segunda-feira, 4 de setembro de 2017

EM MINHA CASA DE PRAIA.

Em minha casa de praia , agora à tardinha com a rede a balouçar na varanda sob o trinado de uma rolinha caldo-de- feijão num ninho acima de minha cabeça.
" Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim , por exemplo,tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou : tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam " ( Manoel de Barros - 1916- 2014 ).
" A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitem como sou - eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc etc. Perdoai , mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas " ( Manoel de Barros - 1916- 2014).


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O MILAGRE DIÁRIO DA VIDA




Num hospital na área central de Fortaleza, no ano de 1974, um jovem esculápio acolhe uma paciente de 25 anos de idade, com um volumoso tumor abdominal. Escalado para participar da cirurgia como auxiliar, o novel doutor viu pela vez primeira um cancro corroer as entranhas de um pobre ser humano. Além de um gelatinoso tumor ocupando ambos os ovários, foram removidos na ocasião, o útero e partes do intestino da infeliz criatura. Nos meses seguintes o jovem médico cobriu com um amor franciscano o dia-a-dia daquela cliente. Um acompanhante que se apresentava como namorado da jovem, sempre manifestava sua tristeza em ter que levar para o túmulo aquela gentil paciente que definhava a olhos vistos.

Decorridos cerca de 40 anos dos tais acontecimentos acima relatados, em pleno Parque do Cocó, em Fortaleza, uma dama de cabelos banhados em prata e com o rosto vincado pelo rigor dos tempos, contudo, ainda bela, colorida pelos raios do sol, avista um senhor idoso, recurvado, colhendo fotos de arbustos. Era o reencontro da antiga paciente do cancro com o outrora jovem filho de Hipócrates. Depois de dois minutos de um choro baixinho e cálido que parecia uma eternidade, o velho casal de amigos logo se recompõe. Aquela bela flor outonal relata que o tal namorado da época sumira no oco do mundo. Ela em paz, hoje usufrui do licor da vida ao lado de seus três mimosos filhos: um gato, um pequinês e um papagaio.

E na ocasião, o pobre doutor, tira onda, com um sorriso quase infantil, de seus inúmeros tombos e de seguidas ” mortes diárias”, tomando emprestado a voz de um amigo que há pouco sumiu:
 ”-  É, o ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”
O nome disso é felicidade, meu Deus!


“Eu saúdo a vida, que é como semente germinada,
Com um braço que se eleva no ar
E outro sepultado no chão.
A vida que é una, em sua forma externa e em sua seiva interior;
A vida que sempre aparece e desparece.
Eu saúdo a vida que vem e a vida que passa.
Eu saúdo a vida que se revela e a que se oculta.
Eu saúdo a vida em suspenso, imóvel como uma montanha,
E a vida do enraivecido mar de fogo;
A vida, tão terna como o lótus e tão cruel como a centelha.
Eu saúdo a vida da mente, que tem um lado na sombra
E outro lado na luz.
Eu saúdo a vida da casa e a vida de fora, no desconhecido;
A vida repleta de prazeres e a vida esmagada por pesares;
A vida eternamente patética, que agita o mundo para aquietá-lo;
A vida profunda e silenciosa que explode em fragorosas ondas “

Poema escrito por uma poetisa da Índia medieval e citado pelo divino Rabindranath Tagore (1861- 1941) em “ Meditações”.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

O SAMBA DO CRIOULO DOIDO – VERSÃO 2017



Brasíndia levita esta semana atípica por conta da temerosa revoada de vetustos senhores palacianos rumo a um turismo de longo calibre na China Comunista. Assume, por aqui, temporariamente, o trono real, um fantoche com cara de bebê e cheio de mugangos. Na câmara alta, as dezenas de ratazanas encontram-se em êxtase com a escolha de um clone do presidente interino, em meio a “ fufucas”, digo, fofocas, alguém recém-saído dos cueiros nortistas direto para comandar a Casa de Mãe-Joana planaltina. E Brasíndia, morrendo e resistindo, resistindo e morrendo!

