sábado, 30 de maio de 2026

 Colégio Castelo Branco - Fortaleza

Homenagem ao Mestre Martinho Rodrigues
O Colégio Castelo Branco, situado na Avenida Dom Manoel , da Arquidiocese de Fortaleza , foi fundado em 1900 com o nome de Instituto Miguel Borges , por Odorico Castelo Branco , e passou em 1921 , a chamar - se Colégio Castelo Branco , após o falecimento de seu criador . Plantado num prédio horizontal, como uma incubadora acadêmica que deu origem a futuros parlamentares, médicos, agrônomos , juristas , jornalistas , odontólogos, e outras figuras importantes da sociedade cearense .
Compunham aquela amorosa e fértil família: Padre Jorgelito Cals de Oliveira ( diretor ) , uma nobre criatura de Deus , responsável pelo colégio durante 45 anos ; Padre Jonas Barros ( professor de Latim ) , de fácil convívio ; Padre Hortênsio ( Professor de História) , Padre Gerardo ( Professor de Geografia ) , com as mãos no bolso e um cigarro morto no canto da boca , passeava na sala como um leão numa jaula ; Padre Jessé ( Professor de Inglês) . Ao longo das veredas, algumas das pesadas batinas negras e puídas foram ficando de lado , trocadas pelo traje civil e pela constituição de uma família convencional .
O que importa , queridos Mestres , é que os senhores estão eternizados como anjos em nossos corações de crianças.
O plantel de mestres leigos do Colégio Castelo Branco , vário, heterogêneo e seleto era exemplar: Professor Muller ( Francês) , Professor Iago ( Química) , Professor Serra ( Matemática) , Professor Agnelo ( Desenho ) , Professor Eleutério Costa ( Matemática) , Professor Américo ( Física) , Professor Guilherme Ellery ( Matemática) : de nobre estirpe , iniciando a época uma gloriosa caminhada acadêmica ; Professor Batista ( Biologia) , Professor Elisiário ( Moral e Cívica) , Professor Wilson Viana ( Física) , Professor Cid Paracampos ( Português) , Professor Martinho ( Biologia ) : médico, poeta , seresteiro, filósofo , humanista, uma pérola de raro valor .
Nas esquinas da vida por onde pelejo, ao avistar caminhando em passos curtos um daqueles anjos , mestres de outrora , contrito , rogo- lhes humildemente perdão por não poder resgatar em vida a gigantesca dívida que tenho para com eles . Carrego - os contente todos comigo bem junto ao peito .
Quando passo por aquele quadrilátero mágico, com os olhos marejados , não mais encontro o riacho Pajeú, soterrado que foi pela ganância do bicho- homem , os antigos palacetes e bangalôs servem agora , ridículos, a bares , lanchonetes e hotéis, nada restando daquela Fortaleza mimosa e ingênua de minha juventude. Quero de volta o impossível e nada posso fazer , tendo a consciência de que cada idoso sumindo nas trevas corresponde a uma biblioteca consumida pelo fogo . Resta apenas um mar saudades !
Um fraterno abraço, ao confrade , eterno mestre e poeta Martinho Rodrigues, pelo seu recente aniversário . Saúde e Paz !
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Fortaleza em Fotos e Fatos: Colégio Castelo Branco

segunda-feira, 25 de maio de 2026

 Envelhecer com mel ou fel ?

