segunda-feira, 25 de maio de 2026

 Envelhecer com mel ou fel ?

" Conheço muitas pessoas que estão envelhecendo mal . Desconfortavelmente . Com uma infelicidade crua na alma . Estão ficando velhas, mas não estão ficando sábias.
Um rancor cobre - lhes a pele , a escrita e o gesto. São críticos azedos , aliás estão ficando críticos sem nenhuma doçura nas palavras . Estão amargos . Com fel nos olhos.
E alguns desses, no entanto , teriam tudo para ser o contrário : aparentemente tiveram sucesso em suas atividades . Maior até do que mereciam . Portanto a gente pensa ; o que querem ? Porque essa bílis ao telefone e nos bares ? Por que esse resmungo pelos cantos e esse sarcasmo que se pensa humor ? Isto está errado . Errado , não porque esteja simplesmente errado , mas porque tais pessoas vivem numa infelicidade abstrusa. E , ademais, deveria - se envelhecer maciçamente . Nunca aos solavancos . Nunca aos traços e barrancos . Nunca como alguém caindo num abismo e se agarrando nos galhos e pedras , olhando enquanto despenca . Jamais , também, como quem está se afogando , se asfixiando ou morrendo numa câmara de gás.
Envelhecer deveria ser como planar . Como quem não sofre mais ( tanto) com os inevitáveis atritos . Assim como a nave que sai do desgaste da atmosfera e vai entrando noutro astral , e vai silente, e vai gastando nenhum - quase combustível, flutuando como uma caravela no mar ou uma cápsula no cosmos .
Os elefantes , por exemplo, envelhecem bem . E olha que é uma tarefa enorme . Não se queixam do peso dos anos , e nem da ruga do tempo , e , quando percebem a hora da morte, caminham pausadamente para um certo lugar - o cemitério dos elefantes , e aí morrem , completamente, com a grandeza existencial só aos sábios permitida.
Os vinhos envelhecem melhor ainda . Ficam ali nos limites de sua garrafa , na espessura de seu sabor, na adega do prazer . E vão envelhecendo e ganhando vida , envelhecendo e sendo amados , e , porque velhos , desejados . Os vinhos envelhecem densamente . E dão prazer .
O problema da velhice também se dá com certos instrumentos. Não me refiro aos que enferrujam pelos cantos, mas a um envelhecimento atuante como o da faca . Nela o corte diário dos dias a vai consumindo. E no entanto, ela continua afiadíssima, encaixando - se nas mãos da cozinheira como nenhuma outra faca nova .
Vai ver, a natureza deveria ter feito os homens envelhecerem diferente . Como as facas , digamos, por desgaste , sim , mas nunca desgastante. Seria uma suave situação : a gente devia ir se gastando , se gastando, se gastando até se evaporar . E aí iam perguntar: cadê o fulano ? E alguém diria: gastou - se , foi vivendo , vivendo , e acabou . Acabou , é claro, sem nenhum gemido ou resmungo .
Isto seria muito diferente de ir envelhecendo por um processo de humilhações sucessivas , como essa coisa de ir deixando rins , pulmões, dentes e intestinos pelas mesas de cirurgia , numa mutiladora dispersão.
Acho que o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos . Se dimensionaram equivocadamente . Deveria ser proibido , por algum mecanismo biológico , colocarmos metas acima de nossas forças.
Seria a única solução de acabar com fábula da raposa e as uvas . Assim a raposa não envelheceria resmungando por não ter devorado o que não lhe pertencia . Deveria , portanto, haver um relais, que desligasse nossos impulsos toda vez que quiséssemos saltar obstáculos para os quais não temos músculos.
Assim sofreríamos menos e não amargaríamos não ter tido certas mulheres, conquistado certos reinos , escrito certas obras primas .
A literatura tem lá seus personagens- símbolos a esse respeito: o Fausto e Dorian Gray. Apavorados com a velhice e a morte , venderam a alma ao diabo , e em troca pediram a juventude de volta . Não deu certo . O diabo não joga para perder . Dizem que a única vez que foi realmente derrotado foi naquela disputa com o próprio Deus a respeito de Jó . Mesmo assim, deu um trabalho danado .
Especialistas vão dizer que envelhece mal o indivíduo que não realizou suas pulsões eróticas essenciais ; que deixou coagulação ou oculta uma grande parte de seus desejos . Isto é verdade. Parcial porém. Pois não se sabe por que estranhos caminhos de sublimação, há pessoas que, embora roxas de levar tanta pancada da vida , têm, contudo, um arco - íris na alma .
Bilac dizia que a gente deveria aprender a envelhecer com as velhas árvores. Walt Whitman tem um poema onde vai dizendo: " Penso que podia viver com os animais que são plácidos e bastam - se a si mesmos ".
Ainda agora tirei os olhos do papel e olhei a natureza em torno . Nunca vi o sol se queixar no entardecer . Nem a lua chorar quando amanhece . "
Magistral crônica da autoria de Affonso Romano de Sant'Anna ( 1937 - 2025 ) .
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sábado, 23 de maio de 2026

