão / vontade de chegar /e olha eu chegando / e vem essa cigarra no meu peito /já querendo ir cantar noutro lugar / diga lá meu coração / da alegria de rever essa menina / e abraça  –lá / e beija –lá / diga lá , meu coração / conte as estórias das pessoas / nas estradas dessa vida / chore esta saudade estrangulada  / fale , sem você não há mais nada /olhe bem nos olhos da morena e veja lá no fundo / a luz daquela primavera / diga lá , meu coração / que ela está dentro em meu peito e bem guardada / que é preciso / mais que nunca / prosseguir / prosseguir“.

   Gonzaguinha amou Ângela que lhe deu dois filhos, Daniel e Fernanda.  Amou a Frenética Sandra que lhe deixou uma filha, Amora. Uma última filha, Mariana, foi fruto de um relacionamento amoroso com Louise Margarete, com quem terminou seus breves dias.

   Uma música dentre tantas outras bem elaboradas, engrandece a figura controversa de Gonzaguinha, um mimoso hino de amor e piedade dirigido a sua sofrida mãe, Odaléia. Uma homenagem que brota do peito de um filho agradecido e que irá sobreviver ao longo do tempo:

“Minha cantora esquecida das noites brasileiras / te amo / compositora esmagada dessas barras brasileiras / te amo / minha heroína doente do peito / minha menina de luta / minha morena catita / ah ! minha preta / furando cartão / cantando nos becos / tossindo nos cantos / o lenço na boca , o sangue / a mão na garganta / a perna já bamba / a força não tanta / a vida tão tonta / eis Odeia em busca de um sonho dourado / vai Odaléia , delírio de um dia / léia retrato guardado no meu quarto / minha Dalva / minha estrela – guia / na fome de amor / na voz estancada/ no ouro da lama / nos humildes enganos / saiba Odaléia pequena / te ouço/ te vivo / te amo“. 

   Um pungente retrato de uma dama da noite, onde em lugares proibidos ela usava “um cartão “para que seus pares pagassem para tirar minutos de dança de salão com ela. Naquele ambiente insalubre ela adquiriu uma tuberculose. Não importa, nisto tudo realça em vários momentos da canção – queixume, o sentimento solto de Gonzaguinha acarinhando sua morena catita, sua estrela – guia, sua pobre mãe: te ouço, te vivo, te amo.  
   Gonzaguinha largou cedo a vida, aos 45 anos de idade, numa estrada chuvosa no interior do Paraná deixando a todos sem entender o motivo daquele reboliço fatídico.  Deste modo foi retomado o encontro de paz e amorosidade de Gonzaguinha e Odaléia, agora de forma perene sem a interferência de ninguém. Que assim seja! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário