domingo, 21 de outubro de 2018



- Dia do Poeta -

Homenagem a todos os Poetas;
em especial ao amigo Escritor e Poeta:
Francisco José Eleutério!
"Um rei medroso,
ordenou que fossem mortos
todos os pássaros do seu reino.
Assim se cumpriu.
Daquele dia em diante,
o canto que nascia vinha das entranhas das pedras.
Deu-se uma quebra no encantamento das coisas;
e dragões desembocaram do espaço.
Parecia que o mundo inteiro findava.
O rei,
desobrigado de sonho;
fechou os seus olhos de esquecer de acordar.
Então, as crianças se aliaram aos poetas
e desenharam um poema
de passarinhos ressuscitados.
Foi aí que pequeninas pedras
animaram-se a levitar.
Pouco a pouco ganharam penas,
bico, asas, gorjeio de pássaro.
E as crianças descobriram
que pedrinhas coloridas
são passarinhos disfarçados de chão.
Segredo milenarmente guardado.
Só o sabem, as crianças e os poetas."
♡ JCG

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O DIA DO PROFESSOR , UMA LEMBRANÇA
“ Vem cá , filho meu, disse-me minha mãe um dia. Quero que respondas com honestidade uma questão importante que vou lhe arguir . Quero saber neste momento se algo justifica que tenhas desejado ser professor . Diz- me , filho : se Deus te dera a ventura de voltar a nascer novamente , o que gostarias de ser ?
- Serias sacerdote?
- Creio em Deus, mãe, não nego sua existência, porém minha forma de sentir é tão débil que prefiro ser outra coisa.
- Provavelmente serias um médico?
- Os doutores, mãe, são seres que escolheram a missão mais difícil na vida, cuidar e preservar a vida humana .Bela profissão, porém não a desejo .
- Então, engenheiro?
Também, não, mãe, creio que jamais tenha pensado em laborar transformando matérias inertes em possíveis Torres de Babel . Engenheiro, jamais!
- Agora, se bem atinares, serias poeta, não?
- Que mais quisera eu, querida mãe, porém meu pensamento é tão torpe e minha pena tão débil que as musas do parnaso de mim fugiriam!
- Então, advogado?
- Para ser advogado necessitaria a obstinação de um Quixote e a sensatez de um Sancho Pança . Ser advogado seria demais para mim. Se Deus me dera a dádiva de nascer novamente, tornaria a beber para aplacar a minha sede , a água de um regato, tornaria a dormir sob a copa de uma árvore , cansado , mas feliz ,com um livro debaixo do braço. Voltaria a escutar vozes infantis, respondendo presente a minha chamada. Sim, mãe, ainda que houvesse mil e uma profissões, se Deus me dera a ventura de voltar tudo de novo, não duvides, mãe, eu tornaria a ser um simples professor “ .
Com um naco de luz, agarrando-me à vida com as unhas, mostrando um rosto riscado pelo tempo, desço eu, médico menor e aprendiz de mestre, solitário, como soe acontecer nestas horas, as escarpas da montanha onde, por mais de quatro décadas, permaneci como curador e , humilde professor , no topo de meu pequeno mundo . Na íngreme descida com o olhar baço, pelo cansaço dos dias e pela tola lágrima que teima em rolar, vejo vocês, queridos alunos , banhados em luz , como que bailando , subindo na merecida busca de um lugar no ápice da montanha . Isto me apraz e conforta, pois sei que algo de mim e de seus queridos mestres da vida permanecerão em vocês. Jamais esquecerei de suas doces presenças, verdadeiros bálsamos para minha solidão .
“Excertos de uma despedida de meus amados alunos da UECE “ .
Saudades e, parabéns a todos os professores!

domingo, 14 de outubro de 2018

Fim de tarde no Porto das Dunas


Um fim de tarde, com o Rei Sol caindo de sono, sem querer entregar os pontos. E que segue em frente , a contra gosto, para ser engolido pela terra ,lá nos confins do mundo, acompanhado por um mar de carneirinhos vagando no céu.
É um momento propício para papear com o mago poeta Manoel de Barros , nascido em Cuiabá, Mato Grosso, em 19 de dezembro de 1916 ,e que empreendeu viagem para as nuvens do divino , em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 13 de novembro de 2014 , aos 97 anos:

"Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que eu faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore.

Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio.
 Era o menino e as árvores ".

