domingo, 29 de março de 2026

 Giovanni Papini , Filósofo Italiano

Giovanni Papini ( 09.01.1891 a 08.07.1956 ) : Jornalista, ensaísta, contista , romancista, poeta , crítico literário e filósofo italiano . Nasceu em Florença. Desde a mais tenra idade mostrou fascinação pelo inebriante mundo da leitura .Aos 12 anos de idade escrevia contos , e aos 14 anos criou duas revistas : Sapiência, e A Revista . Encontramos o inquieto Giovanni aos 19 anos lecionando em um Instituto Inglês, e frequentando as Faculdades de Letras e Medicina . Aos 20 anos ocupa a cátedra de filosofia moderna na Universidade de Florença. Lança em 1903 a revista Leonardo com conteúdo vário incluindo literatura, arte e ciência.
Aos 24 publica uma polêmica obra , O Crepúsculo dos Filósofos, onde ataca , especialmente , Nietzsche. Em 1931 publica "Gog " , que segundo suas palavras, foi um manuscrito que recebeu de um tal Mr.Goggins, meio satânico e meio louco , morador de um hospício. Junto com o autobiográfico " Um Homem Acabado " representa o ponto alto da produção do inquieto Papini que morre cego , no dia 8 de julho de 1956 , aos 75 anos de idade , em sua cidade natal, Florença.
Um inconformista adorável que vale a pena ter como companhia no universo da leitura , ainda nos dias de hoje .
" O maior problema do homem , como das Nações, é a independência. Há solução? . O que possuo parece meu , mas sou sempre possuído pelo que tenho . A única propriedade incontestável deveria ser o Eu - entretanto, procurando bem , onde está o resíduo absoluto, isolado , que não depende de ninguém ? .
Ausentes ou presentes , os outros participam de nossa vida interior e exterior. Não há salvação. Mesmo na solidão perfeita sinto - me , com horror, átomo de uma montanha, célula de uma colônia, gota de um mar. No meu espírito e na minha carne trago a herança dos mortos: meu pensamento é devedor a vivos e defuntos ; e mesmo contra a vontade , meu comportamento é guiado por seres que não conheço ou que desprezo.
Tudo o que sei , aprendi dos outros . Tudo o que eu uso é obra alheia - que importa se o paguei ? Sem o operário, sem o artesão, sem o artista estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero me locomover preciso de máquinas que não fabriquei e que não dirijo. Sou obrigado a falar uma língua que não inventei ; e os que vieram antes de mim me impõem sem que eu o saiba , seus gostos , seus sentimentos, seus preconceitos .
Ao desmontar o Eu peça por peça encontro sempre pedaços e fragmentos que vêm de fora - em cada um poderia colocar um rótulo de origem .Este é da minha mãe, este do meu primeiro amigo , este de Emerson, este de Rousseau ou de Stirner . Se levo a fundo o inventário das apropriações o Eu torna - se uma forma vazia, uma palavra sem conteúdo. Pertenço a uma classe , a um povo , a uma nação - não consigo , por mais força, evadir - me dos confins que não tracei. Toda ideia é um eco ; todo ato um plágio . Posso afastar a presença dos homens, mas grande parte deles continua vivendo, invisível, em minha solidão.
Se tenho empregados devo suporta - los e obedecer - lhes ; se tenho amigos , tolera - los e servi - los ; e o dinheiro deve ser olhado , cultivado , protegido, defendido . As poucas alegrias de que desfruto devo - as á inspiração e ao trabalho de homens que nunca vi. Conheço o que recebi mas ignoro o que dei ".
Do livro Gog, p. 99 e 100 . Ano 1931 .