" Conheço muitas pessoas que estão envelhecendo mal . Desconfortavelmente . Com uma infelicidade crua na alma . Estão ficando velhas, mas não estão ficando sábias.
Um rancor cobre - lhes a pele , a escrita e o gesto. São críticos azedos , aliás estão ficando críticos sem nenhuma doçura nas palavras . Estão amargos . Com fel nos olhos.
E alguns desses, no entanto , teriam tudo para ser o contrário : aparentemente tiveram sucesso em suas atividades . Maior até do que mereciam . Portanto a gente pensa ; o que querem ? Porque essa bílis ao telefone e nos bares ? Por que esse resmungo pelos cantos e esse sarcasmo que se pensa humor ? Isto está errado . Errado , não porque esteja simplesmente errado , mas porque tais pessoas vivem numa infelicidade abstrusa. E , ademais, deveria - se envelhecer maciçamente . Nunca aos solavancos . Nunca aos traços e barrancos . Nunca como alguém caindo num abismo e se agarrando nos galhos e pedras , olhando enquanto despenca . Jamais , também, como quem está se afogando , se asfixiando ou morrendo numa câmara de gás.
Envelhecer deveria ser como planar . Como quem não sofre mais ( tanto) com os inevitáveis atritos . Assim como a nave que sai do desgaste da atmosfera e vai entrando noutro astral , e vai silente, e vai gastando nenhum - quase combustível, flutuando como uma caravela no mar ou uma cápsula no cosmos .
Os elefantes , por exemplo, envelhecem bem . E olha que é uma tarefa enorme . Não se queixam do peso dos anos , e nem da ruga do tempo , e , quando percebem a hora da morte, caminham pausadamente para um certo lugar - o cemitério dos elefantes , e aí morrem , completamente, com a grandeza existencial só aos sábios permitida.
Os vinhos envelhecem melhor ainda . Ficam ali nos limites de sua garrafa , na espessura de seu sabor, na adega do prazer . E vão envelhecendo e ganhando vida , envelhecendo e sendo amados , e , porque velhos , desejados . Os vinhos envelhecem densamente . E dão prazer .
O problema da velhice também se dá com certos instrumentos. Não me refiro aos que enferrujam pelos cantos, mas a um envelhecimento atuante como o da faca . Nela o corte diário dos dias a vai consumindo. E no entanto, ela continua afiadíssima, encaixando - se nas mãos da cozinheira como nenhuma outra faca nova .
Vai ver, a natureza deveria ter feito os homens envelhecerem diferente . Como as facas , digamos, por desgaste , sim , mas nunca desgastante. Seria uma suave situação : a gente devia ir se gastando , se gastando, se gastando até se evaporar . E aí iam perguntar: cadê o fulano ? E alguém diria: gastou - se , foi vivendo , vivendo , e acabou . Acabou , é claro, sem nenhum gemido ou resmungo .
Isto seria muito diferente de ir envelhecendo por um processo de humilhações sucessivas , como essa coisa de ir deixando rins , pulmões, dentes e intestinos pelas mesas de cirurgia , numa mutiladora dispersão.
Acho que o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos . Se dimensionaram equivocadamente . Deveria ser proibido , por algum mecanismo biológico , colocarmos metas acima de nossas forças.
Seria a única solução de acabar com fábula da raposa e as uvas . Assim a raposa não envelheceria resmungando por não ter devorado o que não lhe pertencia . Deveria , portanto, haver um relais, que desligasse nossos impulsos toda vez que quiséssemos saltar obstáculos para os quais não temos músculos.
Assim sofreríamos menos e não amargaríamos não ter tido certas mulheres, conquistado certos reinos , escrito certas obras primas .
A literatura tem lá seus personagens- símbolos a esse respeito: o Fausto e Dorian Gray. Apavorados com a velhice e a morte , venderam a alma ao diabo , e em troca pediram a juventude de volta . Não deu certo . O diabo não joga para perder . Dizem que a única vez que foi realmente derrotado foi naquela disputa com o próprio Deus a respeito de Jó . Mesmo assim, deu um trabalho danado .
Especialistas vão dizer que envelhece mal o indivíduo que não realizou suas pulsões eróticas essenciais ; que deixou coagulação ou oculta uma grande parte de seus desejos . Isto é verdade. Parcial porém. Pois não se sabe por que estranhos caminhos de sublimação, há pessoas que, embora roxas de levar tanta pancada da vida , têm, contudo, um arco - íris na alma .
Bilac dizia que a gente deveria aprender a envelhecer com as velhas árvores. Walt Whitman tem um poema onde vai dizendo: " Penso que podia viver com os animais que são plácidos e bastam - se a si mesmos ".
Ainda agora tirei os olhos do papel e olhei a natureza em torno . Nunca vi o sol se queixar no entardecer . Nem a lua chorar quando amanhece . "
Magistral crônica da autoria de Affonso Romano de Sant'Anna ( 1937 - 2025 ) .
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sábado, 23 de maio de 2026

