sexta-feira, 3 de novembro de 2017

ADONIRAN BARBOSA NUM RÁPIDO PISCAR D’OLHOS




“ Inez saiu dizendo que ia comprar um pavio pro lampião/ pode me esperar Mané/ que eu já volto já/ acendi o fogão, botei água pra esquentar/e fui pro portão só pra ver Inez chegar/ anoiteceu e ela não voltou/ fui pra rua feito louco pra saber o que aconteceu/ procurei na Central, procurei no Hospital e no Xadrez/ andei a cidade inteira e não encontrei Inez / voltei pra casa triste demais/o que Inez me fez, não se faz/ e no chão bem perto do fogão/ encontrei um papel escrito assim: - pode apagar o fogo Mané que eu não volto mais”

João Rubinato - Adoniran Barbosa – (1910-1982), cantor, compositor, ator e humorista, nasceu em Valinhos, São Paulo, no dia 06 de agosto de 1910. Seus pais, Fernando e Ema Rubinato, eram imigrantes italianos de Veneza. Desde criança exerceu diversas atividades laborais como entregador de marmitas, encanador, serralheiro, mascate e garçom. Encerrou precocemente seus estudos formais e com a idade de 22 anos segue para a capital do estado, São Paulo. Enfrenta vários programas de calouros em rádios buscando um lugar ao sol. Num deles, na Rádio Cruzeiro do Sul, em 1933, vence um concurso cantando um samba de Noel Rosa (1910-1937), “Filosofia”:

“O mundo me condena e ninguém tem pena/falando sempre mal do meu nome/deixando de saber se eu vou morrer de sede/ou se vou morrer de fome/ mas a filosofia hoje me auxilia/ a viver indiferente assim/nessa prontidão sem fim/ vou fingindo que sou rico/pra ninguém zombar de mim/não me incomodo que você me diga/ que a sociedade é minha inimiga/ pois cantando nesse mundo/vivo escravo do meu samba/ muito embora vagabundo/ quanto a você da aristocracia/ que tem dinheiro mas não compra alegria/há de viver eternamente sendo escravo dessa gente/ que cultiva a hipocrisia”

O nome artístico Adoniran, presta homenagem a um amigo de boemia, e o sobrenome Barbosa foi um preito ao cantor Luiz Barbosa. O primeiro sucesso de Adoniran Barbosa deu-se com “Saudosa Maloca” onde o autor utiliza uma linguagem típica de pessoas humildes, evidenciando solecismos, abrangendo uma temática de mudanças ocorridas numa grande cidade e desnudando um forte cunho social. Tal música obteve retumbante sucesso quando foi gravada pelo conjunto paulistano “Demônios da Garoa”, que a partir de então, ficou responsável por boa parte do repertório de Adoniran Barbosa.

“Iracema” constituiu em seguida um novo marco na vida de Adoniran Barbosa:

“Iracema, eu nunca mais, eu te vi/ Iracema, meu grande amor, foi embora.../ chorei, eu chorei de dor porque/ Iracema, meu grande amor foi você/ Iracema, eu sempre dizia/ cuidado ao atravessar essas ruas.../ eu falava, mas você não escutava não/ Iracema você atravessou na contramão/e hoje ela vive lá no céu/ ela vive bem pertinho de Nosso Senhor/ de lembranças guardo somente suas meias/ e seus sapatos/ Iracema , eu perdi o seu retrato”

“– Iracema, faltavam vinte dias para o nosso casamento, que nóis ia se casá... você travessô a rua São João, veio um carro te pega e te pincha no chão... você foi pra assistença . O chofé não teve curpa, Iracema, paciença... paciença”

Daí em diante segue célere a carreira profissional de Adoniran Barbosa diversificada em programas de rádio, televisão e cinema. Aparece o “Samba do Arnesto”, onde Adoniran Barbosa se defende dos puristas: “- falar errado é uma arte, senão vira deboche”.

 Outros sucessos: Trem das Onze; Tiro ao Álvaro; As Mariposas; Apaga o fogo, Mané; Prova de Carinho; Um Samba no Bexiga; Vila Esperança; Bom dia, Tristeza.


“Bom dia, tristeza/ que tarde tristeza/ você veio hoje me ver/já estava ficando até meio triste/ de estar tanto tempo longe de você /se chegue tristeza/ se sente comigo/ aqui nesta mesa de bar/beba no meu copo/ me dê o seu ombro/ que é para eu chorar/ chorar de tristeza/ tristeza de amar”.       Composição Bom dia, Tristeza, em parceria com o magistral Vinicius de Moraes (1913- 1980).

No cinema, Adoniran Barbosa participou como ator em vários filmes: Pif-Paf (1945); Caídos do Céu); A vida é uma gargalhada (1950); O cangaceiro (1953); Esquina da ilusão (1953); Candinho (1954); Mulher de verdade (1954); Os três garimpeiros ( 1954); Carnaval em lá maior (1955 ); A carochinha (1955 ); Pensão da Dona Estela ( 1956); A estrada ( 1956); Bruma seca( 1961); Elas são do baralho (1977).


No dia 23 de novembro de 1982, Adoniran Barbosa embarca no trem do destino para uma viagem sem volta, deixando uma marca inovadora no samba paulistano, integrante da nossa rica Música Popular Brasileira (MPB).









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