sábado, 12 de setembro de 2026

 O Prêmio de Envelhecer

" Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado ,
Sonhos de glórias , ilusões de amores .
Do que tiveres no pomar plantado
Apanha os frutos e recolhe as flores ;
Mas lavra ainda e planta o teu roçado,
Que outros virão colher quando te fores .
Não te seja a velhice enfermidade !
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade !
Que a neve caia ! O teu ardor não mude !
Mantém - te jovem , pouco importa a idade !
Tem cada idade a sua juventude ... "
Soneto " Envelhecer " , de Manoel Bastos Tigre ( 1882 - 1957 ) .
No caminhar da vida , uma mesma velhice para uns é prêmio e para outros , aperto , a uns confere autoridade , a outros atormenta . Baltasar Gracián ( 1601 - 1658 ) .
Ninguém é tão velho que não creia poder viver todavia um ano mais .
Que coisa mais agradável que uma velhice rodeada de uma juventude afanosa de aprender .
A autoridade é o ornamento da velhice .
Marco Túlio Cícero ( 106 a.C - 43 a.C ) , advogado , orador , político e pensador italiano .
Ponto Final.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 Envelhecendo - Michel Quoist

" Estou envelhecendo , Senhor,
E é duro envelhecer !
Já não consigo correr ,
Sequer andar depressa ,
Já não consigo carregar peso
E subir rapidamente a escada de minha casa .
Minhas mãos começam a tremer
E meus olhos depressa se fatigam
Sobre as páginas do livro .
Minha memória fraca e rebelde esconde - me
Datas e nomes que no entanto conhece .
Estou envelhecendo , e os laços de afeição
Criados ao longo dos muitos anos passados
Soltam - se um a um
E as vezes desatam .
Tantas pessoas conhecidas ,
Tantas pessoas amadas ,
Se afastam e desaparecem
No outro lado do tempo ,
Que o primeiro olhar que lanço no jornal do dia
É para procurar, inquieto , os nomes da necrologia .
Cada dia me sinto , Senhor ,
Um pouco mais só,
Só, com minhas recordações
E as minhas dores passadas,
Que sempre o meu coração
Mantém muito vivas ,
Enquanto as alegrias me parecem ,
Muitas vezes ofuscadas .
Hoje , tenho tempo , Senhor ,
Tempo demais .
Tempo que se me amontoa em redor ,
Inutilizado.
E eu estou aqui , imóvel,
E não sirvo pra nada " .
Michel Quoist ( 1921 - 1997 ) : influente presbítero, escritor e sociólogo francês.
" Ainda que eu falasse línguas , as dos homens e dos anjos , se eu não tivesse o amor , seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente . Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas , se não tivesse o amor, eu não seria nada . Ainda que eu destribuisse todos os meus bens aos famintos , ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor , eu não seria nada " .
( Primeira Carta aos Corintios 13,1 - 3 ) .
Ponto Final .

