sábado, 5 de setembro de 2026

 Marchinhas Políticas Antigas de Carnaval

Desde o ponta - pé inicial promovido pela maestrina Chiquinha Gonzaga ( 1847 - 1935 ), com " Ó Abre Alas " em 1899 , músicas são elaboradas , especificamente, para o período carnavalesco . A motivação política se insere como o mais excitante chamariz .
" Lá vem o cordão dos puxa - sacos / dando vividas aos americanos / quem está na frente é passado pra trás/ e o cordão dos puxa - sacos / cada vez aumenta mais /Vossa Excelência/ Vossa Eminência/ quanta reverência nos cordões eleitorais / mas se o " Doutor " cai do galho e vai ao chão/ a turma toda evolui de opinião/ e o cordão dos puxa - sacos cada vez aumenta mais " .
Em Fortaleza está música era cantada, à época, com outra letra fazendo menção às garotas que namoravam com os gringos da Vila Morena , na Praia de Iracema : " Lá vem o Cordão das Coca - Colas dando vivas aos americanos ..." . Coisas do Ceará - Moleque .
A seguinte manchinha , " Maria Candelária " representa um tipo sempre presente na dadivosa vida pública brasileira:
" Maria Candelária/ é alta funcionária/ saltou de paraquedas / caiu na letra " O " , oh , oh , oh , oh / começa ao meio - dia / coitada da Maria/ trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó , oh , oh , oh , oh / à uma vai ao dentista/ às duas vai ao café/ às três vai à modista/ às quatro assina o ponto e dá no pé/ que grande vigarista que ela é " .
A marchinha seguinte era uma preparação para o retorno triunfal do " Pai dos Pobres " , Getúlio Vargas ( 1883 - 1954 ) , carismático líder populista que " saiu da vida para entrar na história " .
" Bota o retrato do velho outra vez / bota no mesmo lugar/ o sorriso do velhinho/ faz a gente trabalhar / eu , já botei o meu/ e tu, não vai botar ? / já enfeitei o meu / e tu vais enfeitar ? / o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar " .
A próxima marchinha contempla o enigmático " Salvador da Pátria " , Janio Quadros ( 1917 - 1992 ) que se elegeu Presidente da República em 3 de outubro de 1960 , assumindo o cargo em 31 de janeiro de 1961 , tendo como vice João Goulart ( 1919 - 1976 ) . Durou pouco tempo o mandato de Janio ( 27 de agosto de 1961) que deixou o país a ver navios .
" Varre , varre , varre , varre vassourinha/ varre , varre a bandalheira! / que o povo já tá cansado / de sofrer desta maneira / Jánio Quadros é a esperança desse povo abandonado ! / Jânio Quadros é a certeza ds um Brasil, moralizado ! / alerta , meu irmão! / vassoura, conterrâneo! / vamos venxer com Jânio! " .
E agora estamos em 2026 , cansados , desiludidos , próximo a um abismo , igual a " Cantiga da Perua " , mas com um mundo de motivos para banhar este país com manchinhas carnavalescas:
" Meu latim com você não gasto mais / está tudo acabado, aqui jaz / nosso amor virou rancor / não me escreva nunca mais / guarde bem sua cartinha / eu não vou ficar sozinha / pra sempre eu seria amada / e você meu ex - amor será motivo de piada " .
Comenta - se que a ressaca deste ano ficará para a história, semelhante àquele do famigerado " Baile da Ilha Fiscal " .
" É de pior a pior , é de pior a pior, a cantiga da perua é uma só ! . Andam dizendo que o progresso vai chegar , a coisa vai melhorar quando o homem for pra lua . Mas a verdade crua é que situação da vida está ficando parecida à cantiga da perua. De tudo isso o que me inquizila é o sujeito entrar na fila pra comprar o que não rem . Vai chegar o tempo que a nossa rapaziada pra falar com a namorada entra na fila também " ( A Cantiga da Perua ) , de autoria de Jackson do Pandeiro ) .
Ponto Final .

