segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

 Paula Ney , O Desperdiçador de Talentos

No Rio Antigo , nos primeiros dias da República, últimos dias da monarquia . Entrava Paula Ney no teatro Santana, quando foi abordado por duas mundanas , antigas atrizes , que o arrastaram para uma das mesas vazias a fim de que lhes pagasse alguma coisa .
O boêmio não se fez de rogado . Sentou - se entre as duas raparigas , e , batendo forte , com a bengala na mesa de estanho , chamou :
- " Garçon " ! ... " Garçon " !
E à aproximação do empregado :
- Mercúrio, para três !
Paula Ney , O maior desperdiçador de talento que o Brasil já possuiu , não perdoava os seus desafetos e , ainda menos , as nulidades pretensiosas que prosperaram no seu tempo . Conversava - se , uma tarde, em um grupo na rua do Ouvidor , sobre o prestígio da imprensa , quando um dos presentes , que se dizia jornalista , aventurou , amaciando:
- A imprensa é um grande corpo ...
É...É... - atalhou Paula Ney , piscando por trás do " pince - nez " .A imprensa é um grande corpo. Mas você, nesse corpo ...
E sem temer a reação:
- É o calo do dedo mínimo do pé esquerdo ! ...
Matéria retirada do livro " O Brasil Anedótico " , da lavra do grande Humberto de Campos : Jornalista, político e escritor , da Academia Brasileira de Letras, nascido em Miritiba , 25 de outubro de 1886 - Rio de Janeiro, falecido em 5 de dezembro de 1934 .
Paula Ney nasceu em Aracati - Ceará, a 2 de fevereiro de 1858 , e faleceu no dia 13 de outubro de 1897 , no Rio de Janeiro . Estudou no Ateneu Cearense , depois no Seminário da Prainha , no Liceu Cearense , tendo passagem breve na Faculdade Nacional de Medicina .

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 Tempo Fechado e Bonito em Fortaleza

Fortaleza , a bela desposada do sol , nesta manhã cinzenta e bela , fez as pazes com São Pedro : céu carrancudo e muita chuva . Um convite certo para um bom banho de bica ou para soltar um barquinho de papel e seguir o mesmo , travesso e rodopiando até o seu desfecho fatal , numa boca de lobo qualquer, imitando a fugacidade da vida do bicho - homem na Natureza. Tudo isso acompanhado pelo arrastar de móveis, os trovões no infinito do céu .
Hora de regredir na borrasca do tempo e juntar a galera de minha infância feliz para uma aventura na Ponte dos Ingleses , lá pras bandas do restaurante Estoril . Com destino final " a piscininha " , um lago salgado artificial recorrente formado pelas violentas ondas, dia após dia , no quebra - mar ali existente . Isto na maré cheia .
Com a maré seca , aproveita - se daquele pedaço de chão livre , ao derredor da ponte velha , para bater um racha com uma bola de pito . No final , pegar uma " carretilha " no peito , com uma pequena prancha de madeira , evitando as traiçoeiras ondas - caixão. Alguns mais afoitos têm direito a um salto borboleta , lá do alto da ponte . Os mais marrentos seguem a nado em busca de um pouso na Ponte Metálica, para cartar alto com as belas moçoilas da área.
" Faz muito tempo/ que eu não vejo / o verde daquele mar quebrar/ nas longarinas da ponte velha/ que ainda não caiu/ faz muito tempo/ que eu não vejo/ o branco da espuma espirrar/ naquelas pedras com a sua eterna /briga com o mar /uma a uma as coisas vão sumindo/ uma a uma , se desmilinguindo / só eu e a ponte velha teimam resistindo/ e a nova jangada de vela / pintada de verde e encarnado/ só meu mote não muda a moda / não muda nada / e o mar engolindo lindo/ a antiga Praia de Iracema/ e os olhos verdes da menina / lendo o meu mais novo poema/ e a lua viu desconfiada / a noiva do sol com mais / um supermercado/ era uma vez meu castelo/ entre mangueiras/ e jasmins florados/ e o mar engolindo lindo / e o mar engolindo rindo/ Beira- Mar / êê /Beira-mar/ ê , maninha/ arma aquela rede branca / que eu estou chegando agora " . ( " Longarinas " , da autoria do grande poeta e cantor cearense Ednardo) .
Nesta prosaica manhã, da janela de meu pequeno observatório, uma chuva pesada , mareia meus olhos cansados , vislumbro lá longe a Serra da Aratanha , dançando e tremendo , num lusco-fusco feito uma visagem. Culpa dos óculos que uso há tempos , quase sem serventia . Saudade , um chuvisco de saudade para banhar minh'alma !
" Eu daria tudo que tivesse / pra voltar aos tempos de criança /eu não sei pra que que a gente cresce/ se não sai da gente essa lembrança/ aos domingos, missa na matriz/ da cidadezinha onde eu nasci/ ai, meu Deus, eu era tão feliz/ no meu pequenino Miraí/ que saudade da professorinha/ que me ensinou o bê-a-bá/ onde andará Mariazinha/ meu primeiro amor, onde andará? / eu igual a toda meninada/ quanta travessura que eu fazia/ jogo de botões sobre a calçada/ eu era feliz e não sabia " . ( " Meus tempos de criança " , autoria de Ataulfo Alves) .
Ponto Final .