sábado, 5 de setembro de 2026

 Marchinhas Políticas Antigas de Carnaval

Desde o ponta - pé inicial promovido pela maestrina Chiquinha Gonzaga ( 1847 - 1935 ), com " Ó Abre Alas " em 1899 , músicas são elaboradas , especificamente, para o período carnavalesco . A motivação política se insere como o mais excitante chamariz .
" Lá vem o cordão dos puxa - sacos / dando vividas aos americanos / quem está na frente é passado pra trás/ e o cordão dos puxa - sacos / cada vez aumenta mais /Vossa Excelência/ Vossa Eminência/ quanta reverência nos cordões eleitorais / mas se o " Doutor " cai do galho e vai ao chão/ a turma toda evolui de opinião/ e o cordão dos puxa - sacos cada vez aumenta mais " .
Em Fortaleza está música era cantada, à época, com outra letra fazendo menção às garotas que namoravam com os gringos da Vila Morena , na Praia de Iracema : " Lá vem o Cordão das Coca - Colas dando vivas aos americanos ..." . Coisas do Ceará - Moleque .
A seguinte manchinha , " Maria Candelária " representa um tipo sempre presente na dadivosa vida pública brasileira:
" Maria Candelária/ é alta funcionária/ saltou de paraquedas / caiu na letra " O " , oh , oh , oh , oh / começa ao meio - dia / coitada da Maria/ trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó , oh , oh , oh , oh / à uma vai ao dentista/ às duas vai ao café/ às três vai à modista/ às quatro assina o ponto e dá no pé/ que grande vigarista que ela é " .
A marchinha seguinte era uma preparação para o retorno triunfal do " Pai dos Pobres " , Getúlio Vargas ( 1883 - 1954 ) , carismático líder populista que " saiu da vida para entrar na história " .
" Bota o retrato do velho outra vez / bota no mesmo lugar/ o sorriso do velhinho/ faz a gente trabalhar / eu , já botei o meu/ e tu, não vai botar ? / já enfeitei o meu / e tu vais enfeitar ? / o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar " .
A próxima marchinha contempla o enigmático " Salvador da Pátria " , Janio Quadros ( 1917 - 1992 ) que se elegeu Presidente da República em 3 de outubro de 1960 , assumindo o cargo em 31 de janeiro de 1961 , tendo como vice João Goulart ( 1919 - 1976 ) . Durou pouco tempo o mandato de Janio ( 27 de agosto de 1961) que deixou o país a ver navios .
" Varre , varre , varre , varre vassourinha/ varre , varre a bandalheira! / que o povo já tá cansado / de sofrer desta maneira / Jánio Quadros é a esperança desse povo abandonado ! / Jânio Quadros é a certeza ds um Brasil, moralizado ! / alerta , meu irmão! / vassoura, conterrâneo! / vamos venxer com Jânio! " .
E agora estamos em 2026 , cansados , desiludidos , próximo a um abismo , igual a " Cantiga da Perua " , mas com um mundo de motivos para banhar este país com manchinhas carnavalescas:
" Meu latim com você não gasto mais / está tudo acabado, aqui jaz / nosso amor virou rancor / não me escreva nunca mais / guarde bem sua cartinha / eu não vou ficar sozinha / pra sempre eu seria amada / e você meu ex - amor será motivo de piada " .
Comenta - se que a ressaca deste ano ficará para a história, semelhante àquele do famigerado " Baile da Ilha Fiscal " .
" É de pior a pior , é de pior a pior, a cantiga da perua é uma só ! . Andam dizendo que o progresso vai chegar , a coisa vai melhorar quando o homem for pra lua . Mas a verdade crua é que situação da vida está ficando parecida à cantiga da perua. De tudo isso o que me inquizila é o sujeito entrar na fila pra comprar o que não rem . Vai chegar o tempo que a nossa rapaziada pra falar com a namorada entra na fila também " ( A Cantiga da Perua ) , de autoria de Jackson do Pandeiro ) .
Ponto Final .

domingo, 30 de agosto de 2026

 Poemas da Maturidade : Francisco Carvalho

" Completo hoje cinquenta bolos de vida
O vento da morte sopra onde quer
Que este bolo se repita por muitos anos .
Esta cerveja gelada parece que zomba de mim
Meus deslumbramentos esbarram no limiar renal.
Houve tempo em que me celebrei com sete mentiras de cristal .
Hoje completo cinquenta bolos de vida
As opas vermelhas dos Irmãos do Santíssimo
Sobem vagarosamente a ladeira ensanguentada do Kirie Eleison .
Este bolo e estas velas zombam de mim
O vento da morte sopra onde quer .
Estes velhos retratos me acenam de antigamente mas estou ausente da sala , perdido entre comensais cinquenta bolos de vida não bastam para apagar da memória os mortos de Hiorxima ( os mortos mais recentes ) .
O vento da morte sopra onde quer
A casa onde nasci desabrocham papoulas de arame. As estrelas daquele tempo me foram arrebatados pelo vento a nudez boiava em córregos azuis .
A chuva brinca de ciranda no patamar da igreja matriz.
O vento da morte sopra onde quer
Estes rostos e estas velhas fotografias zombam de mim .
Cinquenta bolos de vida é tudo o que me resta
Dos sonhos que sonhei, dos versos que escrevi .
Cai chuva do algeroz sobre a calva do operoso coletor ".
" Me sinto envelhecer.
As palavras já não são as mesmas
E o gosto de existir está definitivamente mudado .
Está fotografia me assusta .
O rosto que me fita da parede
Não sei se ri de mim, se me detesta .
Me sinto envelhecer.
Como se deslizasse num declive de vento e areia .
Vejo sombras , uma correnteza
De perfis que deságua na noite
Largo estuário da morte .
Meu coração é um búzio onde o mar ressoou
Pela última vez .
Lâmina sutil , a solidão
Corta a carne arrependida ."
" Importa viver com alguma esperança
O minuto nos olhos
E a liberdade nas mãos.
Importa viver com alguma ironia
E a curva do braço
Embalando honestos pensamentos .
Importa viver com a liberdade intacta
E de olhos abertos
Às sete chagas do homem .
Importa viver com algumas palavras
E o gado do mito
Pastando a metáfora. "
Francisco de Oliveira Carvalho , nascido no dia 11.06.1927 , em Russas - Ceará. Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 26.04. 1996 , ocupando a Cadeira 31 . Faleceu em Fortaleza, no dia 04.03.2013 , aos 85 anos .

