sábado, 7 de novembro de 2015

UMA LÁGRIMA SENTIDA POR UMA TRAGÉDIA HUMANA

O fim de ano já anda batendo de leve em meu ombro com o seu bafio morno. Retiro de minha surrada mochila às costas:  “ pedaladas “, “ coxinhas “, “ zelites “, “ deslizamentos de terras “ , “ incompreensões “ e “ queixumes “ de um aziago 2015 .  Desejo no momento, somente, dois dedos de prosa ou poesia com um mago lusitano, enquanto apanho uma teimosa lágrima com o dorso da mão.
Segue “ Li hoje quase duas páginas“ , um poema de Fernando Pessoa ( 1888 – 1935 ) :
“ Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não
Eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios,
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza “

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

ROBERTO  CAMPOS : UMA INTELIGÊNCIA QUE FAZ MUITA FALTA

Economista , diplomata  , professor , escritor e político brasileiro nascido  em 1917  , filho de Waldomiro Campos e Honorina de Campos . Intelectual de vanguarda  , ferino , arguto , uma inteligência que faz falta hoje num Brasil apático , anêmico e pobre , chafurdando na lama , mostrando riqueza , apenas , em líderes nanicos de esquerda ou de direita , tanto faz .
Graduado em Filosofia ( 1934 ) e em Teologia ( 1937 ) nos Seminários Católicos em Guaxupé e Belo Horizonte . Ingressou através de concurso público no Serviço Diplomático Brasileiro (1939)  e serviu inicialmente em Washington e depois em Londres  . Realizou mestrado e doutorado nas Universidades de Washington (1945) e Columbia (1949 ) . Ficou desde cedo , pronto e acabado , para digladiar , a torto e a direito, em defesa de seus ideais em qualquer hora ou lugar . Fez pouso na política partidária como Deputado Federal , Senador da República e Ministro de Estado . Pertenceu aos quadros da Academia Brasileira de Letras .
Roberto Campos ou “ Bob Fields “ lançou no ano de 1994 uma autobiografia intitulada “  A Lanterna na Popa “ um calhamaço de 1417 páginas que logo se tornou um clássico , para desespero de seus oponentes .
Faleceu no dia 19 de setembro de 2001 por complicações resultantes de um quadro de diabetes melito , aquele que foi um defensor incondicional das liberdades democráticas e da livre iniciativa  durante uma vida inteira .
Um estilista mordaz na tessitura de frases de efeito lembrando o estilo de um Nelson Rodrigues de fraque e cartola. Constituem pérolas de sua lavra :
“ A primeira coisa a fazer no Brasil é abandonarmos a chupeta das utopias em favor da bigorna do realismo “
“ Os comunistas brasileiros têm razão ao dizer que não é verdade que comam criancinhas. No socialismo real, a preferência é por matar adultos “
“ Cometi o único pecado que a política não perdoa: dizer a verdade antes do tempo “
“ Mais importante que as riquezas naturais são as riquezas artificiais da educação e tecnologia“
“ Os dois marcadores gêmeos, o comunismo e o nazismo , têm vocação genocida . Naquele o genocídio de classe; neste o genocídio de raça “
“ No Brasil,  a res publica é cosa nostra “
“ Ridículo não mata porque se matasse não precisaríamos de anticoncepcionais e estaríamos hoje com uma população saudavelmente menor “
“ Fui um bom profeta, pelo menos melhor que Marx . Ele previra o colapso do capitalismo; eu previ o contrário, o fracasso do socialismo “
“ É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: adoram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar: bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês . Trata- se de filhos de Marx numa transa adúltera com a coca – cola “
“ O socialismo é o Evangelho da inveja, o credo da ignorância e a dádiva do fracasso “
E a última e impagável:
“  O PT é o partido dos trabalhadores que não trabalham , dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam “
Ponto final !