Saudades de Stanislaw Ponte Preta (1923- 1968): jornalista, escritor, radialista, teatrólogo, humorista, publicitário e bancário carioca. Uma lembrança de seu antológico “Samba do Crioulo Doido “:

“ Foi em Diamantina/onde nasceu JK/que a Princesa Leopoldina/arresolveu se casar/mas Chica da Silva/tinha outros pretendentes/e obrigou a princesa/a se casar com Tiradentes/lá ai lá iá lá iá/o bode que deu vou te contar/Joaquim José/que também é/da Silva Xavier/queria ser dono do mundo/e se elegeu Pedro II/das estradas de Minas/seguiu pra São Paulo/e falou pra Anchieta/o vigário dos índios/aliou-se a D. Pedro/ e acabou com a falseta/da união deles dois/ficou resolvida a questão/e foi proclamada a escravidão/assim se conta essa história/que é dos dois a maior glória/Dona Leopoldina virou trem/e D. Pedro é uma estação também/ô ô ô ô ô/o trem tá atrasado ou já passou”
Fim !





segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O por do sol , hoje no Porto das Dunas, curtindo a doce companhia de Arthur Rimbaud (1854-1891):

" Ela foi encontrada! /quem? A eternidade /é o mar misturado ao sol/minha alma imortal/cumpre a tua jura/seja o sol estival / ou a noite pura/pois tu me liberas/das humanas quimeras /dos anseios vãos !/tu voas então /-jamais a esperança /sem movimento /ciência e paciência /o suplício é lento /que venha a manhã /com brasas de Satã /o dever/é vosso ardor/ela foi encontrada! /quem ? A eternidade/ é o mar misturado/ ao sol".




sábado, 26 de agosto de 2017

STEPHEN HAWKING E O MISTÉRIO MAIOR


ÀS ROSAS QUE ENFEITAM O JARDIM DA EXISTÊNCIA HUMANA



Em 2012, ao completar 70 anos, o físico teórico, matemático e cosmólogo britânico, Stephen Hawking respondendo a uma indagação sobre qual o maior mistério do universo, mandou ver um petardo certeiro:
“ As mulheres! Elas são para mim um completo mistério “. Não é pouco para quem lidou a vida inteira com enigmas gigantescos da ciência, como a criação do universo através do" Big - Bang ", os discutíveis “ Buracos Negros “ e a "Teoria do Tudo “, aquela que apresenta os fenômenos físicos do universo unificados sob um único padrão matemático. Acrescente-se a peleja duradoura que ele trava com uma impertinente e paralisante enfermidade, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
Stephen William Hawking nasceu no dia 8 de janeiro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, exatos 300 anos após a morte do gigante Galileu Galilei (1564 – 1642). Seu pai, Frank, era médico, e sua mãe, Isabel, secretária, moravam em Londres. O garoto nasceu em Oxford sob a proteção de um acordo de guerra entre ingleses e alemães, para que não houvesse bombardeios entre Heidelberg e Gottingen na Alemanha, e Cambridge e Oxford na Inglaterra. Stephen teve outros três irmãos: Phillipa, Mary e Edward, este último, adotivo. Sua infância transcorreu tranquila num ambiente de muita liberdade e com troca rica de conhecimentos. Stephen mostrou- se um aluno mediano até a adolescência quando passou a ser conhecido como
“Einstein“, talvez por sua bizarra aparência. Nos últimos anos escolares o jovem passou a despertar vivo interesse em física e matemática, que considerava matérias fáceis em demasia e por conta disso, chatas.

17 anos ingressou na Universidade de Oxford para um curso de física. Em 1962 chegou a Cambridge como estudante de pós-graduação em física para trabalhar com Fred Hoyle, o mais importante astrônomo inglês da época. Aos 21 anos de idade Stephen foi diagnosticado com uma séria doença degenerativa progressiva, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), de prognóstico sombrio. Por essa época conheceu Jane Wilde, sua futura esposa e uma brava guerreira. Em julho de 1965 por ocasião de seu casamento, a insidiosa doença paralisava boa parte de seu frágil corpo. A despeito de tudo, casal gerou três filhos: Robert, Lucy e Tim. Quando do nascimento deste último, Jane desencadeou um grave e duradouro quadro de depressão, por conta, talvez, de excessiva atividade laboral. Neste horizonte surge a figura de Jonathan, um músico e organista de uma igreja local, que entrou na vida do casal Stephen e Jane, inicialmente, apenas como um terapeuta. Seguiram – se momentos de turbulência que culminaram com o fim do casamento de Stephen e Jane em 1990.

