segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Livro


Para o bibliófilo e mestre Eurípedes Chaves Jr.

Michel de Montaigne (1533-1592) em seus clássicos "Ensaios " fez uma comparação entre os três gêneros de convivência: "as mulheres belas e honestas; as amizades raras e refinadas; e por fim , os livros", que considera mais proveitosos e salutares que as duas ligações :
"Esses dois relacionamentos ( o amor e a amizade) são fortuitos e dependentes de outrem. Um é difícil por sua raridade, o outro murcha com a idade; ambos não atenderam suficientemente às necessidades de minha vida. O dos livros, é muito mais seguro e mais nosso. Cede aos primeiros as outras vantagens, mas , por sua vez, tem a constância e a facilidade de seu serviço. Este me acompanha em todo meu percurso e me assiste em tudo. Consola-me na velhice e na solidão; alivia-me do peso de uma ociosidade tediosa; desembaraça-me a qualquer momento das companhias que me desagradam ;embota os aguilhões da dor, se não for extrema e dominante. Para distrair-me de uma fantasia importuna, basta recorrer aos livros; eles facilmente me desviam para si e subtraem-na de mim. E, além disso, não se revelam por ver que só os procuro na falta daquelas outras satisfações, mais reais, mais vivas e naturais; recebem-me sempre com a mesma fisionomia"

Os livros são presenças sempre benevolentes, dotadas de equanimidade, ao passo que os amigos e as amantes sofrem variações de humor. 

Em andanças pelos sebos do centro de nossa Bela Desposada do Sol , um aprendiz de pastor de almas, toma contato com ilustres conterrâneos, lado a lado, morando em balouçantes prateleiras. Todos esperam um afago de uma mão amiga. Uns vestidos em roupas pomposas , capa dura; outros mais humildes, em brochuras envelhecidas pelo rigor dos tempos. Como os estimo!
Fica um sincero agradecimento aos mantenedores dos sebos que congregam a confraria dos formadores de nossa rica Literatura Cearense.
 — em  Praia Porto das Dunas.

sexta-feira, 27 de abril de 2018


EXORTAÇÃO AO HOMEM PRÁTICO

AO DR FLORENTINO CARDOSO


“Homem prático, que passas correndo pela rua/contém o passo – que o teu esforço é inútil/olha que eu sigo ao teu lado/calmo, sereno, devagar/com os olhos cheios de paisagens/os ouvidos bêbados de música/e a mente enflorada de sonhos.../vê bem: por mais que te apresses/por mais que avances/nunca me vencerás nesta corrida/bem sei que és forte – mas eu também sou forte!/depois, só há um ponto de partida: a Vida/só existe um ponto de chegada: a Morte/e enfim, sobre o caminho percorrido/tu, homem prático, deixarás apenas/o pó que levantastes do solo/com suas passadas estrepitantes/e eu? Ah! Eu deixarei um pouco de mim mesmo/sobre os cardos/sobre as pedras/para tornar mais suave a caminhada/dos que vierem depois de mim...”

Poema Exortação ao Homem Prático, de autoria do cearense Antônio Filgueiras Lima (1909 – 1965), que faz parte do livro Ritmo Essencial, lançado em 1944.

Faz 13,7 bilhões de anos que irrompeu um ponto de inimaginável densidade, prenhe de energia imensa, como tamanho, trilhões e trilhões de vezes menor que a cabeça de um alfinete, explodindo no Big – Bang (Fred Hoyle, 1949). Aí emergiu o espaço – tempo e suas partículas primordiais, da qual fazemos parte como simples poeiras das estrelas, compostos de hádrions, prótons, nêutrons, pósitrons e antimatéria. Todo o processo evolutivo carrega em seu bojo o caos de onde tudo proveio e grande explosão cuja radiação vibra até hoje por todo o universo. A expansão, a auto -organização, a complexidade, são formas pelas quais o próprio universo domestica o caos. Ordem e desordem, caos e cosmos, criação e destruição.
E o bicho-homem defendendo com unhas e dentes um naco de vida com outros seres viventes, pendurados na superfície da nave - mãe Terra, girando e girando, dando passagem a transformação da lagarta em borboleta.
 Aí mora a beleza da vida, o eterno porvir, a mudança benfazeja!