domingo, 25 de janeiro de 2026

 Borges em Dois Tempos

" É possível conceber um dia , mas não se pode conceber um século, é inimaginável. O passado é plástico , e o futuro também. Em contrapartida , o presente infelizmente não o é; se sinto uma dor física, é inútil pensar no que sinto porque a dor aí está. E se sinto saudade de uma pessoa, também a estou sentindo no presente . Talvez seja mais fácil modificar o passado do que o futuro, porque o futuro pode ser pensado ... " bem , é provável que tal coisa aconteça " , não existem tais fatores que se opõem " . Entretanto, o passado , sobretudo um passado um pouco distante , é uma matéria muito maleável.
O tempo nos ensina a evitar equívocos, não a apresentar acertos. Santo Agostinho diz : Não no tempo, mas com o tempo , Deus criou os céus e a Terra .E São Paulo diz : " Morro a cada dia . A verdade é que morremos a cada dia e nascemos a cada dia .Estamos nascendo e morrendo .continuamente .
A velhice é uma forma de solidão. Resignei - me à velhice e à cegueira , do mesmo modo com se resigna à vida , que é mais grave e difícil. Não a aconselho a ninguém, mas se ela chega , é melhor se resignar . Agora que sou velho é mais fácil ser feliz , ou pelo menos mais tranquilo do que quando era moço, pois os moços cultivam o desespero, querem ser os personagens de romance russo; e agora tento buscar - e às vezes encontro - a tranquilidade.
Em todo caso , sinto - me agora mais tranquilo do que quando não tinha 84 anos , mas com 24 anos . Claro , nesta idade a gente tenta ser Hamlet, Byron, Baudelaire, algum personagem de uma novela russa do século passado , e cultiva a desgraça. Na minha idade , conhecem - se os próprios limites ... Sei que há coisas que não devo tentar : por exemplo, escrever um romance ou uma peça teatral , ou me apaixonar. São esforços, é claro . Não se pode ser virtuoso quando se carece do básico para viver . "
Excertos do " Dicionário de Borges " , da autoria de Carlos R. Stortini , do ano de 1986 .
Jorge Luis Borges ( 1899 - 1986 ) : poeta , contista e ensaísta argentino. Perdeu a visão aos 55 anos de idade , em decorrência de um glaucoma. Faleceu aos 86 anos , em Genebra, por conta de um tumor hepático .

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

 Cruzando a Barra - de Lord Alfred Tennyson

" Sol - posto e estrela da tarde
E um chamado - claro - por mim .
E que não haja ranger de amarras
Quando eu me fizer ao largo .
Mas águas tais que , fluindo , pareçam dormir,
Cheias demais para espuma ou clamor ,
Quando aquele que veio das profundezas sem termo ,
Voltar à Casa Paterna .
Crepúsculo e sino da tarde !
E depois a escuridão.
E que não haja tristeza de adeuses
Quando eu partir .
Pois ainda que para longe deste mundo do tempo e do espaço,
Possa a correnteza me arrastar ,
Eu espero ver meu Timoneiro face a face,
Ao cruzar a barra " .
Lord Alfred Tennyson ( 1809 - 1892 ) : um dos maiores poetas ingleses . Numa tradução livre de Laurita Pessoa Raja Gabaglia ( 1909 - 1982 ) , escritora filha do ex - presidente do Brasil Epitacio Pessoa : Do livro " Convite à Literatura " , 1976 . Companhia Editora Americana ( CEA ).

