
Os destaques musicais do Brasil no ano de 1973 ficaram por conta de:
Pérola Negra, do carioca Luiz Melodia: “Tente passar pelo que estou passando / tente apagar este seu novo engano/ tente me amar pois estou te amando / baby te amo , nem sei se te amo / tente usar a roupa que estou usando / tente esquecer em que ano estamos / arranje algum sangue, escreva num pano / pérola negra ,te amo, te amo /rasgue a camisa , enxugue meu pranto/ como prova de amor mostre teu novo canto / escreva num quadro em palavras gigantes / pérola negra te amo , te amo / tente entender tudo mais sobre o sexo / peça meu livro querendo te empresto /se inteire das coisas sem haver engano / baby te amo , nem sei se te amo“.
Folhas secas, do carioca Nelson Cavaquinho:
“Quando piso em folhas secas / caídas de uma mangueira / penso na minha escola / e nos poetas da minha estação primeira / não sei quantas vezes / subi o morro cantando sempre o sol me queimando/ e assim vou me acabando / quando o tempo avisar / que eu não posso mais cantar / sei que vou sentir saudade ao lado do meu violão / da minha mocidade“.
Ouro de tolo, do baiano Raul Seixas: “Eu devia estar contente / porque eu tenho um emprego / sou um dito cidadão respeitável/ e ganho quatro mil cruzeiros por mês /eu devia agradecer ao Senhor / por ter tido sucesso na vida como artista /eu devia estar feliz / porque consegui comprar um corcel 73 /eu devia estar alegre e satisfeito / por morar em Ipanema /depois de ter passado fome na Cidade Maravilhosa / Ah ! eu devia estar sorrindo / e orgulhoso / por ter finalmente vencido na vida /mas eu acho isso uma grande piada / e um tanto quanto perigosa / eu devia estar contente/ por ter conseguido/ tudo o que eu quis / mas confesso abestalhado / que eu estou decepcionado / porque foi tão fácil conseguir / e agora pergunto “ e daí “ / eu tenho uma porção/ de coisas grandes pra conquistar /e eu não posso ficar aí parado / eu devia estar feliz pelo Senhor /ter me concedido o domingo / pra ir com a família / no Jardim Zoológico / dar pipocas aos macacos / ah! mas que sujeito chato sou eu /que não acha nada engraçado / macaco , praia , carro , jornal , tobogã /eu acho tudo isso um saco / é você olhar no espelho / se sentir um gradessíssimo idiota / saber que é humano / ridículo , limitado/ que só usa dez por cento de sua cabeça animal / e você ainda acredita / que é um doutor , padre ou policial / que está contribuindo com sua parte / para o nosso belo quadro social / eu é que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca escancarada / cheia de dentes / esperando a morte chegar / porque longe das cercas embandeiradas / que separam quintais /no cume calmo / do meu olho que vê / assenta a sombra sonora / de um disco voador /“.
Agostinho dos Santos (1932–1973) veio ao mundo em São Paulo no dia 25 de abril de 1932. Iniciou-se na música como crooner de orquestra,nas rádios Nacional e América. Duas damas nobres da MPB, Ângela Maria e Sílvia Teles o introduziram no meio artístico em ebulição, junto a outros compositores iniciantes como Tom Jobim e Dolores Duran. O filme “Orfeu do Carnaval“ de Marcel Camus, com as músicas “Manhã de Carnaval“ e “A Felicidade“ abriu as portas de uma carreira internacional para Agostinho .
“Manhã , tão bonita manhã / na vida , uma nova canção / cantando só teus olhos // teu riso , tuas mãos / pois há que haver um dia / em que virás / das cordas do meu violão / que só teu amor procurou /vem uma voz/ falar dos beijos perdidos /nos lábios teus / canta o meu coração / alegria voltou / tão feliz a manhã deste amor “ .
“ Tristeza não tem fim, felicidade sim/ a felicidade é como uma pluma / que o vento vai levando pelo ar / voa tão leve / mas tem a vida breve / precisa que haja vento sem parar / a felicidade do pobre parece/ a grande ilusão do carnaval / a gente trabalha o ano inteiro / por um momento de sonho/ pra fazer a fantasia / de rei ou de pirata ou jardineira / e tudo se acabar na quarta-feira / a minha felicidade está sonhando / nos olhos da minha namorada / é como esta noite / passando , passando / em busca da madrugada /falem baixo , por favor / pra que ela acorde alegre como o dia / oferecendo beijos de amor “ .
"Momentos são / iguais aqueles em que eu te amei / palavras são / iguais aquelas que eu te dediquei / eu escrevi , na fria areia / um nome para amar / o mar chegou tudo apagou / palavras leva o mar / teu coração , praia distante / em meu perdido olhar / teu coração mais inconstante / que incerteza do mar / teu castelo de carinhos/ eu nem pude terminar / momentos meus que foram teus / agora é recordar “ .
“Aqueles olhos verdes / translúcidos serenos / parecem dois amenos / pedaços de luar / mas têm a miragem profunda do oceano / e trazem todo o engano / das procelas do mar / aqueles olhos verdes / que inspiram tanta calma / entraram em minh’alma / encheram –na de dor / aqueles olhos tristes / pregaram –me tristeza / deixando – me a crueza / de tão infeliz amor“.
Em 11 de julho de 1973 foi interrompida bruscamente a trajetória de Agostinho dos Santos, aos 41 anos, um cantor de voz maviosa, cheia de falsetes, que passeou pela Bossa Nova e pela música romântica latino-americana. O voo da Varig com destino ao Aeroporto de Orly na França foi brecado por um incêndio feroz iniciado por um cigarro aceso num banheiro, levando à morte 123 pessoas (116 passageiros e 7 tripulantes), incluindo Agostinho dos Santos e o famigerado senador Felinto Muller, que comandou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Governo Getúlio Vargas. O comandante deste voo, Gilberto Araújo da Silva, escapou milagrosamente e morreu em um outro sinistro no Japão em 30 de janeiro de 1979, pilotando um avião–cargueiro da Varig. Até hoje nenhum vestígio de tal aeronave foi encontrado, tornando-se um mistério a mais da aviação mundial.
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