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 O Luar no Oceano

" No mar calmo , de tons indefinidos
Onde nada termina ou se inicia ,
Passeio o olhar em todos os sentidos:
Noite não é e nem também é dia .
Nem uma onda a borbulhar d' espumas ,
Nem uma estrela pelo céu acaro;
Nada morre ou desponta em meio às brumas:
O espaço não é negro nem é claro .
Albatrozes de gritos escarninhos ,
Gaivotas irrequietas, num momento,
Tudo fugiu aos pélagos marinhos
Cheios de um mórbido aborrecimento .
Rumor algum percorre o trombadilho,
O bojo , a se mover pausadamente ,
Apenas mostra à flor d'água sem brilho
Os seus flancos de cobre reluzente.
Homens do quarto , ao longo da amurada ,
Fitam, sem crer , a vastidão do mar
De sonolentas vagas onduladas,
Brandamente a descer e a se elevar .
Mas , para Leste , a alvinitente chama ,
Como uma cinza a polvilhar o espaço.
Em trêmulas palhetas se derrama
Da vaga fimbria do horizonte baço.
Boia , treme , desdobra - se , goteja ,
Por toda a parte cai fugindo a toa,
Turbilhona , desmaia , lacrimeja
Como luzente e diáfana garoa .
Áureo disco se mostra, e cresce , cresce ...
Palpita o mar voluptuosamente...
E no céu cor de pérola aparece
A branca lua a deslizar temente. "
" O Luar no Oceano " , poema da autoria de Leconte de Lisle ( 1818 - 1894 ) , poeta francês. Tradução de Antônio Sales ( 1868 - 1940 ) , escritor , poeta , jornalista e político cearense , fundador da Padaria Espiritual, no final do século XIX , e Patrono da Academia Cearense de Letras .

sábado, 22 de agosto de 2026

 Lya Luft : Canção na Plenitude

" Não tenho mais os olhos de menina
Nem corpo adolescente, e a pele
Translúcida há muito se manchou .
Há rugas onde havia sedas , sou uma estrutura
Agrandada pelos anos e o peso dos fardos
Bons ou ruins .
( carreguei muitos com gostos e alguns com rebeldia)
O que te posso dar é mais que tudo
O que perdi : dou - te os meus ganhos .
A maturidade que consegue rir
Quando em outros tempos choraria .
Busca te agradar
Quando antigamente quereria
Apenas ser amada .
Posso dar - te muito mais que beleza
E juventude agora : esses dourados anos
Me ensinaram a amar o melhor , com mais paciência
E não menos ardor , a entender - te
Se precisas , a aguardar - te quando vais ,
E dar - te regaço de amante e colo de amiga ,
E sobretudo força- que vem do aprendizado .
Isso posto te dar : um mar antigo e confiável
Cujas marés - mesmo se fogem - retornam ,
Cujas correntes ocultas não levam destroços
Mas o sonho interminável das sereias " .
Lya Luft ( 1938 - 2021 ) : escritora brasileira , filha de descendentes germânicos, nascido no Rio Grande do Sul. Sua produção literária reúne poesia , ensaio, literatura infantil, crônicas e romances .

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 Alegria de Fortaleza : Yaco Fernandes

Fortaleza
( Cidade aumentativo das lapinhas
Que meus olhos ingênuos de menino
Cobiçavam, gulosos e encantados ,
Nas festas do Natal de Jsus Cristo) :
Canções de sol nas ruas paralelas ,
Onde o vento trauteia barcarolas :
Prazer d'água cantante dos repuxos,
Onde bailam milhares de arco-íris ;
Risadas infantis da passarada ;
A longa sombra das mangueiras calmas
Nos bairros sonolentos e calados
Que meus pés de criança percorreram ;
Quietas recordações de instantes bons ;
Rumores amigos de vidas felizes;
A lua mais bonita que Deus fez ;
Os risos policrômicos das flores ;
A perspectiva azul de teus jardins ;
O verde ornamental sorrir dos benjamins ;
O tranquilo acalento de teu mar ,
- Tal é a tua alegria, Fortaleza.
Alegria de ouvir essas cantigas
De pássaros sonoros e vibrantes
Como outra terra os entendeu jamais ;
Alegria de ver - te refletida ,
Numa felicidade diluída,
Nos olhos sorridentes e emotivos
Dessas maravilhosas raparigas
Que são o molto alegro apaixonado
Dessas praças e ruas muito iguais .
Alegria dos jardins lavados de luz ;
Alegria do céu mais repleto de estrelas;
Alegria das cousas simples e gostosas ;
Alegria dos sinos cantando nas tardes;
Alegria das tristes serenatas;
Alegria da presença constante da beleza ,
- Alegria de Fortaleza .
Cidade mais alegre e mais rica do mundo :
Eu sou mais rico e muito mais alegre ;
Todas as manhãs,
Embriagado do vinho das paisagens,
Olhando os panoramas cristalinos ,
Tenho a impressão de te beijar na boca,
E grito alegre e possessivamente :
Minha Cidade !
Minha Cidade !
Alegria de Fortaleza , da autoria de Yaco Fernandes ( 1914 - 1965 ) , pernambucano , jornalista , poeta , bacharel em Direito , figura de destaque no movimento modernista cearense .