 Ares de Mudança

" O Ceará é o ferreiro maldito , de quem fala a lenda popular: quando tem ferro falta carvão. É nadador contra a corrente , que nunca chega ; o caranguejo que anda e desanda ; o eco a repetir a pergunta sem lhe dar resposta ; o nó sem ponta ; o sonho que promete em sombras que não se distinguem bem , a vaga esperança, enfim , para a qual nunca chega o dia .
Há cem anos , um povo gigante, a mover - se , não adianta um passo, como um frágil esquife sobre as ondas , que a corrente impele , e o vento faz recuar . Não lhe falta alma . São os deuses que os condenam à pena de Tântalo- morrer de sede à beira do regato . Os diretores mentais do Ceará morreram ou foram longe procurar um teatro para exibição de sua intelectualidade ; e crestam na penúria os rebentos da capacidade cearense , a disputarem um pouco de ar , que aliás lhe mata o estímulo ; o ar mefítico das baixas regiões oficiais...
Que seja para os netos de nossos netos, não importa . O mundo não é tão curto , que acabe em nós ; e cem anos , na ordem dos tempos , é muito menos de um til nos lábios ".
Excertos de " O Ferreiro da Maldição " , publicado no Jornal " O Unitário " de Fortaleza, com a data de 20 de maio de 1903 , da autoria de João Brígido ( 1829 - 1921 ) , jornalista, cronista , historiador e político.
Parece que foi ontem, e o atual quadro político desenhado no sofrido torrão cearense, traz justa inquietação, em meio a um encapelado mar de gigantescas ondas , a exigir de todos , firmeza e pulso forte na condução do frágil barco da democracia.
Auguste de Saint - Hilaire ( 1779 - 1853 ) , um naturalista francês que andou pelo Brasil estudando plantas , cunhou uma frase que até hoje reverbera e soa como verdade , em um profético tom :
" Ou o Brasil acaba com a saúva , ou a saúva acaba com o Brasil " .
A saúva, aí está, hoje representada pela brutal corrupção, que corrói todas as estruturas de nossas corporações, a níveis estadual, municipal e federal. Num ano de eleições, o cidadão consciente poderá definir o rumo certo que deverão tomar nossas instituições, caso contrário, assistiremos o soçobrar fragoroso do Titanic verde e amarelo ! Acorda Brasil !
Ponto Final .
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sexta-feira, 15 de maio de 2026

