O Inverno Chegando no Ceará
São Pedro acordou nesta manhã plúmbea na Bela Desposada do Sol , trabalhando pesado. Carrancudo, arrastando móveis e mexendo nervoso , nas luzes celestes num pisca- pisca de pirilampos . Lágrimas benditas escoando das nuvens , clamando para que eu , novamente , busque nos braços de minha longínqua infância, um banho de bica na Praça Rogério Fróes . Tempo para soltar meu veleiro de papel que segue bamboleando na coxia , murmurando cânticos d'águas , rumo ao seu fadário .
" Os que nascemos no bochorno cearense aprendemos a amar- te o cântico, ó mãe das searas fecundas e dos lares bonançosos. Refrigério das estradas combustas e das rechãs estioladas. Embrião da alegria e da paz. Unção misericordiosa do Ceará. És uma romanza de amor. O Solo, o Solo cearense, que a canícula estorrica e inflama, é teu enamorado eterno. Quanto mais foges, mais ele te deseja e mais arde, mais se calcina e mais se enferniza, no desespero de tua ausência.
Estala na sede de teu beijo. Combure- se tantalizado. Anseia por ti, chispa revérberos de ódio, porque o fogo de suas entranhas exige o sedativo de teu bálsamo, a maciez do teu afago, a pianíssima ternura glacial de tuas gotas. E, - pobre enamorado - repulsa de sobre os últimos lampejos da vida. E transforma sua face num lutuoso painel de catacumbas. Mas, quando vens, e desce, noiva simbólica, tamborilando o rumor de tuas bátegas, o Solo recebe a carícia dos teus ósculos. Embebe - os , sôfrego . Transfigura - se . E opera- se , neste encontro, o milagre sempiterno do amor. Do Amor que dá entusiasmo e dá frutos. Do Amor que perpetua, na face da terra, o FIAT genesíaco da criação. A natureza, nesse encontro, representa o grande tálamo nupcial- teu e do solo...
Renova, todos os anos, ó Chuva, esse milagre bíblico do amor ...
Apieda - te do nosso Solo, que , quanto mais foges , mais se contorce e mais arde, mais se estiola e calcina , mais definha e mais se enfermiza, desesperado e trágico, na sede infinita do teu beijo .
Volta , de novo, ó Chuva, sobretudo agora, e faze reacender - se em nossos lares o círio votivo da esperança " .
Oração Á Chuva : excertos da mimosa crônica de João Perboyre e Silva ( 1905 - 1965 ) , membro da Academia Cearense de Letras, e presidente da Associação Cearense de Imprensa .
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