sábado, 29 de novembro de 2025

 1968 - Limiar de um Sonho

Como outros acontecimentos históricos, o ano de 1968 , instalou - se avassalador , pegando a todos de surpresa e trazendo em seu bojo , mudanças comportamentais , políticas, sexuais e éticas. Pindorama , desde 1964 encontrava - se sob um severo regime militar implantado através de um Golpe de Estado . A morte do estudante secundarista paraense, Edson Luiz , no dia 28 de março de 1968 , no restaurante universitário " Calabouço " , no Rio de Janeiro, foi o estopim para gigantescas passeatas de protestos contando com cerca de 100.000 cidadãos indignados e acordando de vez o Brasil de norte a sul.
Palavras de ordem eram gritadas pela multidão : " O povo unido jamais será vencido" .
" Nesse luto começa nossa luta " .
Um discurso na Câmara dos Deputados proferido pelo parlamentar Márcio Moreira Alves , levava a inocente proposição de boicote à parada de 7 de setembro, e sugeria que nos bailes em comemoração à Independência , as moçoilas desprezassem o convite dos cadetes para uma dança . A Câmara negou um pedido de punição ao incauto deputado ( 216 votos contra , 141 a favor , e 24 abstenções ). O Alto Comando Militar sob as ordens do Marechal linha - dura Arthur da Costa e Silva , edita o brutal Ato Institucional número 5 , dando início a uma repressão total com intervenção nos estados , cessação de mandatos e suspensão de direitos individuais. De quebra , a truculenta medida promove o fechamento do Congresso , com cassação de 110 deputados estaduais , 163 vereadores, 22 prefeitos , e 4 ministros do Supremo Tribunal Federal . Dentre as milhares de prisões, destaque às figuras de Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda , e o Marechal Henrique Teixeira Lott.
O Trigésimo Congresso Nacional da UNE realizado clandestinamente em Ibiúna, em São Paulo , tem como epílogo a prisão de 700 rapazes e moças. Na bucólica Forteleza de Nossa Senhora de Assunção, distante do caldeirão de Rio - São Paulo, um grupo de 148 estudantes de medicina da Universidade Federal do Ceará, tomam as primeiras aulas . de " professores " , alunos mais adiantados no curso médico. Eles programavam as famigeradas passeatas - relâmpago em logradouros como as Praças do Ferreira e José de Alencar . Os protestos terminavam , quase sempre, apenas em sustos e correrias, sem feridos ou prisões.
O melhor estava guardado para quando a noite cobria com seu manto a cidade , onde a galera migrava para a incipiente Avenida Beira - Mar, em busca do Bar do Anísio , frequentado por artistas da terra ainda em busca da fama ( Belchior, Ednardo , Fausto Nilo, Fagner , dentre outros ) .Muitos jovens seguiam rumo ao vizinho bairro do Farol , com as suas " ruas da frente e detrás " pejadas de bares e cabarés, como o famigerado " Forró da Bala " . Naquele exótico laboratório social a céu aberto, esporadicamente , dava - se de cara com algumas figuras de mestres da faculdade, o que nos causava a um só tempo , espanto e admiração.
Para nós que integramos a Turma 21 da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará ( 1973 ) , que iniciamos nossa jornada naquele sabático ano , 1968 , não foi " um ano que não terminou ", e sim o marco - zero de nossa vida acadêmica de futuros filhos de Hipócrates, que há mais de meio século ainda seguimos pelejando pelos árduos caminhos da vida , cientes de que fomos bafejados pela sorte e , por isso , agradecemos a Deus por esta dádiva. Enfim , emergimos íntegros.
" Na Beira - Mar , entre luzes que lhe escondem / só sorrisos me respondem/ que eu me perco de você/ que eu me perco de você/ você não viu a lua cheia que eu guardei / a lua cheia que eu esperei/ você nem viu/ você nem viu / viva o som , velocidade/ forte praia minha cidade / só o meu grito nega aos quatro ventos / a verdade que eu não quero ver / e o seu gosto que ficando em minha boca / vai calando a voz já rouca / sem mais nada pra dizer / sem mais nada pra dizer/ e eu fugindo de você/ outra vez me desculpando/ é a vida, é a vida / simplesmente e nada mais/ e um gosto de você que foi ficando / e a noite enfim findando/ igual a todas as demais/ e nada mais e nada mais / meu amor na Beira- Mar / entre luzes se escondem/ só sorrisos me respondem/ e nada mais e nada mais/".
Canção " Beira - Mar , da autoria de Ednardo .
Esculápio, o deus da Medicina | Centro Cultural da Saúde

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