Giovanni Papini , Filósofo Italiano
Giovanni Papini ( 09.01.1891 a 08.07.1956 ) : Jornalista, ensaísta, contista , romancista, poeta , crítico literário e filósofo italiano . Nasceu em Florença. Desde a mais tenra idade mostrou fascinação pelo inebriante mundo da leitura .Aos 12 anos de idade escrevia contos , e aos 14 anos criou duas revistas : Sapiência, e A Revista . Encontramos o inquieto Giovanni aos 19 anos lecionando em um Instituto Inglês, e frequentando as Faculdades de Letras e Medicina . Aos 20 anos ocupa a cátedra de filosofia moderna na Universidade de Florença. Lança em 1903 a revista Leonardo com conteúdo vário incluindo literatura, arte e ciência.
Aos 24 publica uma polêmica obra , O Crepúsculo dos Filósofos, onde ataca , especialmente , Nietzsche. Em 1931 publica "Gog " , que segundo suas palavras, foi um manuscrito que recebeu de um tal Mr.Goggins, meio satânico e meio louco , morador de um hospício. Junto com o autobiográfico " Um Homem Acabado " representa o ponto alto da produção do inquieto Papini que morre cego , no dia 8 de julho de 1956 , aos 75 anos de idade , em sua cidade natal, Florença.
Um inconformista adorável que vale a pena ter como companhia no universo da leitura , ainda nos dias de hoje .
" O maior problema do homem , como das Nações, é a independência. Há solução? . O que possuo parece meu , mas sou sempre possuído pelo que tenho . A única propriedade incontestável deveria ser o Eu - entretanto, procurando bem , onde está o resíduo absoluto, isolado , que não depende de ninguém ? .
Ausentes ou presentes , os outros participam de nossa vida interior e exterior. Não há salvação. Mesmo na solidão perfeita sinto - me , com horror, átomo de uma montanha, célula de uma colônia, gota de um mar. No meu espírito e na minha carne trago a herança dos mortos: meu pensamento é devedor a vivos e defuntos ; e mesmo contra a vontade , meu comportamento é guiado por seres que não conheço ou que desprezo.
Tudo o que sei , aprendi dos outros . Tudo o que eu uso é obra alheia - que importa se o paguei ? Sem o operário, sem o artesão, sem o artista estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero me locomover preciso de máquinas que não fabriquei e que não dirijo. Sou obrigado a falar uma língua que não inventei ; e os que vieram antes de mim me impõem sem que eu o saiba , seus gostos , seus sentimentos, seus preconceitos .
Ao desmontar o Eu peça por peça encontro sempre pedaços e fragmentos que vêm de fora - em cada um poderia colocar um rótulo de origem .Este é da minha mãe, este do meu primeiro amigo , este de Emerson, este de Rousseau ou de Stirner . Se levo a fundo o inventário das apropriações o Eu torna - se uma forma vazia, uma palavra sem conteúdo. Pertenço a uma classe , a um povo , a uma nação - não consigo , por mais força, evadir - me dos confins que não tracei. Toda ideia é um eco ; todo ato um plágio . Posso afastar a presença dos homens, mas grande parte deles continua vivendo, invisível, em minha solidão.
Se tenho empregados devo suporta - los e obedecer - lhes ; se tenho amigos , tolera - los e servi - los ; e o dinheiro deve ser olhado , cultivado , protegido, defendido . As poucas alegrias de que desfruto devo - as á inspiração e ao trabalho de homens que nunca vi. Conheço o que recebi mas ignoro o que dei ".
Do livro Gog, p. 99 e 100 . Ano 1931 .
