terça-feira, 25 de agosto de 2026

 O Luar no Oceano

" No mar calmo , de tons indefinidos
Onde nada termina ou se inicia ,
Passeio o olhar em todos os sentidos:
Noite não é e nem também é dia .
Nem uma onda a borbulhar d' espumas ,
Nem uma estrela pelo céu acaro;
Nada morre ou desponta em meio às brumas:
O espaço não é negro nem é claro .
Albatrozes de gritos escarninhos ,
Gaivotas irrequietas, num momento,
Tudo fugiu aos pélagos marinhos
Cheios de um mórbido aborrecimento .
Rumor algum percorre o trombadilho,
O bojo , a se mover pausadamente ,
Apenas mostra à flor d'água sem brilho
Os seus flancos de cobre reluzente.
Homens do quarto , ao longo da amurada ,
Fitam, sem crer , a vastidão do mar
De sonolentas vagas onduladas,
Brandamente a descer e a se elevar .
Mas , para Leste , a alvinitente chama ,
Como uma cinza a polvilhar o espaço.
Em trêmulas palhetas se derrama
Da vaga fimbria do horizonte baço.
Boia , treme , desdobra - se , goteja ,
Por toda a parte cai fugindo a toa,
Turbilhona , desmaia , lacrimeja
Como luzente e diáfana garoa .
Áureo disco se mostra, e cresce , cresce ...
Palpita o mar voluptuosamente...
E no céu cor de pérola aparece
A branca lua a deslizar temente. "
" O Luar no Oceano " , poema da autoria de Leconte de Lisle ( 1818 - 1894 ) , poeta francês. Tradução de Antônio Sales ( 1868 - 1940 ) , escritor , poeta , jornalista e político cearense , fundador da Padaria Espiritual, no final do século XIX , e Patrono da Academia Cearense de Letras .

sábado, 22 de agosto de 2026

 Lya Luft : Canção na Plenitude

" Não tenho mais os olhos de menina
Nem corpo adolescente, e a pele
Translúcida há muito se manchou .
Há rugas onde havia sedas , sou uma estrutura
Agrandada pelos anos e o peso dos fardos
Bons ou ruins .
( carreguei muitos com gostos e alguns com rebeldia)
O que te posso dar é mais que tudo
O que perdi : dou - te os meus ganhos .
A maturidade que consegue rir
Quando em outros tempos choraria .
Busca te agradar
Quando antigamente quereria
Apenas ser amada .
Posso dar - te muito mais que beleza
E juventude agora : esses dourados anos
Me ensinaram a amar o melhor , com mais paciência
E não menos ardor , a entender - te
Se precisas , a aguardar - te quando vais ,
E dar - te regaço de amante e colo de amiga ,
E sobretudo força- que vem do aprendizado .
Isso posto te dar : um mar antigo e confiável
Cujas marés - mesmo se fogem - retornam ,
Cujas correntes ocultas não levam destroços
Mas o sonho interminável das sereias " .
Lya Luft ( 1938 - 2021 ) : escritora brasileira , filha de descendentes germânicos, nascido no Rio Grande do Sul. Sua produção literária reúne poesia , ensaio, literatura infantil, crônicas e romances .

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 Alegria de Fortaleza : Yaco Fernandes

Fortaleza
( Cidade aumentativo das lapinhas
Que meus olhos ingênuos de menino
Cobiçavam, gulosos e encantados ,
Nas festas do Natal de Jsus Cristo) :
Canções de sol nas ruas paralelas ,
Onde o vento trauteia barcarolas :
Prazer d'água cantante dos repuxos,
Onde bailam milhares de arco-íris ;
Risadas infantis da passarada ;
A longa sombra das mangueiras calmas
Nos bairros sonolentos e calados
Que meus pés de criança percorreram ;
Quietas recordações de instantes bons ;
Rumores amigos de vidas felizes;
A lua mais bonita que Deus fez ;
Os risos policrômicos das flores ;
A perspectiva azul de teus jardins ;
O verde ornamental sorrir dos benjamins ;
O tranquilo acalento de teu mar ,
- Tal é a tua alegria, Fortaleza.
Alegria de ouvir essas cantigas
De pássaros sonoros e vibrantes
Como outra terra os entendeu jamais ;
Alegria de ver - te refletida ,
Numa felicidade diluída,
Nos olhos sorridentes e emotivos
Dessas maravilhosas raparigas
Que são o molto alegro apaixonado
Dessas praças e ruas muito iguais .
Alegria dos jardins lavados de luz ;
Alegria do céu mais repleto de estrelas;
Alegria das cousas simples e gostosas ;
Alegria dos sinos cantando nas tardes;
Alegria das tristes serenatas;
Alegria da presença constante da beleza ,
- Alegria de Fortaleza .
Cidade mais alegre e mais rica do mundo :
Eu sou mais rico e muito mais alegre ;
Todas as manhãs,
Embriagado do vinho das paisagens,
Olhando os panoramas cristalinos ,
Tenho a impressão de te beijar na boca,
E grito alegre e possessivamente :
Minha Cidade !
Minha Cidade !
Alegria de Fortaleza , da autoria de Yaco Fernandes ( 1914 - 1965 ) , pernambucano , jornalista , poeta , bacharel em Direito , figura de destaque no movimento modernista cearense .