 Ares de Mudança

" O Ceará é o ferreiro maldito , de quem fala a lenda popular: quando tem ferro falta carvão. É nadador contra a corrente , que nunca chega ; o caranguejo que anda e desanda ; o eco a repetir a pergunta sem lhe dar resposta ; o nó sem ponta ; o sonho que promete em sombras que não se distinguem bem , a vaga esperança, enfim , para a qual nunca chega o dia .
Há cem anos , um povo gigante, a mover - se , não adianta um passo, como um frágil esquife sobre as ondas , que a corrente impele , e o vento faz recuar . Não lhe falta alma . São os deuses que os condenam à pena de Tântalo- morrer de sede à beira do regato . Os diretores mentais do Ceará morreram ou foram longe procurar um teatro para exibição de sua intelectualidade ; e crestam na penúria os rebentos da capacidade cearense , a disputarem um pouco de ar , que aliás lhe mata o estímulo ; o ar mefítico das baixas regiões oficiais...
Que seja para os netos de nossos netos, não importa . O mundo não é tão curto , que acabe em nós ; e cem anos , na ordem dos tempos , é muito menos de um til nos lábios ".
Excertos de " O Ferreiro da Maldição " , publicado no Jornal " O Unitário " de Fortaleza, com a data de 20 de maio de 1903 , da autoria de João Brígido ( 1829 - 1921 ) , jornalista, cronista , historiador e político.
Parece que foi ontem, e o atual quadro político desenhado no sofrido torrão cearense, traz justa inquietação, em meio a um encapelado mar de gigantescas ondas , a exigir de todos , firmeza e pulso forte na condução do frágil barco da democracia.
Auguste de Saint - Hilaire ( 1779 - 1853 ) , um naturalista francês que andou pelo Brasil estudando plantas , cunhou uma frase que até hoje reverbera e soa como verdade , em um profético tom :
" Ou o Brasil acaba com a saúva , ou a saúva acaba com o Brasil " .
A saúva, aí está, hoje representada pela brutal corrupção, que corrói todas as estruturas de nossas corporações, a níveis estadual, municipal e federal. Num ano de eleições, o cidadão consciente poderá definir o rumo certo que deverão tomar nossas instituições, caso contrário, assistiremos o soçobrar fragoroso do Titanic verde e amarelo ! Acorda Brasil !
Ponto Final .
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sexta-feira, 15 de maio de 2026

 Mário Gomes - Poeta Descomunal . Um Adeus

Mário Gomes ( 1947 - 2014 ) , filho de pai motorista , e mãe costureira , teve infância pobre num bairro da periferia de Fortaleza . É dele a descrição: " Minha casa é meu corpo , meu carro, também. Moro dentro de meus sapatos , ora ! Meu nome é pensamento " . Há relatos de que cedo na vida passou por vários internamentos em hospitais psiquiátricos, onde conviveu com fármacos e eletrochoque . E logo peregrinou pela cidade em companhia de boêmios , poetas , seres errantes e notívagos , sem nenhuma preocupação na esfera material . Quando necessitava de algo , simplesmente pedia e tudo estava resolvido. Sócrates, em Atenas , assim agia e sempre dava certo . Se vivesse na Grécia Antiga, seria , por certo , um companheiro ideal para Dlógenes que habitava um tonel e perambulava com uma lanterna à luz do dia a procura de um homem . Mas , o inquieto Mário cedo percebeu que uma habitação convencional representaria para ele , uma sufocante prisão. A Praça do Ferreira e o espaço Dragão do Mar acolheram amorosamente o poeta em sua breve existência terrena.
" Beijei a boca da noite / e engoli milhões de estrelas/ fiquei iluminado/ bebi toda a água do oceano/ devorei as florestas / a humanidade ajoelhou - se a meus pés/ pensando que era a hora do Juízo Final/ apertei , com as mãos, a terra / derretendo - a / as aves em sua totalidade/ voaram para o além/ os animais caíram do abismo espacial / dei uma gargalhada cínica/ e fui descansar na primeira nuvem/ que passava naquele dia/ em que o sol me olhava assustadoramente / fui dormir o sono da eternidade/ e me acordei mil anos depois /por detrás do Universo " .
Agora é tarde , nosso poeta / menino / mendigo, Mário Gomes encantou - se de vez . De que adianta agora chorar o riso , rir e engolir a lágrima do poeta / louco , largado em sua morada sem teto num banco , todo seu , na Praça do Ferreira, devorado que foi por uma águia a lhe bicar o fígado, feito um Prometeu pós- moderno que tivera a insana coragem de se apropriar de um carrihão de versos , sob a guarda de encolerizados deuses lá do Olimpo. Agora é tarde para cobrar de autoridades governamentais um mínimo de cuidados a um cidadão especial que não tinha condições de se manter sozinho, pois não sabia mensurar o perigo de estar vivo . Para ele , sonho e realidade significavam o mesmo . Além do que , passividade e omissão compõem uma regra quase infalível daqueles que mandam neste velho mundo - cão.
" Olhei o sol / me irritei e larguei a mão na cara dele / no qual ele ficou desacordado por 12 horas ininterruptas / dei um ponta - pé nos ovos da terra / afastei São Jorge / e mantive relações sexuais com a lua/ pisoteei o cadáver de Satanás/ numa esquina encontrei - me com Deus / e saímos abraçados : rindo e cantando ...chovia " .
Comenta- se a boca - miúda que , por ocasião da necropsia do bardo da rua foi percebido que saíram a voejar do seu ventre aberto , um carrossel de rimas entremeados com coloridas borboletas e colibris . Mário , cabreiro, deliciava - se com a cena observando elas sumirem por entre as nuvens do divino . Chegou a parolar com uma borboleta retardatária mandando um recado para dois " Josés festeiros " : Alcides Pinto e J. Albano , que em breve estaria chegando para seu perpétuo caminhar caçando rimas e prosas até para além do Universo .
" Quando eu morrer / irão distribuir minhas camisas / minhas calças, minhas meias, meus sapatos/ as cuecas jogarão fora / ninguém usa cuecas de defunto/ irão vasculhar minha gaveta / vão encontrar muita poesia / documentos e documentários/ só sei dizer / que foi gostoso viver / sentir o amor e proteção de minha mãe/ de conhecer meus irmãos, meus amigos / de ver de perto as mulheres/ só posso deixar escrito : " obrigado, vida " .
Ponto Final !
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sábado, 2 de maio de 2026

