Darcy Ribeiro, Um Gênio Caboclo
Darcy Ribeiro ( 1922 - 1997 ) , nasceu na cidade de Montes Claros , uma boca de estrada do sertão nordestino , no Estado de Minas Gerais , em 25 de outubro de 1922 . " Dizem que fui fundado , o que não é verdade , posto que , nasci de parto natural . Cresci , fazendo as bobagens habituais . Moço, quis ser médico e terminei, antropólogo. ".
1922 : Um ano importante para o Brasil, com o advento da Semana da Arte Moderna . Morre o mais brasileiro e sofrido de nossos grandes escritores , Lima Barreto , sorvendo um cálice de parati. Nascimento de Leonel Brizola , político populista, filho de um carreteiro e que chegou ao mundo para azucrinar os militares da República.
Darcy Ribeiro graduou - se no ano de 1946 em Antropologia pela Escola de Sociologia Política de São Paulo , aos 24 anos de idade e logo partiu para estudar os índios do Pantanal , do Brasil Central e da Amazônia ( 1946 - 1956 ) , assessorando o desassombrado Marechal Rondon. Foi o fundador do Museu do Índio e seu diretor por algum tempo, organizando o primeiro curso brasileiro de pós-graduação direcionado a antropólogos . Seduzido pelo educador Anísio Teixeira, construiu firme carreira como educador , reitor e , depois , Ministro de Estado ( 1955 - 1964 ) . " Topou aí com João Goulart ( Jango ) ,que o descaminhou para as tentativas de promover a reforma agrária e conter a ganância das multinacionais. Foi um desastre . Exilado , por conta da Redentora , virou latino - americano e passou muitos anos ( 1964 - 1975 ) remendando universidades no Uruguai, na Venezuela, no Peru e até na Argélia " . Foi fundador na Universidade de Brasília.
Voltou ao Brasil, disposto a cheirar ou feder , conforme o nariz . Em meio a isto tudo lançou vários livros importantes que compõem seus Estudos de Antropologia da Civilização ( O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, O Dilema da América Latina , Os Índios e a Civilização, e Os Brasileiros ) , e alguns romances .
Em 1978 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Sorbonne.
São suas , estas palavras , meio pascalinas :
" Eu ! Sei perfeitamente quem sou eu, que sou . Um ser minúsculo, sei , mortal, de existência brevíssima colocado na calota do universo. Aqui posto, olho as infinitudes que para além de mim , sem fim , se desdobram num universo imenso, eterno . Inútil. Também posso voltar - me para mim, atento às voltas de meus intestinos ou para meu sentimento do mundo. O atrativo mesmo é olhar a meu redor , ver gentes parecidas comigo , sobretudo as de sexo complementar que aí estejam pelejando, conviviveis. Espantosa é a visão, se me exorbito e olho lá pra fora , para esse mundão de grandeza inesgotável, independente de mim, a mim indiferente . Um despautério tanta magnitude fútil, tanta eternidade oca...
O que me comove mesmo é a relação: eu e os mais . Não é uma visão de mim sem eles , nem deles sem mim . É sempre a visão de mim com eles , parte deles ; nós todos nos comunicando com espermas e palavras para nos perpetuarmos e nos entendermos ...
Porque o Brasil não deu certo ? Ainda não deu ? Vai dar ? Como ? Por que caminho ? .
Mudemos de assunto " Marinheiro neste mundo , amor é vento que sopra minhas velas nas travessias . Amando navego por mares calmos e bravios , me sentindo ser e viver .Não posso é viver sem amor , desamado na pasmaceira das calmarias ; parado , bradando de ver o mar da vida marulhar à toa . A sedução intelectual me remedia um pouco. Amor , uma doida já disse : é carne feito espírito. "
Este ser irrequieto, múltiplo, polêmico , e extremamente criativo, travou e venceu inúmeras batalhas pela vida afora : a favor dos índios, pela educação formal , pela reforma agrária e contra a Ditadura. A sua pior e mais perversa contenda durou 20 anos , contra um câncer.
" Eu não tenho medo da morte . A morte é apagar - se , como apagar a luz . Presente , passado e futuro ? Tolice . Não existem . A vida vai construindo e destruindo . O que vai ficando para trás com o passado, é a morte. O que está vivo vai adiante . Detestaria estar no lugar de quem me venceu ! ".
" Termino esta minha vida já exausto de viver , mas quanto mais vida , mais amor , mais saber , mais travessuras " .
Ponto Final !