 Mário Gomes - Poeta Descomunal . Um Adeus

Mário Gomes ( 1947 - 2014 ) , filho de pai motorista , e mãe costureira , teve infância pobre num bairro da periferia de Fortaleza . É dele a descrição: " Minha casa é meu corpo , meu carro, também. Moro dentro de meus sapatos , ora ! Meu nome é pensamento " . Há relatos de que cedo na vida passou por vários internamentos em hospitais psiquiátricos, onde conviveu com fármacos e eletrochoque . E logo peregrinou pela cidade em companhia de boêmios , poetas , seres errantes e notívagos , sem nenhuma preocupação na esfera material . Quando necessitava de algo , simplesmente pedia e tudo estava resolvido. Sócrates, em Atenas , assim agia e sempre dava certo . Se vivesse na Grécia Antiga, seria , por certo , um companheiro ideal para Dlógenes que habitava um tonel e perambulava com uma lanterna à luz do dia a procura de um homem . Mas , o inquieto Mário cedo percebeu que uma habitação convencional representaria para ele , uma sufocante prisão. A Praça do Ferreira e o espaço Dragão do Mar acolheram amorosamente o poeta em sua breve existência terrena.
" Beijei a boca da noite / e engoli milhões de estrelas/ fiquei iluminado/ bebi toda a água do oceano/ devorei as florestas / a humanidade ajoelhou - se a meus pés/ pensando que era a hora do Juízo Final/ apertei , com as mãos, a terra / derretendo - a / as aves em sua totalidade/ voaram para o além/ os animais caíram do abismo espacial / dei uma gargalhada cínica/ e fui descansar na primeira nuvem/ que passava naquele dia/ em que o sol me olhava assustadoramente / fui dormir o sono da eternidade/ e me acordei mil anos depois /por detrás do Universo " .
Agora é tarde , nosso poeta / menino / mendigo, Mário Gomes encantou - se de vez . De que adianta agora chorar o riso , rir e engolir a lágrima do poeta / louco , largado em sua morada sem teto num banco , todo seu , na Praça do Ferreira, devorado que foi por uma águia a lhe bicar o fígado, feito um Prometeu pós- moderno que tivera a insana coragem de se apropriar de um carrihão de versos , sob a guarda de encolerizados deuses lá do Olimpo. Agora é tarde para cobrar de autoridades governamentais um mínimo de cuidados a um cidadão especial que não tinha condições de se manter sozinho, pois não sabia mensurar o perigo de estar vivo . Para ele , sonho e realidade significavam o mesmo . Além do que , passividade e omissão compõem uma regra quase infalível daqueles que mandam neste velho mundo - cão.
" Olhei o sol / me irritei e larguei a mão na cara dele / no qual ele ficou desacordado por 12 horas ininterruptas / dei um ponta - pé nos ovos da terra / afastei São Jorge / e mantive relações sexuais com a lua/ pisoteei o cadáver de Satanás/ numa esquina encontrei - me com Deus / e saímos abraçados : rindo e cantando ...chovia " .
Comenta- se a boca - miúda que , por ocasião da necropsia do bardo da rua foi percebido que saíram a voejar do seu ventre aberto , um carrossel de rimas entremeados com coloridas borboletas e colibris . Mário , cabreiro, deliciava - se com a cena observando elas sumirem por entre as nuvens do divino . Chegou a parolar com uma borboleta retardatária mandando um recado para dois " Josés festeiros " : Alcides Pinto e J. Albano , que em breve estaria chegando para seu perpétuo caminhar caçando rimas e prosas até para além do Universo .
" Quando eu morrer / irão distribuir minhas camisas / minhas calças, minhas meias, meus sapatos/ as cuecas jogarão fora / ninguém usa cuecas de defunto/ irão vasculhar minha gaveta / vão encontrar muita poesia / documentos e documentários/ só sei dizer / que foi gostoso viver / sentir o amor e proteção de minha mãe/ de conhecer meus irmãos, meus amigos / de ver de perto as mulheres/ só posso deixar escrito : " obrigado, vida " .
Ponto Final !
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sábado, 2 de maio de 2026

 O Bruxo do Cosme Velho , por Ele Mesmo

" Se a velhice quer dizer cabelos brancos , se a mocidade quer dizer ilusões frescas , não sou velho nem moço. Realizo literalmente a expressão francesa : " Un homme entre deux âges ". Estou tão longe da infância como da decrepitude ; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado ...
Não privo com as musas mas gosto delas. Leio por instruir - me , às vezes por consolar - me . Creio nos livros e adoro - os . Ao domingo leio á Constituição do Brasil, e o sábado aos manuscritos que me dão para ler . Quer tudo isso dizer que á sexta - feira admiro nossos maiores , e ao sábado durmo a sono solto .
No tempo das câmaras leio com frequência o Padre Vieira e o Padre Bernardes, dois grandes mestres .
Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas , uma impossível, outra realizada. A impossível é a República de Platão. A realizada é o sistema representativo . É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses ( também creio nos deuses ) que afastem do Brasil o sistema republicano porque este dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou ...
Aqui estão os principais traços de minha pessoa. Não direi a V.Excia, se tomo sorvetes , nem se fumo charutos de Havana ; são ridículezas que não deviam entrar no espírito da opinião pública " .
Em nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão " .
Machado de Assis ( 1839 - 1908 ) : cronista, contista, jornalista, novelista, poeta, romancista e crítico literário. Bruxo do Cosme Velho, faz referência à casa de número 18 da rua Cosme Velho, onde morava o memorável escritor brasileiro e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 26 de abril de 2026