GATO POR LEBRE

Conta-se que, em certa pensão, sempre se anunciava , no cardápio do almoço, lebre ensopada , pastéis de lebre. E sempre ali havia duas ou três lebres expostas, numa espécie de vitrine. Notaram, porém, os hóspedes que as lebres sempre lá estavam e com frequência viam, no quintal, couros de gato, secando discretamente, ao sol.
Não há dúvida: ali se passava gato por lebre.
Mas há muitos outros modos de passar gato por lebre. Um camponês arranjou para o seu cavalo uns óculos verdes. Na falta de forragem verde, o animal comia folha seca, sem relutância.
É também passar gato por lebre defender a pátria com palavras, dilapidando--lhe o tesouro; proclamar a liberdade de consciência e condenar a crença católica; enriquecer-se, propagando a necessidade da propriedade em comum, ou de repartição de bens; fazer-se passar por homem de bem, enquanto, às ocultas, só se merecem censuras da própria consciência.

Crônica de A. A. Lustosa ( 1886- 1974) , Arcebispo - emérito de Fortaleza , que integra o livro Respingando, lançado no ano de 1958.

Hoje , 60 anos passados, no Brasil , relativo aos três poderes da nação, muito malandro vende gato por lebre com a maior cara de pau do mundo.
Acorda, Brasil, senão o bicho pega !

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Um alpendre , uma rede, um açude
Para Ricardo Eleutério


"Claro que esses três são apenas os termos essenciais : o alpendre é o abrigo, a rede o repouso , o açude a garantia de água e vida. Mas fora isso, há os complementos- a casa, por exemplo . Fica a cavaleiro do alto é além do alpendre largo de três metros que dê uma boa rede atravessada, tem a sala ladrilhada de tijolos de barro vermelho, com a mesa e os tamboretes; a camarinha com o baú e a outra rede que a gente procura nas horas frias da madrugada; o corredor e a cozinha , com o fogão de terra ao canto, o pilão deitado e a cantareira dos potes bem fresca, posta na correnteza do ar.
À mão direita da casa o roçado - só uma garra de terra com quatro pés de milho e feijão para se ter o que comer verde. O chiqueiro da criação, com a sua dúzia de cabeças, entre cabras é ovelhas. Talvez uma vaca dando leite.
E o açude pequeno e fundo, ali ao pé, tão perto que não seja um esforço apanhar uma cabaça de água ou descer de casa para mergulhar e refrescar o corpo , nas horas de sol mais forte.
Um anzol pequeno de cará, um anzol maior de traíra, talvez uma espingardinha de chumbo para atirar num mergulhão ou numa marreca . O pau de matar cobra, o caco de enxada, o facão, a cuia de tirar leite.
Nada mais. Nem trabalho, nem ambição. Nem algodoal de colheita rica, nem pomar, nem curral cheio de gado fino. Nem baixio plantado de cana , nem engenho, nem alambique. Logo adiante do terreiro batido, o mato cresce por si, sem carecer de plantio nem limpa - Deus o faz nascer em janeiro e o próprio Deus o seca em julho.
Só a paz, o silêncio, a preguiça. O ar fino da manhã, o café ralo, a perspectiva do dia inteiro sem compromisso nem pressa. Vez por outra, um conhecido que chega conta as novidades, bebe um caneco d'água, ganha de novo a estrada.
Qualquer coisa enche a panela e o estômago, que o corpo quando dá pouco , pede pouco.
O esforço maior será mesmo o roçado, que é mister secar ao menos com uma ramada de garrancho espinhento, abrir as covas, plantar ao romper das primeiras chuvas, dar uma ou duas limpas de enxada antes de apanhar o feijão e quebrar o milho. Assim mesmo, se se atirar aqui e além umas sementes de melão, jerimum ou cabaça, a rama alastra entre as covas do legume e não deixa o mato crescer.
No mês janeiro rebenta verdinha a babugem do chão e as galinhas-d'angola semi-selvagens que moram no juazeiro do quintal começam a tirar suas ninhadas. Com o crescer das águas cresce o pasto, as cabras, as cabras e a vaca dão cria. Se o ano for de bom inverno, talvez então o açude sangre, e o peixe sobe em cardume pela cachoeirinha do sangradouro, tanto é tão desnorteado que até se pega com a mão. No mês de maio as moitas de mofumbo se abrem todas em flores amarelas e enchem o ar com seu cheiro doce de mimosa; em maio, também devem estar em flor as aguapés na tona do açude.
Em junho se quebra o milho e em julho é a floração dos pau-d'arcos; quase no mesmo tempo começa a murchar a rama. Em agosto o mato perde a folha, que em setembro já forma um tapete quebradiço e ininterrupto no chão.
Daí por diante, com a caatinga seca, o mato cor-de-cinza na terra cor-de-cinza, por baixo do sol limpo e azul, começa a grande paz do verão. Os bichos pastam o capim seco e vêm beber pacificamente, sempre no mesmo lugar e a horas certas. A rede do alpendre balança e refresca na hora do mormaço e recebe a gente no colo, maternalmente.
E embora aconteça que o verão se prolongue janeiro afora, não venha chuva, e o ano for péssimo - para isso mesmo ali está o açude com água para três anos. Ali estão os juazeiro, o pé de mandacaru para de tarde se dar rama à vaquinha e ao garrote. As cabras deixe estar que elas cuidam de si - as ovelhas é que talvez morram - mas que falta faz uma ovelha ?
O chão não se acaba - e afinal de contas só do chão precisa o homem - para sobre ele andar enquanto vivo, e no seu seio repousar, depois de morto "
Crônica da cearense Rachel de Queiroz ( 1910-2003) escrita em 23/8/1947.
NO CEARÁ É ASSIM