sábado, 17 de janeiro de 2026

 Lao - Tsé X Confúcio

" O céu e a terra são eternos.
Eles não têm vida própria.
Por isso são eternos.
Assim, o primeiro lugar cabe ao Sábio
Que soube apagar - se esquecendo sua pessoa.
Ele se impõe ao mundo sem desejos para si próprio,
O que ele empreende é perfeito.
Ele havia sentado no último lugar.
Por isso ele se encontra no primeiro.
O sábio não se mostra , ele brilha .
Ele não se impõe, as pessoas o notam .
Ele não se vangloria , as pessoas lhe atribuem méritos.
Ele não se retira , ele avança.
O sábio é metódico, mas não categórico;
Íntegro, mas não contundente ofensivo;
Reto , mas não absoluto ;
Luminoso , mas não ofuscante .
O sábio aprende sem estudar ,
Observando os erros dos outros.
O sábio, sem nunca fazer grandes ações,
Realiza grandes coisas .
Conhecer- se a si mesmo é sabedoria superior .
Conhecer os outros é a sabedoria. " ( Lao- Tsé).
" Compreender a vontade do Céu leva à sabedoria.
O sábio não se aflige com o fato de os homens não o conhecerem .
Ele se aflige por não conhecer os homens.
Na cólera, o sábio pensa em suas consequências.
O sábio não oprime os outros com sua superioridade.
Ele não os humilha por causa de sua importância.
O sábio dedica - se a ser lento em suas palavras e diligente em seus atos.
O sábio respeita tudo. Antes de tudo , ele se respeita a si mesmo .
O sábio olha para seu dever , o vulgar olha pseu interesse .
O sábio espera tudo de si mesmo . O vulgar espera tudo dos outros .
O sábio vê o conjunto, não o detalhe. O vulgar compara e não generaliza ." ( Confúcio) .
Em resumo : o taoismo é uma filosofia - uma arte de viver - , ao passo que o confucionismo é uma ideologia - portando, uma arte de governar .
Marc Halévy ( A leitura do Tao ).
Ponto Final !

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

 Avicena : Médico e Polímata Persa

Avicena ( 980 - 1037 ) , polímata persa , com principais áreas de interesse : medicina , alquimia, química, astrologia , ética, filosofia , poesia , ciência, dentre outras. Produziu o " Cânone da Medicina " , uma enciclopédia de 14 volumes , onde combina sua experiência médica pessoal e da antiga medicina persa e árabe . Tais livros explicam a saúde e doenças humanas.
Certa feita , trouxeram um jovem atingido por um mal misterioso, que nenhum dos médicos da localidade conseguia diagnosticar. Avicena não detectou nenhum sinal de moléstia física, no indigitado paciente , mas percebeu sintomas de um distúrbio nervoso .
Solicitou a um dos membros da Tribo que fosse citando os nomes das localidades vizinhas , e observou que , ao ser mencionado
o de determinada localidade , o pulso do jovem mostrava nítida aceleração ( taquisfigmia ).
Ao serem nomeadas as famílias residentes nesse povoado , a variação do pulso apareceu novamente à menção de certa família. Finalmente, citadas as pessoas desta família, Avicena percebeu a aceleração do pulso ante o nome de atraente moça desta família, pela qual o jovem estava evidentemente apaixonado. Xeque - Mate !
A inabilidade de expressar seu amor havia provocado no jovem , uma doença psicossomática. Avicena , simplesmente, antecipou em quase mil anos a psicanálise .
Um exemplo da linguagem silenciosa da comunicação não verbal , onde o corpo fala !
Trouxeram , enfim, para Avicena , um jovem atingido por um mal misterioso, que nenhum médico diagnosticara , até aquela data .
Ponto Final .

sábado, 10 de janeiro de 2026

 Pindorama - Tempos de Tormento e Tortura

No pedregoso e irregular chão da existência humana , cinco elementos simbolizam as formas benfazejas das habilidades clássicas: a cítara , o livro , a pintura , a espada e o xadrez .
A cítara emite o doce lenitivo da música , expressando a excelsa elevação do espírito humano .
O livro que traduz a riqueza do saber mundano e acadêmico numa verdadeira linguagem universal .
A pintura que expressa a beleza e a sensibilidade do gênio artístico, jorrando entre pincéis e cores .
A espada que imprime a marca da defesa e o poder da lâmina aplacando de forma cruenta, o mal pela raiz .
O xadrez que simboliza o cultivo da perspicácia, da inteligência, da arte estratégica, amplamente empregada em tempos de guerra ou de paz .
Em Pindorama , nos tormentosos dias de hoje , que modorrentos se arrastam, quando deveriam passar à jato, o xadrez que vigora , infelizmente, tem outro sentido , mostrando o cárcere, a masmorra , empregados para conter o malfadado crime que medra , como metástases de um medonho cancro, nas esferas palacianas, ou seja : no executivo , legislativo e judiciário , no pobre torrão de três cores : verde - amarelo - vermelho .
Já ecoam nos nossos ouvidos , os estertores de um burgo em agonia , misturados com o rufar agourento dos tambores da Batalha do Armagedom .Tardiamente , o bicho - homem irá entender que de nada servem os falaciosos postulados dos larápios que levam vantagem em tudo , frente à cristalina verdade de que " Deus mira as mãos limpas, não as cheias " .
Beirando o abismo, Pindorama segue sua triste sina !
De onde virá a mão salvadora? .
Ponto Final !
Foto que ilustra a crônica: Praça Rogério Froes, em Fortaleza.