quinta-feira, 19 de março de 2026

 Darcy Ribeiro, Um Gênio Caboclo

Darcy Ribeiro ( 1922 - 1997 ) , nasceu na cidade de Montes Claros , uma boca de estrada do sertão nordestino , no Estado de Minas Gerais , em 25 de outubro de 1922 . " Dizem que fui fundado , o que não é verdade , posto que , nasci de parto natural . Cresci , fazendo as bobagens habituais . Moço, quis ser médico e terminei, antropólogo. ".
1922 : Um ano importante para o Brasil, com o advento da Semana da Arte Moderna . Morre o mais brasileiro e sofrido de nossos grandes escritores , Lima Barreto , sorvendo um cálice de parati. Nascimento de Leonel Brizola , político populista, filho de um carreteiro e que chegou ao mundo para azucrinar os militares da República.
Darcy Ribeiro graduou - se no ano de 1946 em Antropologia pela Escola de Sociologia Política de São Paulo , aos 24 anos de idade e logo partiu para estudar os índios do Pantanal , do Brasil Central e da Amazônia ( 1946 - 1956 ) , assessorando o desassombrado Marechal Rondon. Foi o fundador do Museu do Índio e seu diretor por algum tempo, organizando o primeiro curso brasileiro de pós-graduação direcionado a antropólogos . Seduzido pelo educador Anísio Teixeira, construiu firme carreira como educador , reitor e , depois , Ministro de Estado ( 1955 - 1964 ) . " Topou aí com João Goulart ( Jango ) ,que o descaminhou para as tentativas de promover a reforma agrária e conter a ganância das multinacionais. Foi um desastre . Exilado , por conta da Redentora , virou latino - americano e passou muitos anos ( 1964 - 1975 ) remendando universidades no Uruguai, na Venezuela, no Peru e até na Argélia " . Foi fundador na Universidade de Brasília.
Voltou ao Brasil, disposto a cheirar ou feder , conforme o nariz . Em meio a isto tudo lançou vários livros importantes que compõem seus Estudos de Antropologia da Civilização ( O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, O Dilema da América Latina , Os Índios e a Civilização, e Os Brasileiros ) , e alguns romances .
Em 1978 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Sorbonne.
São suas , estas palavras , meio pascalinas :
" Eu ! Sei perfeitamente quem sou eu, que sou . Um ser minúsculo, sei , mortal, de existência brevíssima colocado na calota do universo. Aqui posto, olho as infinitudes que para além de mim , sem fim , se desdobram num universo imenso, eterno . Inútil. Também posso voltar - me para mim, atento às voltas de meus intestinos ou para meu sentimento do mundo. O atrativo mesmo é olhar a meu redor , ver gentes parecidas comigo , sobretudo as de sexo complementar que aí estejam pelejando, conviviveis. Espantosa é a visão, se me exorbito e olho lá pra fora , para esse mundão de grandeza inesgotável, independente de mim, a mim indiferente . Um despautério tanta magnitude fútil, tanta eternidade oca...
O que me comove mesmo é a relação: eu e os mais . Não é uma visão de mim sem eles , nem deles sem mim . É sempre a visão de mim com eles , parte deles ; nós todos nos comunicando com espermas e palavras para nos perpetuarmos e nos entendermos ...
Porque o Brasil não deu certo ? Ainda não deu ? Vai dar ? Como ? Por que caminho ? .
Mudemos de assunto " Marinheiro neste mundo , amor é vento que sopra minhas velas nas travessias . Amando navego por mares calmos e bravios , me sentindo ser e viver .Não posso é viver sem amor , desamado na pasmaceira das calmarias ; parado , bradando de ver o mar da vida marulhar à toa . A sedução intelectual me remedia um pouco. Amor , uma doida já disse : é carne feito espírito. "
Este ser irrequieto, múltiplo, polêmico , e extremamente criativo, travou e venceu inúmeras batalhas pela vida afora : a favor dos índios, pela educação formal , pela reforma agrária e contra a Ditadura. A sua pior e mais perversa contenda durou 20 anos , contra um câncer.
" Eu não tenho medo da morte . A morte é apagar - se , como apagar a luz . Presente , passado e futuro ? Tolice . Não existem . A vida vai construindo e destruindo . O que vai ficando para trás com o passado, é a morte. O que está vivo vai adiante . Detestaria estar no lugar de quem me venceu ! ".
" Termino esta minha vida já exausto de viver , mas quanto mais vida , mais amor , mais saber , mais travessuras " .
Ponto Final !

sábado, 14 de março de 2026

 O Medo

Medo , o grande mal do nosso século, este sentimento cruel que prende o indefeso ser humano em suas garras , nas suas entranhas , numa prisão escura que apavora . Há o medo do tempo do ontem ( porão de coisas velhas ) , e do medo do amanhã ( da certeza da finitude ); o medo do outro , aquele desconhecido que perambula na rua de nossa mente ; o medo da solidão, mesmo sabendo que ninguém nasceu para viver só, pois nenhum é uma ilha .
Apenas a partida definitiva faz - se sem companhia; o medo da violência urbana , com sua presença incômoda e , o pior de todos os medos , o atroz medo de amar :
" Amor é fogo que arde sem se ver / é ferida que dói, e não se sente / é um contentamento descontente / é dor que desatina sem se doer / é um não querer mais que bem querer / é um andar solitário entre as gentes / é nunca contentar - se de contente / é um cuidar que ganha em se perder/ é querer estar preso por vontade / é servir a quem vence , o vencedor / é ter com quem nos mata , lealdade / mas como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade/ se tão contrário a si é o mesmo amor ? " . Luiz Vaz de Camões.
" Eu tenho medo e medo está por fora / o medo anda por dentro do teu coração/ eu tenho medo de que chegue a hora/ em que eu precise entrar no avião/ eu tenho medo de abrir a porta / que dá pro sertão da minha solidão/ apertar o botão: cidade morta / placa torta indicando a contramão/ faça de ponta e meu punhal que corta / e o fantasma escondido no porão / medo, medo , medo , medo , medo , medo / eu tenho medo de Belo Horizonte/ eu tenho medo de Minas Gerais / eu tenho medo de Natal , Vitória/ eu tenho medo Goiânia, Goiás/ eu tenho medo Salvador , Bahia/ eu tenho medo medo Belém, Belém do Pará/ eu tenho um Rio , um Porto Alegre , um Recife / eu tenho medo Paraíba, medo Paranaguá/ eu tenho medo Estrela do Norte , paixão, medo é certeza / medo Fortaleza , medo Ceará/ medo vir / morre o meu medo e isto não é segredo/ eu mando buscar outro lá no Piauí/ medo, meu boi morreu , o que será de mim / mando buscar outro maninha no Piauí " /
A . C . Belchior .
" Amor é fogo que arde sem se ver / é ferida que dói, e não se sente / é um contentamento descontente / é dor que desatina sem doer / é um não querer mais que bem querer/ é um andar solitário entre as gentes / é nunca contentar - se de contente / é um cuidar que ganha em se perder/ é querer estar preso por vontade / é servir a quem vence , o vencedor/ é ter com quem nos mata , lealdade / mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade / se tão contrário a si é o mesmo amor? / .
Luiz Vaz de Camões.
Foto de Lobo Uivando Na Lua Cheia À Noite e mais fotos de stock de ...