domingo, 30 de agosto de 2026

 Poemas da Maturidade : Francisco Carvalho

" Completo hoje cinquenta bolos de vida
O vento da morte sopra onde quer
Que este bolo se repita por muitos anos .
Esta cerveja gelada parece que zomba de mim
Meus deslumbramentos esbarram no limiar renal.
Houve tempo em que me celebrei com sete mentiras de cristal .
Hoje completo cinquenta bolos de vida
As opas vermelhas dos Irmãos do Santíssimo
Sobem vagarosamente a ladeira ensanguentada do Kirie Eleison .
Este bolo e estas velas zombam de mim
O vento da morte sopra onde quer .
Estes velhos retratos me acenam de antigamente mas estou ausente da sala , perdido entre comensais cinquenta bolos de vida não bastam para apagar da memória os mortos de Hiorxima ( os mortos mais recentes ) .
O vento da morte sopra onde quer
A casa onde nasci desabrocham papoulas de arame. As estrelas daquele tempo me foram arrebatados pelo vento a nudez boiava em córregos azuis .
A chuva brinca de ciranda no patamar da igreja matriz.
O vento da morte sopra onde quer
Estes rostos e estas velhas fotografias zombam de mim .
Cinquenta bolos de vida é tudo o que me resta
Dos sonhos que sonhei, dos versos que escrevi .
Cai chuva do algeroz sobre a calva do operoso coletor ".
" Me sinto envelhecer.
As palavras já não são as mesmas
E o gosto de existir está definitivamente mudado .
Está fotografia me assusta .
O rosto que me fita da parede
Não sei se ri de mim, se me detesta .
Me sinto envelhecer.
Como se deslizasse num declive de vento e areia .
Vejo sombras , uma correnteza
De perfis que deságua na noite
Largo estuário da morte .
Meu coração é um búzio onde o mar ressoou
Pela última vez .
Lâmina sutil , a solidão
Corta a carne arrependida ."
" Importa viver com alguma esperança
O minuto nos olhos
E a liberdade nas mãos.
Importa viver com alguma ironia
E a curva do braço
Embalando honestos pensamentos .
Importa viver com a liberdade intacta
E de olhos abertos
Às sete chagas do homem .
Importa viver com algumas palavras
E o gado do mito
Pastando a metáfora. "
Francisco de Oliveira Carvalho , nascido no dia 11.06.1927 , em Russas - Ceará. Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 26.04. 1996 , ocupando a Cadeira 31 . Faleceu em Fortaleza, no dia 04.03.2013 , aos 85 anos .

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 O Luar no Oceano

" No mar calmo , de tons indefinidos
Onde nada termina ou se inicia ,
Passeio o olhar em todos os sentidos:
Noite não é e nem também é dia .
Nem uma onda a borbulhar d' espumas ,
Nem uma estrela pelo céu acaro;
Nada morre ou desponta em meio às brumas:
O espaço não é negro nem é claro .
Albatrozes de gritos escarninhos ,
Gaivotas irrequietas, num momento,
Tudo fugiu aos pélagos marinhos
Cheios de um mórbido aborrecimento .
Rumor algum percorre o trombadilho,
O bojo , a se mover pausadamente ,
Apenas mostra à flor d'água sem brilho
Os seus flancos de cobre reluzente.
Homens do quarto , ao longo da amurada ,
Fitam, sem crer , a vastidão do mar
De sonolentas vagas onduladas,
Brandamente a descer e a se elevar .
Mas , para Leste , a alvinitente chama ,
Como uma cinza a polvilhar o espaço.
Em trêmulas palhetas se derrama
Da vaga fimbria do horizonte baço.
Boia , treme , desdobra - se , goteja ,
Por toda a parte cai fugindo a toa,
Turbilhona , desmaia , lacrimeja
Como luzente e diáfana garoa .
Áureo disco se mostra, e cresce , cresce ...
Palpita o mar voluptuosamente...
E no céu cor de pérola aparece
A branca lua a deslizar temente. "
" O Luar no Oceano " , poema da autoria de Leconte de Lisle ( 1818 - 1894 ) , poeta francês. Tradução de Antônio Sales ( 1868 - 1940 ) , escritor , poeta , jornalista e político cearense , fundador da Padaria Espiritual, no final do século XIX , e Patrono da Academia Cearense de Letras .