Para o Dr. João Brito



A história do Ceará é um poema de dores, porque a vida dos cearenses é um martírio de três séculos. Martírio imenso que se adensa na assombrosa desgraça dos tempos calamitosos, e se condensa na superlativa intensidade dos maiores sofrimentos físicos e morais.
Mas depois do poema de amor, vem a dor, vem o poema da glória, depois das angústias do sofrimento, a epopéia da liberdade, depois da palavra do martírio, a consagração do heroísmo.

A glória do povo cearense é cair como mártir e levantar-se como herói.
Somos um pugilo de gigantes num imenso País de Bravos, proclamando aos quatro ventos o brado triunfal dos heróis:

-"Sou pobre , mas só quero luz; sou pequeno, mas só fito as alturas; nasci para a luta, mas vivo para a glória - a imortalidade é minha."
Na constelação fulgurante dos Estados Unidos do Brasil podem existir, e existem realmente, Estados mais poderosos, mais opulentos, de tradições mais pomposas, de vida mais brilhante e de história mais vezes secular. 


Nenhum, porém, conheço eu , mais fidalgo , nem mais heróico, de tradições mais comoventes, de vida mais intensa nem de histórias gloriosas, que o nosso querido Ceará:
Padre Valdevino Nogueira .

Desata-te das amarras que , atualmente , te prendem , meu querido torrão, os teus filhos de verdade te clamam !

Nascer no Ceará é uma predestinação:

É o sofrimento que faz do cearense um herói. Fugindo à terra-mãe, que torna madrasta, e do céu cativo , que torna de bronze, aonde chega e se instala, se impõe e vence, em qualquer mister em que empregue a sua atividade.
Nascer no Ceará é uma predestinação. Pela fé, de joelhos, vive o cearense, de pé, pelo heroísmo, enfrenta o destino:
Monsenhor Quinderé.

