terça-feira, 13 de outubro de 2026

 Um encontro com Fernando Pessoa

O fim de ano já anda batendo de leve em meu ombro com o seu bafio morno e pleno de intempéries. Retiro de minha surrada mochila às costas , incompreensões, queixumes , de um aziago ano de 2026 . Desejo no momento , somente , dois dedos de prosa ou poesia , com um mago lusitano , para aliviar a alma .
Segue " Li hoje quase duas páginas " , um poema de Fernando Pessoa ( 1888 - 1935 ) :
" Li quase duas páginas
Do livro de um poeta místico ,
E ri como quem tem chorado muito .
Os poetas místicos são filósofos doentes ,
E os filósofos são homens doidos .
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar .
Mas flores , se sentissem , não eram flores ,
Eram gente ;
E se as pedras tivessem alma , eram coisas vivas , não eram pedras ;
E se os rios tivessem êxtases ao luar ,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios ,
Para falar dos sentimentos deles .
Falar da alma das pedras , das flores , dos rios ,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos .
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores .
Por mim , escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente ,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora ;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro ;
Senão não era a Natureza " .
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