 Nair de Teffé - Uma Bela Primeira Dama

Nair de Teffé ( 1886 - 1981 ) , caricaturista , musicista , atriz e Primeira - Dama da República , nascida no dia 10 de junho de 1886 , em Petrópolis, no Rio de Janeiro .Seus pais foram Antônio Luiz Von Hoonholtz, e Joana Cristina Von Hoonholtz, barões de Teffé. Nair recebeu uma primorosa educação e tornou - se uma bela mulher, culta, elegante, ousada , sensível e vanguardista. Por conta do trabalho de seu pai como ministro plenipotenciário do Brasil , a garota teve oportunidade de viajar e estudar em em países da Europa, como em França, onde foi interna num colégio de freiras . Por esta ocasião surgiram os primeiros trabalhos de caricatura elaborados por Nair . Logo mais , figuras da política e da sociedade em geral serviram aos traços da novel e rara caricaturista.
De volta ao Brasil , principiou a sua colaboração nos periódicos cariocas como O Malho , A Careta , Fon - Fon e outros . Passou a assinar seus trabalhos com o nome de Rian , um anagrama de Nair , ou " nada " em francês. Em andanças com os seus pais por Petrópolis no ano de 1913 , o destino conspirou para que a jovem e bela Nair cruzasse seus virginais caminhos com o do viúvo e Presidente da República do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca ( 1885 - 1923 ) . Do flerte maneiro ao noivado e casamento foi um salto preciso ( 6 meses) . Nair contava então com 27 anos e Hermes , um carrancudo pai de família com 58 anos de idade, e viúvo há cerca de 1 ano .
O casamento de Hermes com Nair deu - se no dia 08 de dezembro de 1913, em Petrópolis, no Palácio Rio Negro. Os atributos da mulher casadoira à época, como não trabalhar fora , não tocar violão , não beber, nem fumar , e disposição para parir um filho por ano , não pertenciam ao perfil da bela e sonhadora Nair.
" Você, botão de rosa / amanhã, a flor mulher/ joia perfumada cada um deseja e quer/ de manhã banhada ao sol/ vem o mar beijar/ lua enciumada noite alta vai olhar / você menina- moça mais menina que mulher / confissões não ouça/ abra os olhos se puder/ tudo tem seu tempo certo/ tempo para amar / coração aberto faz chorar / a lua , o céu, a praia , o luar / missão de Deus/ a vida eterna para amar ./" .
Letra de Luiz Antônio ( 1921 - 1996 ) , boêmio e militar .
No Palácio do Catete , a Primeira - Dama Nair patrocinou inúmeros saraus introduzindo ritmos ( maxixe ) e instrumentos populares como ( violões) naqueles nobres ambientes .Assim se deu com o compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense ( 1863 - 1946 ) , e Chiquinha Gonzaga ( 11847 - 1935 ) .
" Neste mundo de misérias/ quem impera / é quem é mais folgazão / é quem sabe cortar jaca/ nos requebros / de suma perfeição/ ai , ai , como é bom dançar, ai/ corta - jaca assim, assim / mexe com o pé/ ai, ai , tem feitiço tem, ai / corta , meu benzinho, assim , assim / esta dança é buliçosa/ tão dengosa/ que todos querem dançar/ não há ricas baronesas/ nem marquesas/ que não saibam requebrar , requebrar / este passo tem feitiço/ tal ouriço/ faz qualquer homem coió/ não há velho carrancudo / nem sisudo/ que não caia em tró-ló-ló, tró-ló-ló/ quem me vir assim alegre no Flamengo/ por certo se há de render/ não resiste com certeza/ com certeza/ este jeito de mexer/ um Flamengo tão gostoso/ tão ruidoso/ vale bem meia - pataca/ dizem todos que na ponta/ está na ponta / nossa dança corta - jaca , corta - jaca " .
Corta - Jaca de Chiquinha Gonzaga.
Nair iria sofrer um sério acidente de trânsito logo após o término do mandato do seu esposo Hermes, e teve que recorrer a um severo e prolongado tratamento médico no exterior. De volta ao Brasil em 1920 , seguiu com a vida em frente, ficando viúva do Marechal Hermes em janeiro de 1923 , aos 37 anos de idade . Fundou a Academia Petropolitana de Letras em 1929 . Em 1932 inaugurou o Cinema Rian, na Avenida Atlântida , em Copacabana .
Nair de Teffé, não teve filhos biológicos e permaneceu na viuvez até o fim de seus dias . Após breve período de apatia em consequência de renitente quadro depressivo, posto que , sofreu também a perda de seus pais. Acolhe em adoção três crianças usufruindo desta sublime forma de repartir um amor jenuino e puro. Nair viveu modestamente , mas com perseverança, ousadia e riqueza de caráter de uma extraordinária mulher moderna, falecendo , aos 95 anos de idade no dia 10 de junho de 1981 .

segunda-feira, 20 de abril de 2026

 Marcha da Quarta - Feira de Cinzas

" Acabou nosso Carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida , feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar
De que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz ."
Canção lançada na voz maviosa de Nara Leão em 1963 , composta por Carlos Lyra ( 1933 - 2023 ) , e Vinicius de Moraes ( 1913 - 1980 ) . Foi uma ponte entre dois períodos: os anos dourados de uma experiência democrática chegando ao fim , e a ditadura dos últimos dias de março de 1964 : Congresso fechado , sindicatos e entidades estudantis manietados, e fim da liberdade de expressão.
Olha 2026 aí gente !