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 Brasil ( Ainda ) Um Imenso Hospital

Miguel da Silva Pereira ( 1871 - 1918 ) , médico brasileiro sanitarista, professor universitário e membro da Academia Nacional de Medicina , no dia 10 de outubro de 1916 proferiu uma vibrante saudação ao Dr. Aloysio de Castro , diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Seguem trechos de sua profética e atual oratória:
" Vivemos tristemente em um país triste . As nossas desditas políticas e as nossas misérias administrativas cedo , apenas conscientes da vida nacional, nos envenenam as fontes de alegria, de onde deveriam haurir reservas de energias físicas e morais indispensáveis à nossa dignidade de povo independente. Nesta atmosfera pesada e ansiosa, deprimente e duvidosa , onde respiram a fôlego curto 25 milhões de brasileiros, foi bastante que ao aceno de um poeta se entreabrissem as cortinas que aos moços patrícios vedavam o olhar para além de seus interesses subalternos, para que vissem aterrados a imagem sagrada da pátria - exposta e sem defesa, imensa e sem grandeza, espoliado e sem justiça, rica e sem crédito , culta e sem escolas , forte e sem armas - miserável e maltrapilha, ela , a mãe augusta e fecunda que na hora tenebrosa do perigo não encontrará para defende - la senão exatamente aqueles que não engordam à custa de sua desgraça...
Na luta pela pátria , todos se acamaradam e emparceiram como diante da morte, que essa luta tantas vezes preludia, todos se nivelam na terra profunda. E bem que se organizem milícias, que se armem legiões, que se cerrem fileiras em torno da bandeira, mas, melhor seria que não se esquecessem neste paroxismo de entusiasmo que fora do Rio ou de São Paulo, capitais mais ou menos saneadas , e de algumas outras cidades em que a previdência superintende a higiene , O BRASIL AINDA É UM IMENSO HOSPITAL. Num impressionante arroubo de oratória já perorou na Câmara ilustre parlamentar que , se fosse de mister , iria ele de na Câmara ilustre parlamentar que, se fosse de mister , iria ele de montanha em montanha , despertar os caboclos desses sertões. Em chegando a tal extremo zelo patriótico uma grande decepção sua generosa e nobre iniciativa. Parte , e parte ponderável, dessa brava gente não se levantaria ; inválidos, exangues ,esgotados pela ancilostomose e pela malária, estropiados e arrasados pela moléstia de Chagas; corroídos pela sífilis e pela hanseniase; devastados pelo alcoolismo; chupados pela fome , ignorantes , abandonados, sem ideal e sem letras ou não poderiam estes tristes deslembrados se erguer da sua modorra ao apelo tonitruante de trombeta guerreira, ressonante de quebrada em quebrada, como espectros , se levantassem, não poderiam compreender porque a Pátria, que lhes negou a esmola do alfabeto, lhes pede agora a vida e nas mãos lhes punha, antes do livro redentor, a arma defensiva " .
Tal mensagem patriótica exarada há exatos 100 anos permanece atual e verdadeira . Hoje a nação brasileira contando com cerca de 203.000.000 de almas continua como um grande e mal gerido hospital , obrigado a conviver com novas e furtivas mazelas: o " cancro da corrupção " ( uma verdadeira besta do Apocalipse) e novas doenças como AIDS, Dengue, Chikungunya e Zika . Esta última a percorrer o território nacional, agora , de norte a sul trazendo consigo inocentes almas afetadas com microcefalia e outros agravos . Distantes estamos de uma solução razoável para tão vergonhoso problema, num país manietado, letárgico, assistindo aos três poderes se digladiarem em torpes pelejas .
Até quando ?
Ver menos

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 João Guimarães Rosa : Em Máximas ao Vento

" Perto de muita água, tudo é feliz "
A água...grita a qualquer pancada que lhe dão "
" Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até à hora da libertação pelo arcano, a além do Lethes, o rio sem memória"
" Deus é paciência. O contrário é o diabo "
" Dinheiro, carinho e reza nunca se despreza "
" Honra é de Deus, não é de homem . De homem é a coragem "
Todo o mundo tem onde cair morto "
" Só as pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas "
A gente morre é para provar que viveu "
" O mundo não dá a ninguém inocência nem garantia "
" O mundo não muda , nunca , de hora em hora piora "
" De sofrer e amar , a gente não se desfaz "
" O correr da vida embrulha tudo , a vida é assim: esquenta e esfria , aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta . O que ela quer dar é coragem "
" A vida não perdoa descuido "
" Viver é negócio muito perigoso "
" Viver sempre vale a pena "
" Quem quer viver , faz mágica "
" A gente pensa que vive por gosto, mas vive é por obrigação "
Pensares de João Guimarães Rosa ( 1908 - 1967 ) . Escritor da Terceira Geração Modernista , médico e diplomata , conhecido pela inovação na linguagem e pela publicação de obras-primas. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963 . Faleceu em 1967 aos 59 anos de idade , vítima de um ataque cardíaco.