sábado, 22 de agosto de 2026

 Lya Luft : Canção na Plenitude

" Não tenho mais os olhos de menina
Nem corpo adolescente, e a pele
Translúcida há muito se manchou .
Há rugas onde havia sedas , sou uma estrutura
Agrandada pelos anos e o peso dos fardos
Bons ou ruins .
( carreguei muitos com gostos e alguns com rebeldia)
O que te posso dar é mais que tudo
O que perdi : dou - te os meus ganhos .
A maturidade que consegue rir
Quando em outros tempos choraria .
Busca te agradar
Quando antigamente quereria
Apenas ser amada .
Posso dar - te muito mais que beleza
E juventude agora : esses dourados anos
Me ensinaram a amar o melhor , com mais paciência
E não menos ardor , a entender - te
Se precisas , a aguardar - te quando vais ,
E dar - te regaço de amante e colo de amiga ,
E sobretudo força- que vem do aprendizado .
Isso posto te dar : um mar antigo e confiável
Cujas marés - mesmo se fogem - retornam ,
Cujas correntes ocultas não levam destroços
Mas o sonho interminável das sereias " .
Lya Luft ( 1938 - 2021 ) : escritora brasileira , filha de descendentes germânicos, nascido no Rio Grande do Sul. Sua produção literária reúne poesia , ensaio, literatura infantil, crônicas e romances .

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 Alegria de Fortaleza : Yaco Fernandes

Fortaleza
( Cidade aumentativo das lapinhas
Que meus olhos ingênuos de menino
Cobiçavam, gulosos e encantados ,
Nas festas do Natal de Jsus Cristo) :
Canções de sol nas ruas paralelas ,
Onde o vento trauteia barcarolas :
Prazer d'água cantante dos repuxos,
Onde bailam milhares de arco-íris ;
Risadas infantis da passarada ;
A longa sombra das mangueiras calmas
Nos bairros sonolentos e calados
Que meus pés de criança percorreram ;
Quietas recordações de instantes bons ;
Rumores amigos de vidas felizes;
A lua mais bonita que Deus fez ;
Os risos policrômicos das flores ;
A perspectiva azul de teus jardins ;
O verde ornamental sorrir dos benjamins ;
O tranquilo acalento de teu mar ,
- Tal é a tua alegria, Fortaleza.
Alegria de ouvir essas cantigas
De pássaros sonoros e vibrantes
Como outra terra os entendeu jamais ;
Alegria de ver - te refletida ,
Numa felicidade diluída,
Nos olhos sorridentes e emotivos
Dessas maravilhosas raparigas
Que são o molto alegro apaixonado
Dessas praças e ruas muito iguais .
Alegria dos jardins lavados de luz ;
Alegria do céu mais repleto de estrelas;
Alegria das cousas simples e gostosas ;
Alegria dos sinos cantando nas tardes;
Alegria das tristes serenatas;
Alegria da presença constante da beleza ,
- Alegria de Fortaleza .
Cidade mais alegre e mais rica do mundo :
Eu sou mais rico e muito mais alegre ;
Todas as manhãs,
Embriagado do vinho das paisagens,
Olhando os panoramas cristalinos ,
Tenho a impressão de te beijar na boca,
E grito alegre e possessivamente :
Minha Cidade !
Minha Cidade !
Alegria de Fortaleza , da autoria de Yaco Fernandes ( 1914 - 1965 ) , pernambucano , jornalista , poeta , bacharel em Direito , figura de destaque no movimento modernista cearense .

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 Brasil ( Ainda ) Um Imenso Hospital

