domingo, 4 de abril de 2021

 Gregório de Matos - Boca do Inferno

Gregório de Matos ( 1633 - 1696 ) representa o maior poeta barroco brasileiro e um dos precursores da poesia lírica e satírica em nosso país. Nasce em Salvador - Bahia , de família abastada, proprietária de engenho. Estuda no Colégio dos Jesuítas e segue para cursar Direito em Coimbra.
Retorna ao Brasil em 1681 e recebe o cargo de vigário geral. Por recusar vestir - se como clérigo, é destituído em 1683. Casa - se com a Sra. Maria dos Povos e segue como cantador itinerante pelo Recôncavo baiano. Produz poemas irreverentes que chocam a todos , e daí recebe o apelido de Boca do Inferno.
"Que falta nesta cidade ?... Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha ? ... Vergonha.
O Demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste necrócio ? ... Negócio.
Que causa tal perdição? ... Ambição .
E no meio desta loucura? ... Usura.
Quais são seus doces objetos? ... Pretos.
Tem outros bens mais maciços? ...Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos ?...Mulatos.
Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos , mestiços, mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos ?...Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos ? ...Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando,
Meirinhos , guardas, sargentos.
E que justiça a resguarda ?...Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?...Injusta.
Valha - nos Deus , o que custa."
E a justiça bastarda , vendida e injusta , em Pindorama, versão 2021 , ainda vigora ?
Com a palavra Gregório de Matos - Boca do Inferno .
Pode ser uma imagem em preto e branco de 1 pessoa e barba
Jandira Cardoso, Maria Socorro Lima Giambarba e outras 8 pessoas
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 Os Urubus, de Otávio Lôbo

Para o bibliófilo e pastor de almas , Dr. Francisco de Assis Júnior.
" Não sei se todos, em criança tivemos esta casta volúpia. - Olhar urubus voando ... Naqueles tempos , quando a sombra da velha casa do " Canto Alegre" crescia na calçada da frente , eu me estirava num couro de ovelha e pascia a vista no côncavo do azul.
Mais longe , bem ao alto , onde a distância vai matando o agudo dos contornos , passa sereno um camiranga. Fisgo - lhe os olhos , dando linha ao infinito, qual fora um encantado papagaio de papel.
E a nódoa mingua num ponto, enterrando - se no céu, como alfinete em almofada de veludo. Outros surgem peneirando no ar. , gizando curvas morosas , virguladas de reentrâncias e pontuadas de indecisões, até que rumam o horizonte sem fim
Vezes há, tolda o levante um entrecuzar de asas delgadas como lâminas sarjando o espaço.
Por vezes, no equilíbrio do vôo, retraem de momento os encontros , num espreguiçar de cansaço. De raro , da altura , num arremesso de frecha, asas fechadas, dispara um tinga zunindo.
São urubus em raid.
Monótonos, negros , na majestade de vôo, pairam acima da contingência da terra.
Hoje espelham a imagem da vida. Altos e inacessíveis, perpassam como as ilusões intangíveis e fugidias.
Quem , desgraçado mortal , ousa alcancá - las, objetivando um sonho, sente o fastio do real, a decepção talvez de ver um urubu em marcha ..."
Composição " Urubus " , de João Otávio Lôbo (1892 - 1962 ) , nascido no município de Santa Quitéria, Ceará. Médico, escritor , professor universitário e político. Foi membro da Academia Cearense de Letras , e , da Academia Cearense de Medicina.
Nessa composição poética, o autor compara os urubus ( camiranga e tinga, termos de origem indígena) com a imagem da vida; voam alto , como as ilusões. Mas quem se aventurar a alcançar essas ilusões terá a mesma decepção que sentimos ao ver os urubus andando na terra: eles tão majestosos no espaço, são ridículos ao marchar no chão. ( Sânzio de Azevedo , em Literatura Cearense , 1976 ).
Há que se comparar estes urubus com certas criaturas vestidas de negro , habitantes de áreas planaltinas de Pindorama: majestosos, com semblante tosco, de nomes estrambóticos , inacessíveis , quase deuses , mas ridículos ao marchar no rés do chão.
Foto que ilustra a crônica: final de tarde , nesse sábado de aleluia no Porto das Dunas , onde, habitualmente, passeiam os camirangas.
Pode ser uma imagem de pássaro, nuvem e natureza
Valinda Matos, Sheylane Martins e outras 3 pessoas
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quinta-feira, 1 de abril de 2021

 Eu Vou Pra Lua

" Eu vou pra lua / mamãe, eu vou morar lá / sair do meu Sputnik/ do Campo do Jequiá / já estou enjoado aqui da terra / onde o povo a pulso faz regime / a indústria, o roubo , a fome , o crime / onde os preços aumentam todo dia / o progresso daqui é a carestia / não adianta mais se fazer crítica/ ninguém acredita na política/ onde o povo só vive em agonia / na lua não tem nome abreviado: / Ipsep , PM , nem Cofap, nem Ipase , nem Coap/ nem contrabando de mercadoria/ lá não falta água, não falta energia / não falta hospital , não falta escola/ é fuzilado lá quem come bola/ e morre na rua quem faz anarquia... / lá não tem juventude transviada / os rapazes de lá não têm malícia/ quando há casamento na polícia/ a moça é quem é sentenciada/ porventura se a mulher for casada/ e enganar o marido a coisa é feia / ela pega dez anos de cadeia / e o conquistador não sofre nada... ".
Letra do rojão " Eu Vou Pra Lua " , da autoria de Luiz de França e Ary Lobo ( 1930 - 1980 ), Gravadora RCA Victor , ano de 1960.
A letra , inocente e com certo viés machista , faz menção ao lançamento do satélite russo Sputnik , direcionado ao espaço sideral em 03. 11. 1957, tendo uma cadela de rua, chamada Laika , imolada, como inocente tripulante.
Mais de 60 anos se passaram e Pindorama continua como na cantiga da perua ( é de pior a pior, a cantiga da perua é uma só).
E " outros artefatos " russos , chineses , indianos , ingleses e americanos , orbitam sobre Pindorama , agora como tábuas de salvação de uma morbidade que aflige aos tementes filhos de Deus .
A simplicidade é uma complexidade resolvida. Mãos à obra!
Amém!
Pode ser uma imagem de arranha-céu e céu
Jandira Cardoso, Thermodiagnose Nogueira e outras 7 pessoas
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