Despontou na ocasião, Elaine Mason, uma enfermeira, mãe de dois filhos, esposa de um especialista em computação responsável pela elaboração de um programa para devolver a voz a Stephen. Em 1995, Elaine e Stephen contraíram matrimônio, e nove meses depois foi a vez de Jane e Jonathan fazerem o mesmo. Segundo as próprias palavras de Stephen, seu casamento com Elaine foi um evento apaixonado e tempestuoso, cheio de altos e baixos. Sabe –se, contudo, que essa sua companheira livrou- o da morte em mais de uma ocasião.

Em 2004, Stephen apresentou claros sinais de maus–tratos como escoriações no rosto e fraturas diversas espalhadas pelo corpo. No hospital onde buscou atendimento, em atitude estoica, Stephen isentou qualquer pessoa desta triste ocorrência. Em 2007 deu- se o divórcio com Elaine e a partir de então o bravo cientista passa a morar sozinho na companhia de uma governanta. O genial Stephen ora permanece casado fielmente, até que a morte os separe, com as musas cosmologia e física, numa bigamia salutar, autêntica e permitida, sem risco algum previsível de ruptura, seja a médio ou longo prazo desta pungente situação. Considerado o maior cientista vivo do planeta, não sem controvérsia, há que se convir, faz companhia a gigantes como, Isaac Newton, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e Albert Einstein. Stephen leva uma vida quase plena, posto que, a doença embora cause bloqueio de seus movimentos corporais, mantém íntegro o funcionamento do seu privilegiado cérebro. Ele acredita que as pessoas com deficiências devem se concentrar nas coisas que a desvantagem não as impede de fazer, e não lamentar as que são incapazes de realizar. Ateu confesso, Stephen defende a ideia de que o universo não foi criado, nem será nunca destruído: ele apenas é. Aceita o benefício da morte assistida e não crê em vida pós–morte.

Acredito eu, piamente, que não será com a retirada, pétala- a- pétala de uma mimosa flor que se irá descobrir o segredo da fragrância de uma rosa. Basta vivenciar o êxtase de ficar igual a uma criança diante de um bondoso Deus: embevecido, contrito e.... pronto. Pode estar aí o segredo inviolável da paixão pela mulher. Estas olorosas flores que ornamentam nossas vidas, mimosas, meigas, férteis e envoltas em mistérios profundos, constituem, sem medo de errar, o sal da vida. Sem elas, cabe afirmar, quase nada pode ser feito!
Segue um conselho a ser observado àquele que se preza, se dando bem e mostrando juízo neste mister:

“ Nada mais contraditório que ser mulher! Mulher que pensa com o coração, atua pela emoção e que vence pelo amor... que vive um milhão de emoções em um só dia, e transmite cada uma delas com uma só mirada ... que vive buscando a perfeição e segue tratando de descobrir desculpas para os erros daqueles a quem ama ... que hospeda no ventre outras almas, dá a luz e depois fica cega, diante da beleza dos filhos que engendrou ....que dá as asas e ensina a voar, porém, não quer ver a partida dos pássaros, ainda que sabendo que eles não lhe pertencem ... que se enfeita toda e perfuma o casto leito, ainda que seu amor não perceba mais esses detalhes ... que como uma feiticeira transforma em luz e sorriso as dores que sente na alma, só para que ninguém o perceba... e ainda arrebanha forças, para dar consolo a quem se acerca a chorar em seu cálido ombro ...
Feliz o homem que, tão somente por um dia, saiba entender a alma da mulher! “ .
Aleluia!


Empreendeu viagem rumo a poeira das estrelas no dia 14 de março de 2018 , Stephen Hawking. Uma grande perda para a humanidade!


Duas tragédias anunciadas


Em Brasindia consumou-se há pouco, novamente, duas esperadas tragédias n' água , frutos da irresponsabilidade do atual desgoverno , que tem um olhar protetor, apenas, para as graúdas ratazanas planaltinas. Aos " vidas de gado, povo marcado, povo in-feliz" , restam serem amparados no regaço definitivo de Iemanjá ( na Bahia) e Oxum ( no Pará ). E nenhuma palavra de consolo de autoridades do governo nem dos responsáveis pelas empresas de transportes.