Miguel da Silva Pereira ( 1871 - 1918 ) , médico brasileiro sanitarista, professor universitário e membro da Academia Nacional de Medicina , no dia 10 de outubro de 1916 proferiu uma vibrante saudação ao Dr. Aloysio de Castro , diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Seguem trechos de sua profética e atual oratória:
" Vivemos tristemente em um país triste . As nossas desditas políticas e as nossas misérias administrativas cedo , apenas conscientes da vida nacional, nos envenenam as fontes de alegria, de onde deveriam haurir reservas de energias físicas e morais indispensáveis à nossa dignidade de povo independente. Nesta atmosfera pesada e ansiosa, deprimente e duvidosa , onde respiram a fôlego curto 25 milhões de brasileiros, foi bastante que ao aceno de um poeta se entreabrissem as cortinas que aos moços patrícios vedavam o olhar para além de seus interesses subalternos, para que vissem aterrados a imagem sagrada da pátria - exposta e sem defesa, imensa e sem grandeza, espoliado e sem justiça, rica e sem crédito , culta e sem escolas , forte e sem armas - miserável e maltrapilha, ela , a mãe augusta e fecunda que na hora tenebrosa do perigo não encontrará para defende - la senão exatamente aqueles que não engordam à custa de sua desgraça...
Na luta pela pátria , todos se acamaradam e emparceiram como diante da morte, que essa luta tantas vezes preludia, todos se nivelam na terra profunda. E bem que se organizem milícias, que se armem legiões, que se cerrem fileiras em torno da bandeira, mas, melhor seria que não se esquecessem neste paroxismo de entusiasmo que fora do Rio ou de São Paulo, capitais mais ou menos saneadas , e de algumas outras cidades em que a previdência superintende a higiene , O BRASIL AINDA É UM IMENSO HOSPITAL. Num impressionante arroubo de oratória já perorou na Câmara ilustre parlamentar que , se fosse de mister , iria ele de na Câmara ilustre parlamentar que, se fosse de mister , iria ele de montanha em montanha , despertar os caboclos desses sertões. Em chegando a tal extremo zelo patriótico uma grande decepção sua generosa e nobre iniciativa. Parte , e parte ponderável, dessa brava gente não se levantaria ; inválidos, exangues ,esgotados pela ancilostomose e pela malária, estropiados e arrasados pela moléstia de Chagas; corroídos pela sífilis e pela hanseniase; devastados pelo alcoolismo; chupados pela fome , ignorantes , abandonados, sem ideal e sem letras ou não poderiam estes tristes deslembrados se erguer da sua modorra ao apelo tonitruante de trombeta guerreira, ressonante de quebrada em quebrada, como espectros , se levantassem, não poderiam compreender porque a Pátria, que lhes negou a esmola do alfabeto, lhes pede agora a vida e nas mãos lhes punha, antes do livro redentor, a arma defensiva " .
Tal mensagem patriótica exarada há exatos 100 anos permanece atual e verdadeira . Hoje a nação brasileira contando com cerca de 203.000.000 de almas continua como um grande e mal gerido hospital , obrigado a conviver com novas e furtivas mazelas: o " cancro da corrupção " ( uma verdadeira besta do Apocalipse) e novas doenças como AIDS, Dengue, Chikungunya e Zika . Esta última a percorrer o território nacional, agora , de norte a sul trazendo consigo inocentes almas afetadas com microcefalia e outros agravos . Distantes estamos de uma solução razoável para tão vergonhoso problema, num país manietado, letárgico, assistindo aos três poderes se digladiarem em torpes pelejas .
Até quando ?
Ver menos

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 João Guimarães Rosa : Em Máximas ao Vento

" Perto de muita água, tudo é feliz "
A água...grita a qualquer pancada que lhe dão "
" Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até à hora da libertação pelo arcano, a além do Lethes, o rio sem memória"
" Deus é paciência. O contrário é o diabo "
" Dinheiro, carinho e reza nunca se despreza "
" Honra é de Deus, não é de homem . De homem é a coragem "
Todo o mundo tem onde cair morto "
" Só as pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas "
A gente morre é para provar que viveu "
" O mundo não dá a ninguém inocência nem garantia "
" O mundo não muda , nunca , de hora em hora piora "
" De sofrer e amar , a gente não se desfaz "
" O correr da vida embrulha tudo , a vida é assim: esquenta e esfria , aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta . O que ela quer dar é coragem "
" A vida não perdoa descuido "
" Viver é negócio muito perigoso "
" Viver sempre vale a pena "
" Quem quer viver , faz mágica "
" A gente pensa que vive por gosto, mas vive é por obrigação "
Pensares de João Guimarães Rosa ( 1908 - 1967 ) . Escritor da Terceira Geração Modernista , médico e diplomata , conhecido pela inovação na linguagem e pela publicação de obras-primas. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963 . Faleceu em 1967 aos 59 anos de idade , vítima de um ataque cardíaco.