sábado, 1 de agosto de 2026

 Noel Rosa e Paula Nei : dois boêmios

Mirrado , feio e muito machucado . Assim adentrou de cabeça neste velho mundo de meu Deus , Noel Medeiros Rosa ( 1910 - 1937 ) . O Dr. José Rodrigues de Graça Mello, obstetra , fora chamado para concluir um trabalho de parto, que já se arrastava havia horas . Lançou mão de um expediente heróico, a aplicação de um fórceps , um instrumento que representa o prolongamento das mãos de um parteiro , mas que machuca o que pega e lacera por onde passa . Noel sofreria um afundamento do maxilar e uma severa paralisia facial .
Ao correr dos anos , seu defeito facial se acentuou , exigindo a realização de duas cirurgias que, contudo, não tiveram o resultado esperado. O apelido de " queixinho " , no colégio, estava na cara que seria colado em Noel . Por insistência dos pais , Noel aventurou - se numa Faculdade de Medicina, onde permaneceu por apenas dois anos , donde partiu para o mundo da música e da boêmia.
Noel Rosa compôs mais de 200 músicas, em mesas de bares e cabarés, abrangendo sambas dolentes e marchas carnavalescas , tais como :
Pierrô Apaixonado:
" Um Pierrô Apaixonado / que vivia só cantando/ por causa de uma colombina / acabou chorando , acabou chorando/ colombina entrou num botequim / bebeu ...bebeu... saiu assim... assim ... / dizendo " pierrô cacete, vai tomar sorvete / com o arlequim / um grande amor tem sempre um triste fim/ com o pierrô aconteceu assim/ levando esse grande chute / foi tomar vermute com amendoim " .
As Pastorinhas :
" A estrela d'alva/ no céu desponta / e a lua anda tonta / com tamanho esplendor / e as pastorinhas / pra controle da lua / vão cantando na rua / lindos versos de amor/ linda pequena/ morena, da cor de Madalena/ tu não tens pena / de mim/ que ando tonto com o seu olhar / linda criança/ tu não me sais da lembrança/ meu coração não se cansa / de sempre e sempre te amar " .
Numa outra época, em 1877 , um cearense de Aracati , Francisco de Paula Nei ( 1858 - 1897 ) , um belo poeta e boêmio, tentou a mesma façanha, enfrentar uma Faculdade de Medicina . Deixou apenas histórias hilariantes .
Paula Nei aguentou o tranco até o quarto ano de medicina, e do mesmo modo que Noel Rosa , caiu na gandaia , nos braços das musas, trocando os bancos escolares por praças e de bares , numa libação sem freios .
Viveram pouco na extensão do tempo ( Noel , 26 anos , e Paula Nei , 39 anos ).
Paula Nei e Noel Rosa , dois cometas que cintilaram, cada um a seu modo e a seu tempo , marcando a ferro e fogo a nossa rica história dos menestréis. Uma mostra de que " o intelectual deve cair como o sol , quando tramonta: ainda iluminando " .
Manuel de Barros , até aqui ausente , e que bem sabe destas artes de orgia das palavras, completa :
" A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei /meu fado é o de não saber quase tudo/ sobre o nada eu tenho profundidades / não tenho conexões com a realidade / poderoso para mim é aquele que descobre as insignificância ( do mundo e das nossas ) , por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil/ fiquei emocionado/ sou fraco para elogios " .
Acabou !

quarta-feira, 29 de julho de 2026

 O Tempo e a Verdade : Gibran Khalil Gibran

" Do tempo você faria um rio
Em cuja margem se sentaria
E observaria seu fluxo
Mas o intemporal que há em você
Está ciente da atemporalidade da vida
E sabe que ontem
É apenas a memória de hoje ,
E amanhã é o sonho de hoje .
É aquilo que canta e
Contempla em você ainda vive
Dentro dos limites daquele primeiro momento
Que espalhou as estrelas no espaço.
Mas se em seu pensamento
Precisar medir o tempo das estações,
Deixe que cada uma cerque todas as outras estações,
E deixe o hoje abraçar
O passado com lembranças
E o futuro com saudades ."
" A verdadeira luz é aquela que emana de dentro de uma pessoa.
Revela os segredos do coração à alma, deixando - a feliz e contente com a vida .
A verdade é como as estrelas. Só aparece por trás da obscuridade da noite .
A verdade é como todas as coisas belas do mundo. Só revela seus atrativos para aqueles que primeiro sentem a influência da falsidade .
A verdade é uma profunda bondade que nos ensina a nos contentarmos na vida cotidiana e a compartilharmos com as pessoas a mesma felicidade. "
Gibran Khalil Gibran ( 1883- 1931 ) : ensaísta, prosador, poeta , conferencista e Pintor de origem libanesa.
Ver menos