sábado, 7 de novembro de 2026

 Olavo Bilac : " Ouvir Estrelas " , O Dinheiro " .

" Ora ( direis) ouvir estrelas ! Certo ,
Perdeste o senso " E eu vos direi , no entanto,
Que , para ouvi - las , muita vez , desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite , enquanto
A via - láctea , como um pálio aberto ,
Cintila . E , ao vir do sol , saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora : " Tresloucado amigo !
Que conversas com elas ? Que sentido
Tem o que dizem , quando estão contigo ? "
E eu vos direi : " Amai para entendê-las !
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas ."
" O dinheiro é uma força tremenda , onipotente ,
Assombrosa . Todos o amam , todos os procuram , e , entretanto , todos dizem mal dele.
O maior crime do Dinheiro é este : ele é o grande corruptor , o grande envenenador das almas , o grande prostituidor das consciências . É o seu crime formidável e terrível. Portas , que se conservam fechadas , resistindo ao duro embate de um aríete de ferro, abrem - se ao tímido e quase indistinto bater de uma moedinha de ouro ...
O dinheiro alucina as almas e dá - lhes ambições que não obedecem a nenhum freio . O primeiro milhão possuído excita, acirra , assanha a gula do milionário. É um declive fatal e terrível, um despenhadeiro em que o especulador não pode parar. Essas grandes fortunas , essas realezas do Milhão, esta plutocracia ( poder do dinheiro) brutal , em que há o rei das estradas de ferro, o do petróleo, o do ouro , o dos diamantes , o da navegação, e até o do trigo , - estas grandes fortunas , mantendo e desenvolvendo cada vez mais a ambição, acabam por converter os milionários em novos reis Midas , desejosos de poder transformar em ouro tudo quanto as suas mãos tocam .
Conheceis a lenda do rei Midas ... Midas , rei da Frígia , rei pastor e patriarca , vivia feliz , amado do seu povo . Bateu - lhe um dia à porta do palácio , que era uma choupana, um viajante cansado. Midas acolheu- o com carinho , deu - lhe um pouco do seu pão e da sua água. O viajante era o deus Baco, que agradecido , prometeu ao seu hospedador conceder - lhe quanto lhe pedisse . O imprudente só soube pedir uma coisa : " Quero, ó filho de Júpiter e Semele, que tudo quanto eu toque se transforme em ouro ! " Desgraçado ! O castigo da sua ambição não se fez esperar , e foi tremendo . Ao contato de suas mãos, tudo se endurecia , tudo brilhava , tudo faiscava mudado em ouro : era ouro duro e frio o alimento que levava à boca, era ouro rijo e gelado a água com que procurava mitigar a sede ....
Diz a lenda que o suplício de Midas não foi eterno . Baco , compadecido, pôs termo a essa tortura sem nome , ordenando ao rei infeliz que se fosse banhar na água do rio Pactolo, cujas areias , desde então, se transformaram em um espesso lençol de ouro puro e fulgente .
Não durou toda a vida o castigo de Midas , mas dura toda a vida a ambição dos seus sucessores " .
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac ( 1865 - 1918 ) , o maior vulto do Parnasianismo Brasileiro , espírito sequioso de perfeição artística e enamorado da beleza .
E Pindorama hoje , decadente , mostra o vil poder do metal que constrói e destrói coisas belas . Até quando?

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