Padre Valdevino Nogueira e Monsenhor Quinderé, dois grandes filhos do Ceará, estão presentes no livro "O Ceará é Assim" da autoria de Filgueira Lima (1915-1994) , um grande educador cearense (1976).
— em  Porto Das Dunas.

quinta-feira, 19 de abril de 2018


O MUNDO, NOVAMENTE, EM COMPASSO DE ESPERA


“O mundo hoje está suspenso por um fio, e essa é a psique do homem... Não é a realidade da bomba de hidrogênio que devemos temer, mas o que o homem fará com ela. Todo o futuro, toda a história do mundo, é em última instância uma gigantesca síntese dessas fontes ocultas nos indivíduos. Em nossa vida privada e subjetiva não somos apenas testemunhas passivas de nossa época e suas vítimas, mas também seus criadores. Nós construímos nossa época.

Como no início da era cristã, estamos novamente enfrentando o problema do atraso moral que não conseguiu manter o ritmo de nosso progresso científico, técnico e social... Tudo agora depende do homem. Um imenso poder de destruição está em suas mãos, e a questão é saber se ele pode resistir à vontade de usá-lo e dosar essa vontade com o espírito do amor e da sabedoria. Dificilmente ele será capaz de fazer isso com seus próprios recursos. Precisa da ajuda de um “advogado” do céu”

Palavras de Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra, um curador ferido de almas, em seus últimos anos de vida terrena diante dos acontecimentos como a dominação soviética da Hungria, a crise de Suez e a invasão chinesa do Tibete.

Hoje, meio século depois, o homem, lobo do homem, deixa o mundo, novamente, com o fôlego retido, sob o tacão de estranhos senhores que representam algumas potências militares. É o futuro da humanidade ao alcance de um patético botão numa mesa de comando.

O pacifista Carl Jung, assim se expressou numa carta, já perto de sua partida definitiva:

“Todas as riquezas que pareço possuir são também minha pobreza, minha solidão no mundo. Quanto mais pareço possuir, mais continuo perdendo, agora que estou pronto para me aproximar da porta escura. Na vida, não procurei fracassos nem conquistas. Tudo que veio a mim com uma força que não era minha. Tudo o que adquiri serve a um propósito que não previ. Tudo tinha que me ser tirado e nada permanece meu. Não é fácil chegar à máxima pobreza e simplicidade. Mas ela nos encontra, espontaneamente, a caminho do fim da existência”




ANATOMIA DA MELANCOLIA HOJE NO BRASIL


“O homem é a mais excelsa e nobre das criaturas do mundo, a mais potente obra de Deus, a maravilha das maravilhas, ao dizer de Platão. É um microcosmo, um diminuto mundo, mas, senhor da Terra e vice-rei do mundo, amo e governante de todos os seres que povoam a terra, que lhe emprestam obediência. Ao princípio tem sido puro, divino, perfeita obra de Deus em verdadeira santidade e justiça.

Esta criatura, porém, a mais nobre de todas, decai de tal modo que degenera convertendo-se em um homúnculo miserável, um náufrago e ruim sujeito, inferior ao menor dos animais “

Excerto da obra “ Anatomia da Melancolia” escrita por Robert Burton (1576- 1639) no ano de 1621 e que até hoje mantém-se prenhe de verdades, caindo como luva nesse gigante de joelhos sobre a terra, o Brasil, versão 2018, sem rumo, a beira de um abissal despenhadeiro, assistindo, bovinamente,  severos senhores togados, em franca degenerescência, perfilados com execráveis malfeitores de colarinho branco, berrando um falso saber e exibindo um poder monocrático. Já dá para se ouvir as trombetas do Apocalipse. Acorda, gigante, da mortal letargia, pois amanhã será tarde demais.
Robert Burton (1576- 1539) nasceu em Lindley, Inglaterra no dia 08 de fevereiro de 1576 e faleceu em 1639. Escreveu “ Anatomia da Melancolia “ em 1621, logo convertido num clássico. O autor é nomeado como “ Montaigne inglês” e influiu em figuras como, Milton, Sterne e Byron.