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

PARACELSO , ERLICH E KELSEY

"Todas as substâncias são venenos , não existindo nada que não seja veneno , somente a dose diferencia o veneno do remédio “ . Paracelso ( 1493 – 1591 ) .
Já vem de longe a ideia de que constitui a missão do médico : curar algumas vezes , aliviar frequentemente e consolar sempre , ou trocando em miúdos , velar pela saúde e o bem – estar dos indivíduos .
Desde priscas eras o homem se utilizava de ervas, poções várias oriundas da mãe – natureza com fins de debelar doenças . Apenas recentemente, surgiram as famigeradas “ Balas Mágicas “ de Paul Erlich ( 1854 – 1915 ) , um pioneiro da quimioterapia , com a invenção do remédio “ salvarsan “ para o tratamento da sífilis . Desastres aconteceram na produção de fármacos a nos mostrar a necessidade de se impor rigorosos estudos antes da liberação de tais produtos em seres humanos . Um exemplo : a “ Talidomida “ . Sintetizada em 1954 na Alemanha e lançada às pressas no mercado com o nome de “ Contergan “ . Tal fármaco foi distribuído em cerca de 50 países como um seguro sedativo . Não era ! . Milhares de crianças vieram ao mundo com múltiplas anomalias , como membros curtos ( focomelia ) , alterações nas orelhas e distúrbios vários em múltiplos aparelhos ( digestório , cardíaco e neurológico ) , pelo uso indevido da talidomida no curso da gravidez .
Frances Oldham Kelsey ( 1914 – 2015 ) , uma farmacologista , de forma estoica , resistiu às pressões para que o órgão a que servia  (  FDA ) , que regula os alimentos e drogas , liberasse a talidomida nos Estados Unidos da América . Assim , livrou aquele país do desastre de tal medicamento e por conta disto foi condecorada pelo presidente de então , John F. Kennedy pela sua heroica postura .
O Brasil assiste neste turbulento ano de 2015 , entre atônito e constrangido , uma querela por conta da liberação de uma substância química ( fosfoetanolamina ) , a dita “ pílula do câncer “  produzida por uma universidade brasileira ( USP ) .
Tal produto teria uma hipotética ação benéfica no combate ao câncer em humanos. Liberada através de liminar judicial a fosfoetanolamina não possui bula ( um absurdo ) , não se encontra regularizada em órgão oficial de saúde pública ( outro absurdo ) , nem possui estudos científicos que ajuízem a importância de tal fármaco ( mais um absurdo ) .
Não há como esquecer as figuras de Paracelso ( remédio x veneno ) , Paul Erlich ( balas mágicas ) e Frances O . Kelsey ( proscrição da talidomida ) diante de tal imbróglio .
Que país é este , meus senhores ? : cuidado e caldo de galinha não fazem mal a ninguém , ou a pressa é inimiga da perfeição ! .



sábado, 24 de outubro de 2015

AMORES OUTONAIS
Para uma fada de verdade : Lina

“ Este seu olhar / quando encontra o meu / fala de uma coisa / que eu não posso acreditar / doce é sonhar, é pensar que você / gosta de mim como eu de você / mas a ilusão quando se desfaz / dói no coração de quem sonhou  , sonhou demais / ah! se eu pudesse entender / o que dizem os seus olhos “ .    Este Seu Olhar ,  de Tom Jobim .
O filósofo, psicanalista , cronista  e poeta octogenário , cumpriu a contento mais uma concorrida conferência . Na primeira fila da plateia , uma bela balzaquiana trocara olhares faiscantes com o palestrante em pauta . Dali nasceu um inesperado convite para um romântico jantar sob a luz de candelabros . O outonal amante caprichou na brilhantina para segurar os parcos fios de prata restantes na alva cabeça  , solfejando baixinho , no prematuro gozo das delícias esperadas da iniciante noite :
“ Meus cabelos cor- de – prata / são beijos de serenata / que a lua mandou pra mim / os meus cabelos grisalhos / são pingos brancos de orvalho / num tinteiro de nanquim / estes meus cabelos brancos / que hoje são da cor dos bancos /solitários de um jardim / já sentiram muitos segredos / que elas contavam pra mim / se hoje , estão já desbotados / é porque foram beijados / com muito amor e emoção / e os beijos foram tão puros / que os meus cabelos escuros  / estão da cor do algodão /  eu fiz tanta serenata / que a lua , desfeita em prata / mandou mil beijos pra mim / e os beijos foram tão puros / que os meus cabelos escuros / ficaram brancos ..  assim ! “ .       Cabelos Cor de Prata ,  de Rogaciano Leite .
O filósofo fagueiro cedo chegou ao restaurante , ansioso para o grande prelúdio de logo mais . No horário combinado desponta em pura luz aquela beleza altiva parecendo uma fada com direito a varinha de condão e tudo mais . Ao fazer menção para se erguer da cadeira o provecto galã foi contido num segundo pela prudente dama :
“ – Não , não , cuidado para não se machucar . Não vá cair , vôzinho ! “ . Pronto . Foi uma ducha de água fria no ardente mancebo .  Acabou ali  , de chofre , o sonho de uma noite de verão.  
“ Se queres saber / se eu te amo ainda / procura entender / a minha mágoa infinda / olha bem nos meus olhos / quando eu falo contigo /e vê quanta coisa / eles dizem que eu não digo /  o olhar de quem ama diz / o que o coração não quer / nunca mais eu serei feliz / enquanto vida eu tiver “ .       Se Queres Saber , de Peterpan .