 O Bruxo do Cosme Velho , por Ele Mesmo

" Se a velhice quer dizer cabelos brancos , se a mocidade quer dizer ilusões frescas , não sou velho nem moço. Realizo literalmente a expressão francesa : " Un homme entre deux âges ". Estou tão longe da infância como da decrepitude ; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado ...
Não privo com as musas mas gosto delas. Leio por instruir - me , às vezes por consolar - me . Creio nos livros e adoro - os . Ao domingo leio á Constituição do Brasil, e o sábado aos manuscritos que me dão para ler . Quer tudo isso dizer que á sexta - feira admiro nossos maiores , e ao sábado durmo a sono solto .
No tempo das câmaras leio com frequência o Padre Vieira e o Padre Bernardes, dois grandes mestres .
Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas , uma impossível, outra realizada. A impossível é a República de Platão. A realizada é o sistema representativo . É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses ( também creio nos deuses ) que afastem do Brasil o sistema republicano porque este dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou ...
Aqui estão os principais traços de minha pessoa. Não direi a V.Excia, se tomo sorvetes , nem se fumo charutos de Havana ; são ridículezas que não deviam entrar no espírito da opinião pública " .
Em nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão " .
Machado de Assis ( 1839 - 1908 ) : cronista, contista, jornalista, novelista, poeta, romancista e crítico literário. Bruxo do Cosme Velho, faz referência à casa de número 18 da rua Cosme Velho, onde morava o memorável escritor brasileiro e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 26 de abril de 2026