segunda-feira, 9 de março de 2026

 Rosalind Franklin - Mãe do DNA

Rosalind Franklin, nasceu em Londres em 1920 , no seio de uma família judaica. Desde cedo manifestou manifestou tendência para o estudo da ciência. Seu genitor, no entanto não aprovava que ela cursasse sequer uma universidade . Ela fez ouvido de mercador , resoluta , e obteve o doutorado em Físico - Química na Cambridge University. No início dos anos 1950 , Rosalind , junto com uma equipe de pesquisadores do King's College Medical Research Council trabalhou no estudo da estrutura do DNA. Rosalind capturou a famosa foto que provou que o DNA é uma dupla hélice .
James Watson e Francis Crick , cientistas , também estavam estudando o DNA , e , sem permissão, copiaram o trabalho de Rosalind Franklin , e lançaram, sem dar nenhum crédito à mesma . James Watson e Francis Crick receberam o Prêmio Nobel , injustamente .
Rosalind Franklin, foi , de forma grotesca , qualificada como " a dama sombria " , e " a mãe injustiçada do DNA " .
Rosalind Franklin foi diagnosticada com um câncer terminal , provavelmente causado pela radiação recebida em sua labuta diária com os raios X .Em 1958 , com apenas 37 anos , falece Rosalind Franklin , que defendia que " A ciência e a vida cotidiana não podem e não devem ser separadas " .
Uma injustiça histórica !

domingo, 8 de março de 2026

 Gastão Justa : Poeta e Jornalista

Nasceu em Fortaleza , no dia 01de julho de 1899 , filho de Joaquim Gonçalves da Justa e Maria Pereira da Justa. Cursou várias escolas e colégios particulares . Muito cedo ingressou no jornalismo, na área política, onde publicava crônicas , contos e poesias . Pertenceu à Academia Cearense de Letras , Cadeira 24 , cujo Patrono é Livio Barreto . Faleceu em 10 de dezembro de 1969, aos 71 anos de idade .
" Meditação "
Linda montanha a vida . Na subida ,
É tudo sonho e luz , tudo aurora .
Depois o sonho passa, não demora .
E a dor nos acompanha na descida .
Mas não se foge ao sonho , que minora
Um pouco as aflições da alma dorida.
Todos sofremos nesta humana lida ,
De minuto em minuto, de hora em hora .
Uns sofrem menos, outros mais , segundo
O bem que praticaram neste mundo
Ou ainda o mal que poderão causar .
Sobe . Porém, cuidado na descida
O mal nunca se encontra na subida ,
Mas , lá do alto , infeliz de quem rolar ..." .
" A Roseira e a Vida "
No meu jardim ,
Plantei um dia
Uma roseira .
Cresceu , cresceu ,
E floresceu .
Deu lindas rosas ,
As mais viçosas
E perfumosas
Do meu jardim .
Toda manhã,
Eu ia vê - la.
Sempre louçã ,
E graciosa
Como se fosse
Uma mulher ,
Que se enfeitasse ,
Que se alindasse,
Para me ver .
Eu adorava ,
Esta roseira .
Pois , dentre as mais ,
Era a primeira
Do meu jardim .
Ao sol e à chuva ,
E ao vento forte ,
Não se dobrava
Seu lindo porte .
Porém um dia ,
Não sei por que,
Ela murchou
E feneceu .
Tudo secou:
Galhos e folhas,
Brotos e rosas.
E o meu jardim
Se entristeceu.
Assim a vida ,
Passa tão breve ,
Que nem se sente
Quando ela passa .
Tudo que nasce ,
E vive e cresce ,
Terá seu fim,
Como a roseira
Do meu jardim .
" Viver "
" Enche o teu copo e bebe o que puderes .
Faze da vida um mundo de harmonias.
Ama também, e usa das mulheres
Como se fossem taças de ambrosias.
Na sucessão das noites e dos dias ,
Gasta tudo do pouco que tiveres.
E em vez do vale amargo de agonias ,
Faze da vida um vale de prazeres.
Além da morte, que de estranho existe ?
Talvez um mundo desolado e triste ,
Um astro morto como a própria lua .
Goza da vida o efêmero momento.
Quem morre , passa , como passa o vento ,
Não torna mais . E a vida continua ... "
" Da Antologia Cearense " , organizada pela Academia Cearense de Letras, Fortaleza - 1957 .