sábado, 13 de outubro de 2018

Tempo de Sonhar

Porque é tempo de sonhar, porque sempre é tempo de poesia , porque convém acreditar na eterna infância do homem :
"Num meio - dia de fim de primavera/tive um sonho como uma fotografia /vi Jesus Cristo descer à terra/veio pela encosta de um monte/tornado outra vez menino/a correr e a rolar-se pela erva/e a arrancar flores para as deitar fora/e a rir de modo a ouvir-se de longe/tinha fugido do céu/ era nosso demais pra fingir/de segunda pessoa da Trindade/no céu era tudo falso, tudo em desacordo/com flores e árvores e pedras/no céu tinha que estar sempre sério/e de vez em quando/de se tornar outra vez homem/
E subir para a cruz , e estar sempre a morrer/hoje vive na minha aldeia comigo/é uma criança bonita de riso natural/limpa o nariz ao braço direito/chapinha nas poças de água/colhe as flores e gosta delas e esquece-as/atira pedras aos burros/rouba fruta dos pomares/e foge a chorar e gritar dos cães/ e porque sabe que elas não gostam/ e que toda gente acha graça/corre atrás das raparigas/ que vão em ranchos pelas estradas/com bilhas à cabeça/e levanta-lhes as saias/
A mim ensinou-me tudo/ensinou-me a olhar para as pessoas/aponta-me todas as coisas que há nas flores/ele mora comigo na minha casa no meio do outeiro/Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava/Ele é o humano que é natural/Ele é o divino que sorri e que brinca/ e por isso é que eu sei com toda certeza/que ele é o Menino Jesus verdadeiro/e a criança tão humana que é divina/é está minha cotidiana vida de poeta/ e é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre/e que o meu mínimo olhar/ me enche de sensação/ e o mais pequeno som, seja do que for/ parece falar comigo/ a criança nova que habita onde vivo / dá- me uma mão a mim/ e outra a tudo o que existe/e assim vamos os três pelo caminho que houver/saltando e cantando e rindo/e gozando o nosso segredo comum/ que é o de saber por toda parte/ que não há mistério no mundo/e que tudo vale a pena/
A Criança Eterna acompanha- me sempre/ a direção do meu olhar é o seu dedo apontando/ o meu ouvido atento alegremente a todos os sons/são as cócegas que ele me faz, brincando nas orelhas/
Damo-nos tão bem um com o outro/ na companhia de tudo/que nunca pensamos um no outro/mas vivemos juntos e dois/com um acordo íntimo/com a mão direita e a esquerda/ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas/ no degrau da porta de casa/graves como convém a um deus e um poeta/ é como se cada pedra/fosse todo um universo/ e fosse por isso um um grande perigo/ deixá-la cair no chão/
Depois eu conto- lhe histórias de cousas só de homens/ e ele sorri, porque tudo é incrível/ ri dos reis e dos que não são reis/ e tem pena de ouvir falar das guerras/ e dos comércios, e dos navios/ que ficam fundo no ar dos altos mares/porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade/ que uma flor tem ao florescer/ e que anda com a luz do sol/ a variar os montes e os vales/ e a fazer doer aos olhos os muros caiados/ depois ele adormece e eu deito-o/ levo-o ao colo para dentro de casa/ e deito-o, despindo-o lentamente/ e como seguindo um ritual muito limpo/ e todo materno até ele ficar nu/ Ele dorme dentro da minha alma/ e às vezes acorda de noite/ e brinca com os meus sonhos/ vira uns de pernas para o ar/ põe uns em cima dos outros/ e bate palmas sozinho/ sorrindo para o meu sono/

Quando eu morrer , filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno/ pega- me tu ao colo/ e leva- me pata dentro da tua casa/ despe o meu ser cansado e humano/ e deita - me na tua cama/ e conta- me histórias, caso eu acorde/ para eu tornar a adormecer/ e dá- me sonhos teus para eu brincar/ até que nasça qualquer dia/ que tu sabes qual é! "

Alberto Caeiro ( Fernando Pessoa) : 1888 - 1935.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Um País se Faz com Homens e Livros 


Num cruzamento de ruas numa zona rica de Fortaleza , diariamente, um mendigo franciscano conversa com as aves e traz conforto e alimento para as mesmas.O pobre homem, sempre repousa a vista num velho livro , alheio ao perigo dos veículos que por ali transitam.
Quando este bolsão de pobreza, onde seres humanos passivos , sem eira nem beira , caminham rumo ao grande abatedouro de gentes, vai ter um fim ?
Os "circos mambembes" prenhes de políticos do baixo clero espalhados no vasto território de Pindorama, perpetuam os velhos palhacos sem graça, repetindo as mesmas piadas grosseiras com palavras de baixo calão.E para piorar , o mapa degradante da tragédia dantesca se concentra nas áreas mais carentes e desassistidas de Pindorama , onde os livros são objetos inacessíveis à população destes perdidos grotões !


A alma humana se parece com a água : vem do céu, para o céu sobe, e novamente para baixo à terra precisa ir, mudando eternamente./desce do alto do íngreme rochedo o jato puro, então eleva - se mansamente em ondas de nuvens para a rocha escorregadia, e recebida facilmente, domina veladamente, rumores em silêncio para dentro da profundeza. /escolho erguido contra a queda, espumeja contrariada progressivamente para o abismo./no leito raso arrasta - se para os prados./e no mar sereno contemplam sua face todas as estrelas./ o vento é da onda gentil galanteador; o vento mistura a partir do fundo vagalhões espumantes./ alma da pessoa, como te pareces com a água! Destino da pessoa, como te pareces com o vento! 
Canto dos espíritos sobre a água, de autoria de Johann Wolfgang Goethe (1749 - 1832).

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Uma Simples Lição de Ciências

Socorrendo , há pouco, uma pequena criatura de Deus numa tarefa escolar de Ciências. Assunto : Coração. 
O livro dispara a pergunta :" Para que serve o coração?
O socorrista/pastor de almas , estufa o peito e manda :
"Para enviar o sangue, este milagroso líquido, para todo o corpo"
Minha aluna, escreve , obediente , a resposta :
" Para causar sofrimento , pai ! E como dói! O senhor fala pela ciência , e eu do fundo do meu coração "

E o doutor engolindo o choro:
" Tá bom , filha !Fim de papo ".

"Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição dos seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo,
E em si mesmo se sente diferente ,
Como faz mal ao sonho concebê-lo!
Sossega , coração! Dorme !
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme "

Sossega Coração, da autoria de Fernando Pessoa ( 1888 - 1935 ).