 Nair de Teffé - Uma Bela Primeira Dama

Nair de Teffé ( 1886 - 1981 ) , caricaturista , musicista , atriz e Primeira - Dama da República , nascida no dia 10 de junho de 1886 , em Petrópolis, no Rio de Janeiro .Seus pais foram Antônio Luiz Von Hoonholtz, e Joana Cristina Von Hoonholtz, barões de Teffé. Nair recebeu uma primorosa educação e tornou - se uma bela mulher, culta, elegante, ousada , sensível e vanguardista. Por conta do trabalho de seu pai como ministro plenipotenciário do Brasil , a garota teve oportunidade de viajar e estudar em em países da Europa, como em França, onde foi interna num colégio de freiras . Por esta ocasião surgiram os primeiros trabalhos de caricatura elaborados por Nair . Logo mais , figuras da política e da sociedade em geral serviram aos traços da novel e rara caricaturista.
De volta ao Brasil , principiou a sua colaboração nos periódicos cariocas como O Malho , A Careta , Fon - Fon e outros . Passou a assinar seus trabalhos com o nome de Rian , um anagrama de Nair , ou " nada " em francês. Em andanças com os seus pais por Petrópolis no ano de 1913 , o destino conspirou para que a jovem e bela Nair cruzasse seus virginais caminhos com o do viúvo e Presidente da República do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca ( 1885 - 1923 ) . Do flerte maneiro ao noivado e casamento foi um salto preciso ( 6 meses) . Nair contava então com 27 anos e Hermes , um carrancudo pai de família com 58 anos de idade, e viúvo há cerca de 1 ano .
O casamento de Hermes com Nair deu - se no dia 08 de dezembro de 1913, em Petrópolis, no Palácio Rio Negro. Os atributos da mulher casadoira à época, como não trabalhar fora , não tocar violão , não beber, nem fumar , e disposição para parir um filho por ano , não pertenciam ao perfil da bela e sonhadora Nair.
" Você, botão de rosa / amanhã, a flor mulher/ joia perfumada cada um deseja e quer/ de manhã banhada ao sol/ vem o mar beijar/ lua enciumada noite alta vai olhar / você menina- moça mais menina que mulher / confissões não ouça/ abra os olhos se puder/ tudo tem seu tempo certo/ tempo para amar / coração aberto faz chorar / a lua , o céu, a praia , o luar / missão de Deus/ a vida eterna para amar ./" .
Letra de Luiz Antônio ( 1921 - 1996 ) , boêmio e militar .
No Palácio do Catete , a Primeira - Dama Nair patrocinou inúmeros saraus introduzindo ritmos ( maxixe ) e instrumentos populares como ( violões) naqueles nobres ambientes .Assim se deu com o compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense ( 1863 - 1946 ) , e Chiquinha Gonzaga ( 11847 - 1935 ) .
" Neste mundo de misérias/ quem impera / é quem é mais folgazão / é quem sabe cortar jaca/ nos requebros / de suma perfeição/ ai , ai , como é bom dançar, ai/ corta - jaca assim, assim / mexe com o pé/ ai, ai , tem feitiço tem, ai / corta , meu benzinho, assim , assim / esta dança é buliçosa/ tão dengosa/ que todos querem dançar/ não há ricas baronesas/ nem marquesas/ que não saibam requebrar , requebrar / este passo tem feitiço/ tal ouriço/ faz qualquer homem coió/ não há velho carrancudo / nem sisudo/ que não caia em tró-ló-ló, tró-ló-ló/ quem me vir assim alegre no Flamengo/ por certo se há de render/ não resiste com certeza/ com certeza/ este jeito de mexer/ um Flamengo tão gostoso/ tão ruidoso/ vale bem meia - pataca/ dizem todos que na ponta/ está na ponta / nossa dança corta - jaca , corta - jaca " .
Corta - Jaca de Chiquinha Gonzaga.
Nair iria sofrer um sério acidente de trânsito logo após o término do mandato do seu esposo Hermes, e teve que recorrer a um severo e prolongado tratamento médico no exterior. De volta ao Brasil em 1920 , seguiu com a vida em frente, ficando viúva do Marechal Hermes em janeiro de 1923 , aos 37 anos de idade . Fundou a Academia Petropolitana de Letras em 1929 . Em 1932 inaugurou o Cinema Rian, na Avenida Atlântida , em Copacabana .
Nair de Teffé, não teve filhos biológicos e permaneceu na viuvez até o fim de seus dias . Após breve período de apatia em consequência de renitente quadro depressivo, posto que , sofreu também a perda de seus pais. Acolhe em adoção três crianças usufruindo desta sublime forma de repartir um amor jenuino e puro. Nair viveu modestamente , mas com perseverança, ousadia e riqueza de caráter de uma extraordinária mulher moderna, falecendo , aos 95 anos de idade no dia 10 de junho de 1981 .

segunda-feira, 20 de abril de 2026

 Marcha da Quarta - Feira de Cinzas

" Acabou nosso Carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida , feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar
De que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz ."
Canção lançada na voz maviosa de Nara Leão em 1963 , composta por Carlos Lyra ( 1933 - 2023 ) , e Vinicius de Moraes ( 1913 - 1980 ) . Foi uma ponte entre dois períodos: os anos dourados de uma experiência democrática chegando ao fim , e a ditadura dos últimos dias de março de 1964 : Congresso fechado , sindicatos e entidades estudantis manietados, e fim da liberdade de expressão.
Olha 2026 aí gente !