quarta-feira, 15 de abril de 2026

 ...Alex Carrel - Eugenia

Alexis Carrel ( 1873 - 1944 ) : Biólogo, Médico, Pesquisador, Escritor, e propagador da Eugenia, nascido na França. Seu pai era um mercador de seda e seu sonho desde pequeno foi direcionado para o ofício de Medicina. Sua educação básica fez- se em um bom colégio cristão. Ingressou na Faculdade de Medicina na Universidade de Lyon. Estagiou no famoso hospital Hotel Dieu de Lyon durante cinco anos, onde realizou avançados estudos sobre cirurgia vascular.
Na época ficara o jovem médico Alexis Carrel deveras impressionado com a morte do presidente francês Marie François Sadi Carrat, assassinado por um anarquista italiano que se utilizou de uma arma branca para lesionar um vaso sanguíneo de grande calibre ( veia porta) do infeliz político, que não pôde ser corrigido prontamente, levando - o ao óbito. Influenciado por tal tragédia, Carrel criou várias técnicas de suturas vasculares com fios especiais que se tornaram modelos em cirurgia por muito tempo. Partindo desse patamar, avançou para estudos experimentais nas áreas de transplantes de tecidos e órgãos, tendo como apoio o laboratório Hull de Fisiologia de Chicago.
Em 1912 , aos 39 anos, Alexis Carrel, recebe , merecidamente, o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina.
Quando irrompe a Primeira Grande Guerra Mundial ( 1914 - 1918 ) , Alexis retorna à França onde ingressa no exército, junto a sua esposa que prestou serviço como enfermeira na Cruz Vermelha Francesa. Muitas vidas foram salvas pelas mãos de Carrel e de outros tantos membros foram poupadas de amputações em decorrência do emprego de técnicas cirúrgicas avançadas descobertas pelo insigne esculápio francês. Junto com o bioquímico inglês Harry Dakin, Alexis idealizou uma solução antisséptica chamada " Solução Carrel- Dakin " e que foi amplamente empregada durante a conflagração mundial , poupando muitas vidas.
Após o término da guerra, Carrel continuou seus trabalhos científicos no Instituto Rockefeller na área de cultura de tecidos . Em 1935 Alexis Carrel lançou um livro que logo se tornou um exuberante êxito literário, " O homem, esse desconhecido " . Nele, o autor propunha a formação de um conselho superior superior para governar o mundo. Os membros que integrariam tal restrito grupo seriam intelectuais notáveis reunidos em volta de um " Centro de Treinamento " , onde políticos do mundo inteiro iriam buscar conselhos para o bem da humanidade. Carrel defendia firmemente que seria esta a única saída para evitar decadência orgânica e mental da humanidade: Para eles os seres humanos dividiam- se claramente em superiores ( a casta pensante) e inferiores ( os deficientes físicos e mentais, entre outros) que deveriam receber um diferenciado tratamento. Para Carrel, o homem forte intelectual é o mais feliz e útil dos seres, porque mantém em harmonia as atividades intelectuais, morais e orgânicas.
Na primeira edição em alemão do livro " O homem, esse desconhecido " , o autor, rasga elogios ao regime nazista de Adolf Hitler: O governo alemão tem tomado medidas enérgicas contra a propagação de defeituosos , enfermos mentais e criminosos . A solução ideal seria a supressão de cada um destes indivíduos enquanto haja demonstrado o mesmo que pode ser perigoso ". Desta solução defendida por Carrel para a " solução final " proposta por Hitler foi um simples passo de ganso.
Cumpre salientar que Alexis Carrel tomou partido durante a Segunda Grande Guerra Mundial ( 1939 - 1945 ) de franco apoio ao regime nazista de Adolf Hitler participando do governo colaboracionista francês de Vichy ( 1940 - 1944 ) sob o comando do Marechal Philippe Petain, onde comandava um grande hospital francês da famigerada Fundação para Estudos dos Problemas Humanos.
Alexis Carrel morreu de um ataque cardíaco aos 71 anos de idade na França no ano de 1944, em meio a caça as bruchas promovida pelas forças do governo provisório instituído em 29 de agosto de 1944, sob o comando do Marechal Charles De Gaulle ( França Livre ).
Alexis Carrel serve de exemplo acabado para tipos como, " O médico e o monstro " de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ) do escritor Robert Louis Stevenson . Evidencia a complexidade do ser humano visto de perto e uma prova cabal de que toda biografia só tem seu fecho após a última pá de terra fria que cai sobre o tal bicho- homem.