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

UM COMPOSITOR / POETA (QUASE) ESQUECIDO

“ E então eu fiz um bem / dos males que passei / fiz do amor uma saudade de você / e nunca mais amei / deixei nos olhos teus / meu último olhar / e ao bem do amor /eu disse adeus / caminho o meu caminho / e nos lugares que passei/ as pedras do caminho / são o pranto que chorei / escondo em minhas mãos / carinhos que eram teus / e guardo tua voz / no poema do adeus” .           Poema do Adeus  , de Luiz Antônio .
“ Você errou quando olhou pra mim / uma esperança fez nascer em mim/ depois levou pra tão longe de nós / seu olhar no meu , a sua voz / você deixou , sem querer deixar / uma saudade enorme em seu lugar / depois nós dois , cada qual a mercê do seu destino / você sem mim , eu sem você / saudade ,  meu moleque de recado / não diga que eu me encontro neste estado ! /    
Recado  , de Luiz Antônio .
Antônio de Pádua Vieira da Costa , ou melhor , Luiz Antônio , veio ao mundo no dia 16 de abril de 1921 ,  no estado do Rio de Janeiro  , onde faleceu no dia 1° de dezembro de 1996 . Conhecido também como Coronel ou Negro Antônio , era um boêmio e flamenguista , compositor de vários sucessos da Música Popular Brasileira . Entre seus inúmeros parceiros destacam – se : Djalma Ferreira ( o mais fiel de todos ) , Jota Junior , Klecius Caldas e Oldemar Magalhães .
Estudou no Colégio Militar e na Escola Militar de Realengo e seguiu carreira , onde  conheceu alguns compositores de farda que tornaram – se seus parceiros . Miltinho , Helena de Lima , Maysa , Dóris Monteiro , Elizeth Cardoso , Linda Batista ,Elza Soares , Marlene , Cauby Peixoto , formaram um  seleto time de cantores que  ajudaram na difusão  das muitas composições de Luiz Antônio .
“ Você mulher / que já viveu / que já sofreu / não minta / um triste adeus / nos olhos seus / a gente vê / mulher de trinta / no meu olhar / na minha voz / um novo mundo sinta / é bom sonhar / sonhemos nós / eu e você / mulher de trinta / o amanhã sempre vem / e o amanhã pode trazer alguém “ .    Mulher de Trinta ,  de Luiz Antônio .
“ Vai barracão , pendurado no morro / e pedindo socorro , a cidade a seus pés / vai barracão , tua voz eu escuto  / não te esqueço um minuto / porque sei que tu és / barracão de zinco , tradição do meu país / barracão de zinco , pobre és tão infeliz “  .       Barracão  , de Luiz Antônio
Luiz Antônio guardou sua biografia de uma vida gloriosa de 75 anos, na mais completa discrição , longe dos holofotes e das fofocas  . Suas belas composições musicais , estas sim ,  marcarão presença  no panteão reservado aos  grandes nomes da Música Popular Brasileira .



domingo, 18 de outubro de 2015

DIA DO MÉDICO 2015

Presume – se que tenhas uma generosa e pura   alma  , caro irmão de jaleco branco . Que carregues no âmago de teu peito um franciscano amor a teus semelhantes . Que te acostumes a viver as  madrugadas às claras , enquanto embalas o sono da humanidade . Que aprendas a segurar o choro e a inquietação diante da indesejada das gentes e dos demais dramas da vida . Saiba que não terás as prerrogativas de adoecer nem de amolecer o teu cansado e machucado coração .  Apiedo – me de ti quando brotam de teus olhos , furtivas  e incômodas lágrimas diante do sofrimento  de teu senhor , o nobre paciente em apuros  .
Lembra –te , contudo ,  de que homem que é homem  não chora e assim sendo , engula o choro !
Por favor  , não conte com agrados ou favores  extras . Alguém , em algum momento crítico lhe jogará ao colo a impertinente pergunta  :  “ – Doutor , cadê o teu  juramento de Hipócrates ? “ .
Cabe salientar que o venerando Pai da Medicina nunca  procurou endeusar  a simples  figura daquele que apenas  peleja pela saúde de seus semelhantes  .
Caso  , mesmo tomando conhecimento  de todos estes óbices , tu , irmão de branco , segue em frente com tua dura jornada de três turnos : parabéns ! , e saiba que , humildemente , sigo a teu lado , para o que der e vier .

Que Deus te ilumine e guarde , meu querido irmão , hoje e sempre . Feliz Dia do  Médico !

quarta-feira, 14 de outubro de 2015


SOBRE GATOS  , BOIS E O  BICHO – HOMEM

Choveram  gatos sobre a Ilha de Bornéu no ano de 1960 , caindo de para- quedas sob a orientação de uma entidade mundial de saúde pública ( OMS ) . A finalidade última era repovoar aquele pedaço de chão  , em franco desequilíbrio após a devastação provocada pelo defensivo agrícola DDT . Outrora ali os felinos comiam as lagartixas  , que comiam as baratas , que comiam as vespas , que comiam os mosquitos . Entra no cenário o bicho – homem com sua empáfia e o malsucedido  DDT numa esdrúxula e fatal   combinação .

Esta triste história faz parte do acervo do mago  escritor uruguaio Eduardo Galeano ( 1940 – 2015 ) .

No bucólico e paradisíaco Estado do Pará  , em nosso Brasil lindo e trigueiro , em pleno ano de 2015 , um navio vai a pique levando cerca de cinco mil pobres bovinos à morte . Uma empresa de alimentos  proprietária dos animais , que leva o nome de uma das deusas gregas ( Minerva ) , passou a responsabilidade para quem fazia  o transporte marítimo daquelas criaturas .

Quanto ao destino triste destes   bovinos , a morte ,  nenhuma lágrima sequer dos humanos , a não ser do Irmão São Francisco , que a  estas horas nunca falta .  Mais uma tragédia anunciada a se consumar neste  mundo , bem  à  nossa vista  .