" Não sou eu quem me navega/quem me navega é o mar/é ele quem me carrega/como nem fosse levar/e quanto mais remo mais rezo/pra nunca mais acabar/ essa viagem que faz/ o mar em torno do mar/meu velho um dia falou/ com seu jeito de avisar:/-olha o mar não tem cabelos onde se possa agarrar /timoneiro nunca fui/ que eu não sou de velejar /o leme da minha vida/Deus é quem faz governar /e quando alguém me pergunta/ como se faz pra nadar/explico que eu não navego/ quem me navega é o mar/a rede do meu destino /parece a de um pescador/quando retorna vazia /vem carregada de dor/vivo num redemoinho /Deus bem sabe o que ele faz/a onda que me carrega/ ela mesma é quem me traz"
Timoneiro, de Paulinho da Viola .

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O CASO DA MATERNIDADE




Decorridos dezoito horas de vigoroso trabalho de parto, uma gestante de primeiro filho, exausta, pede misericórdia ao plantonista da maternidade que a assiste. Após o parteiro verificar a dilatação completa do colo uterino da parturiente, constata com a ajuda de um tosco estetoscópio de Pinard, uma redução dos batimentos cardíacos do concepto, sugerindo sofrimento fetal agudo. Incontinenti, o profissional indica a aplicação de um fórcipe, instrumento que representa o prolongamento das mãos do obstetra. Não insiste, após infrutíferas tentativas de resolução do parto. Desiste e pede socorro ao diretor clínico da maternidade.

Faz-se outra tentativa de extração fetal com o uso do fórcipe, agora, pelas mãos de um dos maiores nomes da obstetrícia brasileira. Novo malogro. Neste ponto os batimentos cardíacos fetais tornaram- se inaudíveis. Uma tragédia, pronto se desenhou: óbito fetal ocorrido no transe do parto.

O experiente parteiro indicou, na sequência, uma craniotomia – a perfuração do polo cefálico para esvaziamento de seu conteúdo -  e uma cranioclasia – a redução brusca e tração do polo cefálico do concepto sem vida -. Uma vez mais, o parto não se concluiu. Configurou-se, desse modo, um caso de obstrução do parto por desproporção céfalo-pélvica.

Realizou-se, por fim, uma cesárea de urgência que culminou com a morte da infeliz parturiente. Uma dupla e dolorosa tragédia, mãe e filho, silenciosa e tristemente, sucumbiram juntos.

Local do acontecimento: uma maternidade no Rio de Janeiro.
Ano do ocorrido: 1917.

Protagonista médico da tragédia: Dr. Fernando Magalhães (1878-1944), à época, o maior nome da obstetrícia brasileira. O caso teve desdobramento policial e uma ampla repercussão na mídia jornalística.

Nenhum obstetra encontra-se imune a uma catástrofe desta natureza, mesmo nos dias atuais, contando com um verdadeiro aparato tecnológico. O trajeto normalmente percorrido pelo parteiro faz-se equilibrando numa tênue corda sobre um abismo, a

balouçar ao sabor dos ventos e das intempéries. Num passe de mágica, pode descer o parteiro das alturas de onde escrutina as planícies e, sem escala, cair reto num infernal despenhadeiro.

Assim se expressa, Fernando Magalhães, dando fecho ao seu primoroso livro “ Lições de Clínica Obstétrica “, lançado no mercado em 1917, há uma centúria, portanto , e hoje uma raridade bibliográfica:

“ Na prática que vos espera há muito de imprevisto e de doloroso, tantas vezes vos aproximareis do irremediável, que é preciso evitá-lo. Isto só se consegue obedecendo ao mandamento – non vis sed arte - (a arte ao invés da força). Pela força é que se chega às grandes tragédias clínicas, onde tudo desaparece, a existência do feto, a vida da parturiente e a boa fama do profissional “.

Assim mesmo, entusiasma, comove e conforta, nos dias de hoje, assistir uma gente jovem e bonita, egressa dos bancos da faculdade de medicina buscando aperfeiçoamento na área de partejar criaturas filhas de Deus, postando-se a seu lado em todo percurso da gravidez, parto e puerpério.